terça-feira, 21 de setembro de 2010

O colarinho branco


Há tempos e por ocasião do lançamento de um livro intitulado “Para Além da Prisão” promovido pelo ministério da Justiça, através da Direcção Geral dos Serviços Prisionais, fui convidado com pompa e circunstância, com lugar marcado à frente e tudo. Eu não estou habituado a estas mordomias. Fiquei contente. Pelos vistos o meu projecto estaría a dar nas vistas na medida em que sou umas das 14 instituições da sociedade civil que trabalha em parcería com o sistema prisional.

Nessa ocasião estavam presentes várias individualidades entre elas o ministro da justiça, a directora geral dos serviços prisionais e um Senhor chamado Laborinho Lúcio. Refiro o nome desse senhor pois a dada altura e discursando para a plateia ele prevê entre outras coisas algo que me alertou para o que ele diz ser o futuro da justiça e do sistema judicial, e que na sua perspectiva os serviços prisionais teriam de se preparar para um novo tipo de “clientes” – os do “colarinho branco”.

Temos que dar nomes às coisas, claro, e neste sentido “colarinho branco” significa que são pessoas que ao serem presas terão que ter um tratamento diferenciado dentro das prisões. Isto é interessante por inumeras razões inclusivé a de que o sistema prisional diferencia à partida dois tipos de “clientes”, os "normais" e os do "colarinho branco".

O que o Senhor Laborinho Lúcio não previu no discurso que proferiu cheio de recados para todos os que o estavam a ouvir é que estava a falar sózinho ou para o ar, como preferirem. Pelos vistos as pessoas “colarinho branco” são muito renitentes a cumprirem as regras do jogo.

Senão, e não é preciso fazer um exercício por aí além complexo, ter “colarinho branco” significa ter capacidade financeira suficiente para protelar indefinidamente uma desisão de um tribunal que se fosse com outra pessoa dita “normal” era logo posta a cumprir a sentença que lhe foi aplicada. Isto não é justiça. É injustiça. Parágrafo!

Lembro-me de ouvir comentários do género “ele tem a mania” ou “quer ficar bem na foto” ou “só fala assim porque está ali o ministro”. Enfim, entre o que ele disse e os comentários que foram feitos a seguir fica algo que é um vazio enorme e que me faz pensar que o problema, a ser um problema, não está nas pessoas de “colarinho branco” mas no sistema como um todo. Afinal de contas parece existirem dois tipos de cidadãos. Os que têm e os que não têm “colarinho branco”. E isto é de tal modo verdade que nas mais altas instâncias dos que governam este país é facto consumado que terão de haver condições diferenciadas para pessoas diferentes... Impressionante.

Pelos vistos e aos olhos do Senhor Laborinho Lucio, do ministro da justiça, da directora dos serviços prisionais, dos directores das prisões, dos guardas prisionias, dos que estão presos e da grande maioria de nós há de facto dois pesos e duas medidas. Se assim não fosse e sendo a justiça cega, ao haver uma pronuncia de um tribunal ela tería de ser cumprida, imediatamente. E de facto é-o... para quem não tem “colarinho branco”, óbvio.

Beijinhos e essas coisas,

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Ser humano


Há tempos recebi na minha caixa de mail a história curiosa sobre o que supostamente andam a fazer aos cães em Fátima. São duas ou três fotos de uma caixa relativamente pequena, em armação de ferro e revestida com uma rede tipo galinheiro. Lá dentro, estão vários cães amontoados uns em cima dos outros, visivelmente por falta de espaço e como é obvio em sofrimento. Talvez seja possivel uma pessoa pegar na caixa com algum esforço.

Quem me enviou o mail comenta-o com indignação e repulsa. Julgo que pelos mails que já recebi anteriormente com as mesmas imagens a verdadeira história (se for) é a de que os cães são supostamente encarcerados assim pois estão à espera, sem que o saibam, de ser abatidos. E tudo se passará não em Fátima mas algures na China.

