terça-feira, 30 de novembro de 2010

O oportunista


Oportunismo - Atitude daqueles que preferem contemporizar, para atingir um fim, aproveitando-se das circunstâncias oportunas. Sistema ou prática política, que consiste em aproveitar-se das circunstâncias ou acomodar-se a elas para tirar proveito.

Há tempos pensei em candidatar-me ao desafio “Novas Oportunidades”. Afinal com a minha idade julgo já ter acumulado experiência suficiente para obter o certificado que diz que sem frequentar a escolaridade obrigatória, possuo no entando qualificações e formação que me permitem obter o diploma do 12.º ano de escolaridade. Não sendo justo para aqueles que tiveram de estudar para o obter é uma medida meritória... em teoria.

Dirigi-me a uma escola em Oeiras e falei com a psicóloga encarregue do projecto. Percebi entre outras coisas que tería de escrever a história da minha vida em folhas A4, só num dos lados, que cada folha teria de estar dentro de uma mica individual e que o dossier tinha de ser um específico daqueles tipo arquivo com um buraquinho para se poder puxar de dentro da capa. Ela até me mostrou em exemplo de alguém que se tinha candidatado e tinha conseguido obter o diploma. Um dossier azul que tinha na capa uma pombinha bordada e colada com cola transparente.

Na mesma altura resolvi candidatar-me ao IPAM – Instituto Português de Administração e Marketing. Tería de pagar mais ou menos 15 mil euros por três anos divididos em seis semestres. Para a entrevista e exame paguei 160 euros. Fiz o exame de admissão e lembro-me de responder a todas as perguntas numa só resposta. Não tendo sido informado da avaliação do exame, apenas me foi dito que tinha sido aceite. No dia em que fui fazer a última entrevista a senhora que me recebeu e entrevistou sabendo que eu tinha trabalhado em jornais, sentindo alguma empatia, informou-me que iría ser a minha professora de Relações Interpessoais nos dois primeiros anos. Nesse dia saí da faculdade e não voltei lá. Metade dos dentes que a professora tinha na boca estavam num péssimo estado de conservação para não dizer podres. Foi demais para mim.

Voltei a ser contactado pelas “Novas Oportunidades”. Tinha ficado suspenso na minha cabeça, pois eu não poderia competir com bordados. Não que não o consiga fazer se me empenhasse mas porque senti que alguma coisa não estava correcta. Voltei munido do meu dossier sem nada na capa e com todos os diplomas e certificados que fui acumulando ao longo da vida, que eu não sou de ficar parado. A psicóloga não era a mesma, mas entretanto ocorreu-me uma ideia que tentei levar avante sem sucesso com a Associação de Estudantes da Faculdade de Comunicação Social - estaría na disposição de pagar 500 euros a quem escrevesse a minha história de vida – tipo entrevista. Ninguém repondeu. Perguntei, portanto, à psicóloga se ela estaría na disposição de a escrever, a troco da mesma quantia. Ela disse que não.

Desisti das “Novas Oportunidades”. Enfim, não se pode dizer que não tenha tentado. Sería interessante com tantos universitários a mais, que eles pudessem colaborar no sentido de melhor ajudar a compreender o objectivo e com o seu conhecimento providenciar um melhor documento sobre a vida dos eventuais candidatos. Não sei, digo eu. Agora sou considerado um empresário de sucesso. Não deixa de ser curioso.

Beijinhos e essas coisas,

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O político


“Político é um indivíduo activo na política de um grupo social. Pode ser formalmente reconhecido como membro ativo de um governo, ou uma pessoa que influencia a maneira como a sociedade é governada por meio de conhecimentos sobre poder político e dinâmica de grupo. Essa definição inclui pessoas que estão em cargos de decisão no governo, e pessoas que almejam esses cargos tanto por eleição, quanto por indicação, fraude eleitoral, hereditariedade, etc.”

Há tempos vi-me numa situação complexa. No mesmo ano, a mãe dos meus filhos resolveu (e muito bem, vejo isso hoje claramente, mas na altura não) divorciar-se de mim. Quando ela se foi embora, e como é natural levou os filhos com ela. Aquilo foi um calvário emocional. Cheguei a julgar que não aguentaria. Credo, o estado a que um homem chega por vezes ao ser incapaz de gerir determinadas emoções com friesa e racionalidade.