Limito-me a observar as imagens que relatam o processo de transporte e abate de cães para depois serem esfolados, esquartejados e posteriormente cozinhados para alimentação humana. As pessoas que o fazem têm os olhos em bico o que persupõe serem chineses. Bem sei que pode não ser verdade mas que hei-de fazer? É uma mera tentativa do meu cérebro descurtinar e organizar uma determinada realidade, olhos em bico – chineses.

Não tenho nada contra os chineses. Só se eu fosse completamente idiota é que me iria aborrecer com os chineses. Talvez fosse mais fácil chatear-me com os ciganos por serem menos. Também não tenho nada contra os ciganos. Nem contra os muçulmanos. Nem contra os pretos. Nem contra os gays. Nem contra ninguém. Haverá uma ou outra excepção, mas de uma maneira geral eu vou aguentando todas essas variáveis minoritárias do ser humano, tendo em conta que para os chineses eu serei parte de uma minoria. É tudo relativo.

O meu avô, era eu pequeno, dizia-me que se os chineses resolverem espirrar todos ao mesmo tempo virados para este lado nós caímos ao mar. Ele foi veterinário para além de outras profissões e tinha “coluna vertebral”, termo caído em desuso, infelismente mas compreensivelmente. Aprendi com ele a minha relação com os animais. Tive essa sorte pois nunca o vi desrespeitar os animais na sua condição de animais que são. Hoje, não estando o meu avô presente fisicamente, está-o em consciência, na minha memória e no que ele me ensinou, mostrou e fez sentir. Chama-se educação.

Voltemos aos cães encarcerados à espera de serem abatidos. Concordo com o comentário que vinha com as imagens. De facto aquilo não é maneira de se tratar um ser vivo. Mas então e os frangos? Eu gosto de frangos. A sério. São giros, curiosos. Com aquela crista encarnada no alto da cabecita e como têm um olho para cada lado têm de andar sistemáticamente a mover a cabeça de um lado para o outro para verem em frente. Não são fáceis de educar de facto, mas há quem o faça que eu também já vi na internet.

Talvez ser humano seja isso. Uma estranha condição de colectivo, onde há bocas que comem cães e outras que comem frangos. Depois é uma questão de nos posicionarmos. É uma questão cultural e de sobrevivência... ou de gosto culinário. Sei lá.

Pessoalmente não quero acreditar mas talvez já tenha comido gato por lebre em algum restaurante chinês... ou cão.

Beijinhos e essas coisas,

terça-feira, 7 de setembro de 2010

A mochila


Há tempos fui com a minha filha comprar uma mochila para ela levar os livros para a escola. É de uma marca estrangeira de mochilas daquelas vulgares de trazer às costas. É leve, de facto. A minha filha que é uma pessoa discreta quis a mochila num tom acinzentado se não me falha a memória. Entrámos na loja, ela escolheu-a e eu fiz o meu papel. Saquei do cartão mágico. Sim! Aquele cartão que serve para pagar sem dinheiro. Imaginem se de repente a banca ganhasse um virus qualquer generalizado e tudo deixasse de funcionar. Era o Carmo e a Trindade. Adiante.

A mochila custou quarenta a tal euros. Sim. Eu repito, quarenta e tal euros. Acham que gostei de dar tal quantia por uma mochila à primeira vista igualzinha à da loja do lado que custava só dez euros? Claro que me custou. Pessoalmente acho uma indecência. Mas, e pasme-se! A diferença é tão somente que esta mochila em concreto vem com uma garantia de trinta anos. A sério. Trinta anos. É pá! Trinta anos de garantia para uma mochila “escolar” é muita fruta. Vai servir para os netos, pensei.

Por outro lado e depois de verificar as particularidades da dita mochila, observei que as costuras são realmente fortes. Que os fechos de correr têm aparentemente uma certa robustez. Que as alças têm ar que aguentar uns bons quilos. E que o tecido com que a mochila é feito não obstante ser parecidissimo com o tecido das outras mochilas, tem de ser diferente. Tem de ser! Por quarenta e tal euros, tem de haver diferenças. Mesmo que eu, leigo na matéria no que diz respeito aos materiais usados na confeção de mochilas, não perceba nada do assunto, presumo que tem de haver diferenças. Custa-me aceitar que é só uma questão de moda e de marca. Não tenho a minha filha nessa linha de atitude social. Mas se for o caso compreendo-a lindamente.

Ela explicou-me que para a quantidade de livros que tem de levar todos os dias para a escola esta é a melhor mochila. E por falar em livros, hei-de perguntar à mãe da minha filha quanto custa o somatória de todos os livros escolares que ela precisa para este ano lectivo que vai começar. Eu que nasci no milénio passado, tinha um livro e duas sebentas. Depois com a revolução de 74 passei a ter muitos livros e cadernos (tinha dez anos à altura). E depois com o passar dos anos e com o amadurecimento da “democracia” passei a mudar de livros todos os anos. E a situação mantém-se até aos dias de hoje. Os livros que a minha filha usa não vão servir para o meu outro filho que é mais novo três anos.

Eu sei (toda a gente sabe) que é um “lobbie” violentissimo das editoras que vegetam à volta do ministério da educação e que no final até parece que as coisas são assim porque têm de ser assim. Mas não. A educação social é um negócios que gera milhões. Eu sei (toda a gente sabe). E também (toda a gente sabe) sei que o poder argumentativo e pesuasivo desses “lobbies” é tão violento, horrivel e pernicioso que vivemos neste estado de coisas aceitando-as como certas. Nem falarei do “Magalhães” que até me mete nojo. Adiante.

Há dias e sem que nada o fizesse prever o meu filho também quis uma mochila daquelas. Foi a mãe dele! De certezinha! Deve-lhe ter dito “Pede ao teu pai!”, claro! E pronto. As aulas vão começar e os meus dois filhos vão ser devidamente educados com mochilas de marca, livros cheios de gralhas com programas alterados, com greves de professores, e essas coisas próprias de um sistema democrático tão pernicioso quanto o é o “Caso Casa Pia”. Nem sei o que diga ou escreva. Faltam-me as palavras. Talvez tenha sido uma revolução pacífica de mais, não sei. Às vezes penso nisso.

Beijinhos e essas coisas,

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

O dois de Maio


Há tempos e a propósito de uma pessoa amiga que está desempregada mas tem uma ótima vida, só que coitada, não consegue desfrutá-la, fui tentar perceber o que era de facto o trabalho. O “direito ao trabalho” é um conceito interessante para manter as pessoas num estado de ansiedade permanente para terem trabalho. É um desejo/necessidade incutidos. O curioso depois é que se contam pelos dedos das mãos as pessoas que são felizes com o trabalho que têm.

Levei algum tempo a perceber que o conceito em si não faz sentido. Ninguém devería ter de trabalhar a não ser que de facto quisesse. E também há os que só trabalham pois não sabem fazer mais nada- boa para eles. Havia de haver um dois de Maio. Isso é que era uma festa. Para celebrar o dia do não trabalhador, que se formos a ver há-os aos milhões. Vem aí o Inverno. Vai ser bonito.

Frases soltas copiadas da internet:

“A expansão portuguesa é indissociável da escravatura. O seu móbil não foi a difusão do cristianismo, nem tão pouco se centrou no ouro ou marfim, mas sim nos escravos. Eles eram a mão-de-obra que geravam a riqueza. O próprio Infante D. Henrique, em 1443, chama a si o monopólio da sua exploração.”

“O legislador português encara as férias não só como um gozo pessoal do trabalhador mas também como uma forma essencial para o desenvolvimento nacional. "...O direito a férias deve efectivar-se de modo a possibilitar a recuperação física e psíquica dos trabalhadores e a assegurar-lhes condições mínimas de disponibilidade pessoal, de integração na vida familiar e de participação social e cultural.”

“À entrada de Auschwitz I lia-se (e ainda hoje se lê) as palavras: "Arbeit macht frei" (o trabalho liberta). Os prisioneiros do campo saíam para trabalhar durante o dia nas construções do campo, com música de marcha tocada por uma orquestra. As SS geralmente seleccionavam prisioneiros, chamados kapos, para fiscalizar os restantes. Todos os prisioneiros do campo realizavam trabalhos e, excepto nas fábricas de armas, o domingo era reservado para limpeza com duches e não havia trabalho.”