Nesse mesmo ano também, mais coisa menos coisa, fui “convidado” a sair do jornal onde trabalhei nove anos como designer/paginador. Gostei de lá trabalhar até ao dia em que as coisas não começaram a ser favoráveis para o meu lado. O facto de eu dizer o que penso tem-me prejudicado. Mas o que hei-de eu fazer? Eu tento mas não está na minha natureza ficar calado. Também tive de pôr à venda a casa que tinha estado a remodelar com o intuito de ir para lá habitar com a mulher e filhos. Vi-me e desejei-me para a vender. Levou dois anos. Se o que não mata faz crescer então esses foram os anos dourados do meu crescimento. Já passou. Hoje sou feliz.

Ora foi por essa altura que um amigo me deu a mão. Foi ótimo, esse amigo. Esteve ali para mim. A dar-me do seu tempo para me escutar e dar algum conforto e até algumas sugestões que eu ía seguindo mais ou menos à letra. Ele também se tinha divorciado e sabia pelo que eu estava a passar. Costumávamos sair todos juntos nos fins de semana em que eu estava com os meus filhos. Ele também tinha um filho e por isso era giro e agradável para todos. Lembro-me dele muitas vezes. Porque eu estava desempregado na altura, ele tentou ajudar-me. Ora quando um homem está numa situação daquelas às vezes não vê com clarividência. Quer dizer não vê nada, deixa-se levar, confia. Acredita nos amigos, neste caso, neste amigo.

Um dia à porta da casa dele, de noite, e depois de muito insistir, que eu não sou dessas coisas, quase que me obrigou a aceitar uma oferta. Um homem desesperado e emocionalmente combalido aceita coisas estranhas. Assim foi. Enquanto eu esperei à porta do prédio e pensava na sorte que tinha em ter aquele amigo, ele subiu e desceu. Passados alguns minutos assinei de cruz um documento em branco que me abriria as portas para um vasto mercado de trabalho com dividendos excepcionais. Filiei-me no Partido Social Democrata. Calhou. Podia ser um qualquer partido. Durante três anos pertenci ao PSD. Recebia cartas a convidarem-me para jantares a que nunca fui e até tinha um cartão de sócio cor de laranja. Um dia abri uma das cartas que me felicitava por ter as cotas todas em dia.

Cotas???? Quais cotas? Liguei para lá e perguntei à senhora que me atendeu, depois de lhe dizer qual era o meu número de sócio, “Veja lá se tenho as cotas em dia?”, e ela confirmou que sim. Nesse dia percebi que o meu amigo, ou alguém, durante três anos, pagou as cotas por mim e, nesse dia e nesse telefonema, eu cancelei a minha filiação no único partido político a que pertenci na vida. Se há algo de que fujo como o diabo da cruz é pertencer a grupos obtusos.

Ainda bem que nunca me deram nem nunca me chamaram para qualquer trabalho, talvez tivesse aceite, não sei, talvez não. Nunca mais soube desse amigo mas sei que anda nas lides da política. Ele lá sabe.

Beijinhos e essas coisas,

terça-feira, 16 de novembro de 2010

O banqueiro e o bancário


Há tempos fui ao dicionário ver o significado de banqueiro. Tenho tido esta estranha necessidade pois tenho-me confrontado com palavras, termos, estrangeirismos, adaptações e sei lá mais o quê que me fazem ficar desnorteado em relação a palavras ou conceitos que já foram obvios para mim mas que curiosamente, ou não, nestes ultimos anos têm ganho outros significados. Não sei, talvez tenha a ver com a linguagem informática.

Pois bem, banqueiro significa entre outras coisas - “O que faz negócio de banco, o que executa operações bancárias. Proprietário ou director de uma casa de banco particular. Homem rico, capitalista. O que tira as cartas e tem dinheiro para pagar aos parceiros no jogo da banca e em outros”. Depois fui ver o que significa bancário - “Indivíduo empregado em banco de comércio; funcionário de banco”. Também pensei em ir ver o que significava capitalista e empregado e fui, mas não me vou estender por agora. É exaustivo e não é isso que pretendo. Mas é giro voltar à estaca zero.

O porquê desta minha curiosidade tem a ver com o facto de ter perguntado a um empregado bancário se o patrão dele, o banqueiro, me podia emprestar dinheiro para um projecto que pretendo levar àvante. Fui ver o que significa emprestar - “Entregar, dar alguma coisa a alguém para que use dela durante certo tempo, com a obrigação de a restituir ou volte ao seu equivalente, sendo ela dinheiro ou artigo consumível”. Mas claro que um empréstimo bancário significa outra coisa, significa que é feito mediante determinadas condições que eu aceitarei ou não. Ou, neste caso, e depois de dar todos os meus dados e referências sociais e pessoais, o bancário vai perguntar ao banqueiro se eu sou ou não digno de confiança. Se for o caso até tenho de dar o nome de alguém que cubra o valor em questão caso eu não cumpra com o acordo. Enfim... Se chegarmos a acordo eu e o banqueiro iremos formular um contrato. Sendo o bancário o intermediário.