“Os Tempos Modernos de Charlie Chaplin em 1936. Um filme que marca um século inteiro. Filmado num período marcado pela grande depressão e pela luta do homem pela felicidade contra o trabalho escravo.”

“O trabalho é um fator económico. Usualmente os economistas medem o trabalho em termos de horas dedicadas (tempo), salário ou eficiência.”

“O teu trabalho será medido pelo suor do teu rosto! - Era a maldição de Jeová sobre Adão.”

“Num dia soalheiro de Verão, a Cigarra cantava feliz. Enquanto isso, uma Formiga passou por perto. Vinha afadigada, carregando penosamente um grão de milho que arrastava para o formigueiro. - Por que não ficas aqui a conversar um pouco comigo, em vez de te afadigares tanto? - Perguntou-lhe a Cigarra. - Preciso de arrecadar comida para o Inverno - respondeu-lhe a Formiga. - Aconselho-te a fazeres o mesmo. - Por que me hei-de preocupar com o Inverno? Comida não nos falta... - respondeu a Cigarra, olhando em redor. A Formiga não respondeu, continuou o seu trabalho e foi-se embora. Quando o Inverno chegou, a Cigarra não tinha nada para comer. No entanto, viu que as Formigas tinham muita comida porque a tinham guardado no Verão. Distribuíam-na diariamente entre si e não tinham fome como ela. A Cigarra compreendeu que tinha feito mal... Moral da história: Não penses só em divertir-te. Trabalha e pensa no futuro.”

Enfim... tento posicionar-me.

Beijinhos e essas coisas,

terça-feira, 24 de agosto de 2010

O emigrante


“Nunca te esqueças que a inveja é o defeito principal dos portugueses. Por isso toma cuidado sempre que fizeres as coisas bem feitas. Muitos dos que estarão à tua volta não pretendem valorizar-se para serem melhores do que tu, mas querem apenas que tu nunca tenhas condições que te permitam parecer melhor do que eles” – Francisco Salgado Zenha


Há tempos o meu irmão despediu-se do emprego que tinha.

Ele tinha um bom emprego. Umas condições de trabalho ótimas. A sério. Eu ainda estou um pouco perplexo acerca da sua tomada de posição. Despediu-se simplesmente. Nada de subsídios, nada de compensações, nada. O tipo ou é parvo ou é maluco. Ninguém no seu perfeito juízo se despede desta maneira nesta altura do campeonato. Ou não? Eu que me lembre e de cada vez que alguém é despedido, oiço falar em indeminizações que se me fossem entregues a mim eu nunca mais trabalhava na vida.

Pois o meu irmão e seguindo a linha de raciocínio para o qual eu e ele fomos educados, fartou-se. E quando uma pessoa se farta das duas uma ou toma comprimidos e alcool e pronto, ou muda de vida. Ele optou pela segunda. É o maior! Sendo ele meu irmão o que eu desejo às pessoas que o levaram a tomar esta decisão tão difícil e arriscada é doses massissas de amor. Algo que aprendi ao longo da vida. Nunca odiar quem nos quer mal. Ou até indo mais longe, amá-los e ter compaixão deles. É lindo!

Ele está ótimo. Tem gerido bem o tempo. Ele não é nada parvo. Tem passeado, relaxado e curtido este momento de paragem profissional viajando pelo país, cultivando as amizades que mantém e mantendo-se fiel aos amigos. Tiro-lhe o chapéu. O meu irmão é um tipo com objectivos precisos. Ele sabe o que quer.


Curiosamente e contra tudo, ou não, ele vai emigrar. Diz que está farto deste país. Que está farto de contribuir para o Estado, coisa que até compreende, mas que não aceita, por exemplo que se quiser ter filhos tenha de os increver no infantário antes mesmo de os ter. Ele não tem filhos ao contrário de mim que tenho dois. Talvez ele os venha a ter. Estará sempre a tempo. Quem sabe até os vai ter no país para o qual pretende emigrar. Sei lá. Se calhar eu gosto do meu irmão porque ele é meu irmão, parágrafo. O meu maior desejo para o meu irmão é que ele seja feliz. Melhor não se pode desejar, suponho.