Desta vez irei, se me apetecer, ler todas as letrinhas que o banqueiro obriga o bancário a escrever para que o contrato se efectue. Irei munido de uma enciclopédia digital para conseguir conversar com o bancário pois não estou familiarizado com termos como Activos Tóxicos (instrumentos de investimento baseados nos Subprimes, que se tornaram ilíquidos), ou TAE (Taxa Anual Efectiva), ou TAEG (Taxa Anual Efectiva Global), ou TAN (taxa de juro anual nominal), ou TANB (taxa anual nominal bruta), ou TANL (taxa anual nominal liquida), ou o Spread (taxa cobrada pelos bancos na concessão de empréstimos além do indexante, onde se reflete, o perfil de risco do consumidor. Esta é a margem de lucro das instituições e o nível de risco dos clientes. Quanto maior for o risco do cliente não conseguir pagar o empréstimo ao banco maior será o “spread” aplicado), e por aí fora. Espero não me arrepender de vender a alma ao diabo.

Há tempos o meu irmão pediu-me algum dinheiro emprestado. Creio que foi para um negócio qualquer que ele lá terá feito. Depois devolveu-me o dinheiro. Simples. O meu dinheiro voltou para o cofre e o meu irmão lá fez o negócio. Dormimos os dois lindamente. Já o banqueiro, enfim, e o bancário então... é um desgraçado que para ali anda.

Beijinhos e essas coisas,

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

As Ordens


Há tempos tive a felicidade de ver na televisão algo curioso – o apresentador de televisão Manuel Luis Goucha a entrevistar o Bastonário da Ordem dos Advogados António Marinho e Pinto num programa chamado “De Homem para Homem” no canal TVI. Devia ter gravado aquela entrevista. Talvez a consiga ir rever na internet pois ficou-me no coração a sensação de estar a ouvir dois homens livres. Repito, sensação.

Tenho pelos dois uma grande admiração por motivos diferentes, claro. Mas acima de tudo porque se um se mantem fiel à sua vocação de apresentador televisivo o outro é fiel à justiça e ao que ela implica... espera! ...bastonário da Ordem?... O que é isso, Ordem? Farto-me de ouvir falar nas Ordens. Dos advogados, dos engenheiros, dos farmaceuticos, dos médicos, dos psicólogos, dos arquitetos, ordens disto e ordens daquilo, mas o facto é que não sei o que é que quer dizer. Antes de ir pegar no dicionário sinto que Ordem é uma sociedade, uma espécie de organização secreta feita de pessoas que defendem exclusivamente os seus interesses. Isto é o que sente o meu coração. Claro que a cabeça me diz que não. Que as várias Ordens que vou conhecendo são de facto grupos de pessoas que obedecem a determinadas regras. Enfim... a minha cabeça com os seus ouvidos ouve coisas que depois o coração não compreende pois ele sente outras coisas. É estranho mas o que hei-de eu fazer? Adiante.

Peguei no dicionário, como dizia e... credo... se calhar é melhor ir buscar o de bolso, pensei. O Dicionário de Morais que está em casa da minha mãe tem três páginas em letra miudinha sobre o que é a ordem e o seu significado. Levei mais ou menos vinte minutos e ler aquilo com calma. Precisa de muita explicação. É curioso. Acaba por ser um bocadito dubio tantas são as possiveis interpretações. Aqui fica um registo - “Espécie de classe de honra instituida por um soberano ou autoridade suprema para recompensar o mérito pessoal”, mas há mais, muito mais. Fico com a ideia de que as Ordens são um conceito antigo baseada em valores altruistas. Não diz lá mas é um resumo meu. No entanto e a finalizar diz o seguinte e aqui fica também o registo - “Nova Ordem, designação com que os ditadores alemão Hitler e italiano Mussolini aplicavam, aos países invadidos pelos seus exércitos durante a Segunda Guerra Mundial, um regime de opressão e expoliação económica que em nada diferia da ocupação pura e simples sem limites nem códigos”. Vá-se lá entender, se um homem mata alguém é um assassino, se um homem mata milhões é um conquistador.