Há tempos li algures que o Mourinho não quer voltar para Portugal. Calculo que se eles se encontrassem teriam imensas coisas em comum para conversar. Como eu os compreendo. Vou escutando por aqui e por ali que estamos a exportar as nossas mentes mais brilhantes. Tempos houve em que só exportámos mão de obra barata. Sinais dos tempos.

Talvez haja uma revolução. Já se fala nisso. Talvez desta vez possa ser de facto uma revolução. Em vez de cravinhos encarnados lançaremos as tradicionais pedras da calçada portuguesa para fazer juz aos portugueses que lutaram por Portugal, que nunca emigraram ou fugiram mas antes pelo contrário ficaram e aguentaram. Alguém tem que o fazer.

Vou-lhe pedir para me ir enviando uns postais. É giro.

Beijinhos e essas coisas,

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O Jacinto


Há algum tempo e não foi muito, se calhar até foi ontem. Um casal de jovens (neste caso um esquisito casal de homem/mulher), isto anda tudo trocado e não vá o diabo tecê-las é preciso ser especifico nesta coisa dos casais. Adiante, ele chamava-se Jacinto e ela Gertrudes. Ele bancário e ela dona de casa.

A Gertrudes era uma mulher prendada, boa dona de casa e boa esposa ou mulher (eu prefiro mulher). A casa sempre impecável e o jantar sempre à espera do marido. Melhor não podia ser. Vamos imaginar que era boa como o milho, dá mais interesse à história. A Gertrudes era uma mulher voluptuosa. Daquelas com um peito que parece uma máquina de passar o cartão de multibanco. Enfim... pareceres de homens, já sabem como é. E era doce. Ai.... tão doce.

Por outro lado, e o meu lado masculino não me permite uma apreciação emocional da coisa, o Jacinto, sem que eu saiba se é bonito ou não, dava nas vistas pelo seu porte atlético, postura sempre correta das costas, bem vestido e com as mão impecáveis. O cabelo propositadamante desarranjado e uma atenção especial para com os outros, sempre atencioso com as mulheres mas nunca deixando de transparecer o seu grande amor pela Gertrudes. Enfim, aos olhos dos outros e de eles próprios eles eram mesmo felizes. Daquelas felicidades que só se vêm nos filmes. Eram felizes todos os dias. Aquilo até chateava. Eram um casal sempre apaixonado. O Jacinto, ele era flores e bonbons, e banheiras cheias de águas de cheiro e pétalas de rosas. Jantavam sempre à luz das velas. E por mais que pensássemos, nunca se tornava enfadonho. Uma maravilha de casal. Uma inveja.

Um dia, julgo que terça-feira, o Jacinto sai de casa, despedindo-se da Gertrudes com um sentido e adocicado beijo nos lábios. "Adeus amorzinho". Por principio o Jacinto deixava sempre a mulher a dormir. Ele achava que era uma questão de justiça pelo tratamento que ela lhe dava todas as noites sem excepção. Aqui era um fartote e não vamos entrar em pormenores... Nessa terça-feira, portanto o Jacinto sai de casa e espera pelo elevador. Eles moram naquelas torres na Expo que parecem uns barcos mesmo por cima do centro comercial (deve ser ótimo deve). Todos os dias a mesma rotina. O Jacinto chama o elevador e depois de entrar carrega para a cave três. Ora como eles moravam no vigésimo segundo andar, aquilo era uma eternidade para lá chegar a baixo. Depois metia-se no seu carro de luxo de dois lugares descapotável e esperava meia hora só para sair da garagem. Um verdadeiro calvário, preço a pagar para se ter estatuto.