Para se fazer parte de uma Ordem, seja lá o que isso signifique portanto, é preciso prestar provas de que se pode fazer parte dessa Ordem. É uma espécie de mérito por serviços prestados. Pois a dada altura dessa interessante entrevista o Bastonário da Ordem dos Advogados diz entre outras coisas que na Ordem que ele representa há muitos criminosos... Tal como o Goucha, também eu fiquei ainda mais alerta, só que, como era o Goucha o entrevistador, perguntou ele: -“Então mas isso significa que não podemos confiar na justiça? Significa que não podemos confiar nos advogados que supostamente nos deveriam defender?” Não sei se foram estas as palavras mas foi algo parecido. E o Marinho Pinto ajeitou-se na cadeira e disse que sim. “Sim. Não podemos confiar na nossa justiça”.

Ora bolas! Dito pelo Bastonário da Ordem dos Advogados significa que... espera... não pode ser. Tou tramado! Assim de repente lembrei-me do... como é que ele se chama? Ai, espera... o da Casa Pia... Di não sei quantas. Enfim. São uns quantos.

Beijinhos e essas coisas,

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Estou melhor cá dentro


“O Homem é a sua liberdade e está condenado a ser livre” - Jean-Paul Sartre

Há tempos fui ao Estabelecimento Prisional. Costumo lá ir por causa de um projecto que desenvolvo em parceria com aquela instituição. É giro. Tem-me dado para ver coisas que de outro modo nunca veria, como por exemplo a relação extraordinária que existe entre as pessoas que guardam as pessoas que estão “guardadas”. Aquilo não é fácil. Às vezes sinto no ar energias estranhas. Energias que só me lembro ter sentido quando cumpri o serviço militar obrigatório e que aparentemente não tem nada uma coisa a ver com a outra.

Pois um dia estava eu dentro da prisão, em trabalho, claro, e quando digo dentro da prisão é mesmo lá dentro. Atrás das grades. Atrás das portas que se abrem e fecham com chaves enormes, de ferro. Agora já estou mais habituado mas ao princípio foi uma experiência intensa. É sempre assim. Um novato é um novato. É sempre posto à prova. Nunca me senti ameaçado, mas nunca estive sem acompanhamento constante. Ouvi de tudo nos primeiros dias. E não foi só naquele estabelecimento prisional, não senhor. No dos homens também ouvi. Credo. A imaginação aliada aos documentários que se vão vendo na televisão fazem-me temer o pior se por agum infortunio me visse com o corpo atrás das grades. Adiante...

Ora como dizia e por causa do tal projecto, estava eu no que é chamado o “Atelier de Costura”. Estão lá mulheres portuguesas, argentinas, columbianas, brasileiras, chinesas - estas distinguem-se pelo silencio e velocidade de trabalho. Há de tudo um pouco, como na vida. Umas mais velhas outras mais novas, e enquanto eu conversava com a guarda responsável acerca do estado do país, do governo, da justiça, dessas coisas todas que eu e ela vamos sentindo um pouco na pele aqui e ali, por isto ou por aquilo, eis que vindo assim do nada, uma das mulheres que estava a costurar mas pelos vistos atenta à nossa conversa, comenta sem tirar os olhos da máquina, e não há aqui uma tentativa de romancear a coisa, foi assim tal e qual, nem olhou para nós... - “Pois eu estou melhor cá dentro! Pelo menos aqui ninguém me chateia.”

Desde que iniciei o tal projecto que imaginei um dia poder ouvir dizer algo do género. Mas dito assim das duas uma, ou aquela pessoa tinha uma vida miserável antes de ser presa (não era o caso que eu soube) ou de facto a vida “lá fora” está tão corrompida que a cadeia serve para não deixar sair, mas também para não deixar entrar as misérias que se passam na democracia livre em que vivemos.

Ainda hoje me ecoa na mente. Não foi dito com raiva nem nada. Mas como disse Laborinho Lucio na entrega do Livro “Para Além da Prisão” do Ministério da Justiça, aquela mulher está “momentaneamente privada da sua liberdade” mas mantém os seus deveres, obrigações e direitos. Vá-se lá entender, o enclausuramento involuntário é estranhamente parecido com o voluntário. E neste momento de tantas incógnitas sobre o futuro da sociedade ouvir um comentário assim... não sei. É estranho...