Nessa terça feira ao chegar ao carro dá conta que se esqueceu das chaves do carro. Fazendo o percurso inverso Jacinto volta a casa. Ora quando o Jacinto mete a chave à porta, a Gertrudes que contra todas as expectativas, já estava enrolada com o segurança do prédio, diz-lhe "Ai meu deus que vem aí o meu marido. Faz qualquer coisa" E ele fez. Os seguranças costumam ser assim uns tipos enormes cheios de musculos e sem pêlos e a cheirar a desodorizantes que na embalagem têm fotos de homens parecidos com eles. Mas... não sei bem porquê denotam no semblante alguma falta de sensibilidade ou lá o que é que eu não sei explicar. Adiante.

Enquanto o Jacinto se encaminhava para o quarto a fim de pegar nas chaves do carro, o segurança tenta meter-se debaixo da cama, mas ou a cama era baixou ou ele era enorme, tentou o armário e também não cabia lá. Os dois em pânico, ela deitada na cama tremia que nem varas verdes e o segurança sabia que o Jacinto era perito em Jujitsu e outras artes tais que cortava os bifes à chapada e pregava pregos à cabeçada.

A porta do quarto abre-se e o Jacinto acende a luz. Era uma daquelas luzes que sobem ou descem de intensidade. Ele de facto preocupava-se com esse tipo de pormenores, sempre preocupado com o bem estar da mulher. O segurança com a aflição e sem mais recursos planta-se num canto do quarto agaixado e nú. E foi por mero acaso que Jacinto reparou nele. Parecia um candeeiro de pé. Estático, imóvel. Não fossem as lágrimas do segurança que ao escorrerem pela cara e sobe o efeito da luz ténue mas forte o suficiente para devolver o reflexo, de facto Jacinto nem teria dado por ele. Mas deu. E quando deu, agarrou no interruptor redondo e rodou-o de modo a que se fizesse luz. E fez...

Olhou para a mulher, que espreitava por detrás da dobra do topo do lençol. Só se lhe via os olhos muito abertos e o cabelo mal amanhado. Voltou-se outra vez para o que parecia um candeeiro, outra vez para a mulher, suspirou, poisou a mala, as chaves e perguntou num tom calmo à mulher, apontando para o candeeiro (ou o segurança como preferirem), "O que é isto?"... A mulher, Gertrudes, deixa descair um pouco o lençol de modo a que o pouco som que lhe iria tentar reproduzir e num esforço inumano conseguisse alguma projecção e chegasse aos ouvidos do Jacinto - o cornudo. Não há volta dar, foi nesse preciso momento que a alcunha ficou e se manteve até hoje – Jacinto, o cornudo. E ela disse "É um robot."... ... ... "Um robot?", repetiu Jacinto. O candeeiro ía caindo mas manteve-se firme. "Mas um robot como? O que é que queres dizer com isto?". Após uma eternidade de dois segundas ela responde "É um robot para me ajudar na lida da casa, ainda não te tinha contado? Foi uma senhora muito simpática que o deixou cá ontem para uma demonstração grátis, mas se não gostas devolve-se já".

Curiosamente ou não o candeeiro, ou o segurança, que segurança não tinha nenhuma naquele instante... começa a empalidecer. Algo lhe dizia que era melhor fugir mas encontrando-se como veio ao mundo e tendo o Jacinto a barrar-lhe a entrado do quarto pouco podia fazer que não fosse deixar escorrer as lágrimas e o suor da testa. Por mais que pensasse nisso não conseguia imaginar-se transforma-se num candeeiro que naquele instante e contra tudo o que ele pudesse imaginar na vida era o que mais desejava naquele instante.

O Jacinto desaperta a gravata. Dá um jeito ao pescoço que faz estalar a estrutura óssea por três vezes e aproxima-se do segurança. Este mija-se. A mulher recolhe-se nos lençóis. O Jacinto despe o casaco e pendura-o levemente no cabide de madeira, daqueles de pé muito giros e cheios de estilo. Tira a gravata, desaperta a camisa, tira os botões de punho, e despe a camisa. Se alguma coisa o identificava com o candeeiro era a falta de pêlos, pois de resto o corpo do Jacinto estava coberto de tatuagens feitas no Japão por altura de uma visita que fez à família. O seu avô era descendente de uma família de Yakuza, era um tatuador prestigiado entre as máfias de Tóquio. As tatuagens que lhe cobriam o corpo representavam a bravura e coragem da família da qual Jacinto Chen era descendente. Algumas estavam cruzadas com cicatrizes de lutas em treino intenso. Depois desaperta o cinto e despe as calças. As cuecas, não é que interesse mas eram Hugo Boss, daquelas de licra bem justas e pretas, revelando que os atributos de Jacinto não estariam em mão alheias, ao contrário do segurança que naquela altura mais parecia uma mulher tal era a contracção do dito cujo.

O Jacinto despe as cuecas. A mulher não resiste e espreita só com um olho "Tu queres ver?" pensa ela. ‎"Ai maezinha" pensa o segurança. E... pegando no segurança em peso Jacinto posiciona-se de modo a sodomizar violentamente o candeeiro. No momento em que o agarra pelos flancos ouve-se uma voz robotica saída não da boca do segurança mas antes dos tesctículos. Era impossivel alguém proferir uma palavra que fosse com aquele tom de voz. Muito menos um homem, a não ser que uma parelha de bois lhe estivesse a passar por cima dos testículos. "Avariado, avariado", dizem os testículos do candeeiro. "Avariado? O que é isto?” pergunta Jacinto à mulher que estava já com a cara toda destapada e os olhos e a boca completamente escancarados. "Hã?... diz? o quê? como?" responde ela. "Sim! O que quer dizer isto do avariado?". A mulher que parecia estar a viver um sonho responde sem dar conta (às vezes o cérebro tem destas coisas, fica em modo automático, por mais que nos esforcemos não nos lembramos de determinadas coisas, e esta pelos vistos era uma das quais o cérebro dela estava a mandar directamente para o arquivo morto), "Olha, nem vais acreditar mas mesmo antes de entrares estava a trabalhar lindamente".

O Jacinto, que pela pratica das várias artes marciais que mantinha há já vinte e dois anos, inspira fundo, relaxa e carrega no botão de levantar o estore - modernices. Pareceram três horas, o que de facto nem chegou a meio minuto. Abre a janela e enquanto a mulher tenta proferir um som para lhe meter algum juízo na cabeça, mas que de nada lhe servia pois as cordas vocais ganhando vida própria recusavam-se a vibrar, Jacinto, mais uma vez pega no segurança como se de uma tábua de engomar se tratasse e com ele no ar aproxima-se da janela. Cada andar são sensivelmente três metros, vezes vinte, dá... ora... vinte vezes três... isso... sessenta metros.

Portanto e retirando um frame isolado do filme, como se de um filme se tratasse, temos um quarto de trato fino com cama de casal e armários embutidos com portas de espelho. Uma janela ampla e aberta. Uma mulher deitada na cama com ar de quem viu o diabo nu e com uma pila daqui à China. E dois homens numa posição duvidosa. Um a agarrar no outro. Coloquemos então o frame no lugar devido e continuemos a história. Jacinto agarra no segurança, portanto, e dispara para o ar "Avariado, ai é? Então fora com o robot". Pois nesse preciso instante e colocando de parte todos os preconceitos, tabus e outras coisas que um verdadeiro homem latino possa alvitrar, o segurança (ou candeeiro - como o entenderem), tendo em conta o instinto básico de sobrevivência e contra todas as expectativas, com a voz muitissimo bem colocada, diz "Tente novamente. crrrr. Tente novamente."

Conclusão: Ter sempre a mente aberta para novas experiências pode ser sinal de imensa sabedoria e instinto de sobrevivência.

Beijinhos e essas coisas

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

A garrafa de dois litros de coca-cola


Há tempos preparava-me para ir para a praia. Um convite feito por duas mulheres. Eu estava parvo mas pensei, “que se lixe, vou”. Vesti o fato de banho, uma t-shirt imaculadamente branca, meti a revista no saco da praia já pendurado ao ombro e vou à cozinha lembrando-me que na noite anterior tinha deixado uma garrafa de dois litros de coca-cola no congelar por sugestão de uns amigos que vieram cá jantar. Ora, a garrafa estava estranhamente rija e o conteúdo congelado. Com o saco a tiracolo poiso a garrafa em cima da mesa na cozinha e por momentos reflicto, talvez já tivesse visto aquilo assim, uma garrafa de coca-cola congelada. Agarrei-a com cautela. Estava mesmo rija. Tentei desapertar a tampa. Nada. "Bolas", pensei "esta coisa está mesmo agarrada". Poisei o saco da praia e agarrei numa toalha das mãos.

‎"Não há-de ser a porcaria de uma tampinha deste tamanho que me vai vergar". Agarrei na base da garrafa de dois litros de coca-cola com uma ponta da toalha e com a outra ponta atirei-me à tampa "Tás tramada!", pensei. Num golpe seco mas decidido fiz rodar a tampa. Não sei mas julgo que terá rodado um quarto de volta. Começo a ouvir um som parecido com o que faz o spray do mata moscas. Isto vai, pensei. Esperei mais um pouco, talvez três ou quatro segundos, e enquanto apurava a atenção no som sibilante que saía da tampa da garrafa que entretanto agarrava firmemente com a mão, dou-lhe mais um quarto de volta. Nada.

Curiosamente começei a ver bolhinhas a subir por entre o gelo. Eu sei que o que derrete primeiro é o concentrado a que chamam coca-cola. Uma espécie de caramelo liquido que, quando era novo, uma das primas usava para fazer de bronzeador. Enfim... cada um com a sua. No fim quem gozava era o namorado. Adiante. Ah! E como era açúcar se não fosse o namorado, saía facilmente com a água. Tem lógica. Mas como referia antes as bolhinhas começaram a subir pela garrafa e o som aumentou um pouco. "Isto são 14h30. Ora às 15h20 tou na praia. Isto hoje não vai estar vento", pensei.

Passados, o quê? Três? Dois? Sabe-se lá. O tempo por vezes é relativo. Naquele momento pareceu parar. Talvez por momentos tenha perdido de facto a noção do tempo. Talvez o cérebro se recuse a acompanhar o tempo na medida em que não quer registar determinado tipo de acontecimentos. Quando era novo, um dia roubei o carro aos meus pais e acordei no hospital com a cabeça envolta em gaze. O cérebro não registou esse acontecimento. Chamam-lhe traumatismo craneano. É curioso pois ele esteve sempre acordado. Dizem.

Pois bem. A dada altura algo aconteceu. Dava jeito ter uma daquelas máquinas de filmar especiais que filmam tão rápido que depois até podemos ver em câmara lenta. O facto é que o tal caramelo de repente está a ser projectado por toda a cozinha. Toda! Tudo tinha aquele açúcar caramelizado. Inclusive eu e a t-shirt branca. A projecção da coca-cola fez-se por toda a área da cozinha, inclusive locais que em teoria não seriam acessíveis à fúria da besta. Dentro da torradeira por exemplo. As torradas feitas no dia seguinte cheiravam a caramelo. Não é mau. Foi preciso arrastar o frigorífico, lavar os bicos do fogão, lavar o tecto com lixívia, e mesmo assim ficou todo manchado, "Que se lixe", pensei, "Ninguém olha para o tecto". E passadas duas horas de extenuante e contrariada esfrega lá me dirigi para a praia. Quando lá chegei olhei bem para a cara das pessoas com quem fui ter e lembrei-lhes, a sorrir, da garrafa de coca-cola que tinham sugerido colocar no congelador para ficar fresca mais rápido. Foi assim uma espécie de ‎... A culpa foi vossa, estão a ver?

Não saberei se o liquido caramelizado serve ou não como bronzeador pois mal chegei à praia atirei-me logo para a água. Mas deu-me a experiência conhecimento para saber que para além do cuidado a ter com garrafas de coca-cola de dois litros no congelador, se acontecer algo parecido como Armagedão na cozinha, no dia a seguir, o que ficou na garrafa não sabe a nada. Uma porcaria.

Beijinhos e essas coisas,