Beijinhos e essas coisas,

sábado, 23 de outubro de 2010

Os cinco dedos


Há tempos e à conversa com uma amiga que soube recentemente que está grávida percebi que nunca irei compreender a Mulher. Nem eu nem uma data de homens que escrevem sobre elas, escreveram ou hão-de continuar a escrever. Não que me farte de tentar entender o lado feminino que confesso também ter no meu ser, mas porque por vezes sou confrontado com questões curiosas que me fazem voltar à estaca zero do que eu pensava já saber sobre a Mulher.

Eu idolatro a Mulher. A Mulher para mim é o centro do mundo. Por mais que eu escrevesse, pintasse, cantasse, fizesse o que quer que fosse nunca me fartaría da Mulher. A Mulher tem algo que a faz ser única, como todos os seres vivos que geram vida - a Mulher gera vida. Dê lá por onde der, faça ela o que fizer a criação de vida começa dentro do corpo da Mulher. E isso, para mim que sou curioso, deixa-me de rastos. Nunca irei na minha vida experimentar essa sensação. Carregar no ventre, dentro de mim, outro ser humano. É simplesmente fascinante. Adiante... sou homem.

Mas essa minha amiga, escrevia eu, a dada altura da conversa que estávamos a ter, já não me lembro bem porquê, refere o facto de ter algum receio que pudesse ter posto em risco a boa formação do ser que está a gerar pois sem que o soubesse teve de tomar analgésicos por causa de uma pequena cirurgia no primeiro mês de gravidez. E por causa disso a conversa avançou comigo a dizer-lhe que não fosse parva, que não pensasse nisso e essas coisas faceis de dizer a quem está de fora, claro! Mas a dada altura, fez-me recordar a mãe dos meus filhos que no dia em que a Maria nasceu, quando a vi pela primeira vez deitada ao lado da mãe, assim pequenina, toda enrugada e meia cinzenta, mas igualzinha à mãe (parecia a sua fotocópia reduzida), me pergunta assim do nada: - “Quantos dedos tem nos pés? Já contaste?”

Se estás a ler e és homens talvez nunca te passasse pela cabeça tal questão mas curiosamente e pelo que percebi da conversa que tive com essa amiga, é corriqueira essa duvida e preocupação em algumas mulheres que dão à luz. Mesmo depois de fazerem várias ecografias e saberem que está tudo bem, pelos vistos, e talvez pelo enorme esforço e dor por que passam no acto de parir, fixam-se na quantidade de dedos que aquele novo ser possa ter nos pés. É curioso... Vá-se lá entender. É que podiam perguntar quantos narizes têm, ou se tinha três orelhas, ou três nadegas, mas não! Ao que parece a preocupação mais corrente é saber a quantidade de dedos dos pés.

Eu como homem e pai nunca me ocorreria uma coisa dessas. No meu caso e não serve de exemplo, soube que os meus filhos eram perfeitos antes de nascer. Era impossivel que não o fossem. E digo perfeitos para mim. Talvez não sejam perfeitos para todos. Mas para mim são. Mas soube-o de facto no dia em que lhes peguei ao colo. Lá me ocorreu pensar se tinham cinco dedos ou o que quer que fosse! Que coisa tão parva!

É por essas e por outras que continuarei a tentar entender a Mulher sabendo de antemão que nunca a irei entender. E provavelmente é por isso mesmo que ela me fascina. É um poço de surpresas. O mundo sem a Mulher seria com toda a certeza uma tristeza profunda e infinita... Credo!

Beijinhos e essas coisas,

terça-feira, 12 de outubro de 2010

O logótipo MSC


Há tempos estava sentado numa estação de combóios no Porto ou lá perto e vejo sentada num banco ao lado uma senhora parecida com a minha avó Alice. É curioso como há um tipo de senhoras parecidas com a minha avó Alice. Também há outras parecidas com a minha avó Elvira. Mas esta é parecida com a avó Alice. Gosto de observar. É um hobbie meu. Observar. E de repente percebo que era nem mais nem menos que a Filipa Vacondeus. Aquela senhora que a dada altura da minha vida aparecia na televisão a falar sobre culinária. Como ela me faz lembrar a minha avó Alice. Olha que se calhar até foram amigas. Sei lá. Parece mesmo.

Fui direito a ela. Nestas coisas eu não me envergonho. Se ela me “incomoda” enquanto estou a ver televisão em minha casa certamente não levará a mal se eu a incomodar para lhe dizer pessoalmente como a admiro. Assim foi. Só que em vez de lhe perguntar cordialmente se ela era a Filipa Vacondeus, enganei-me e perguntei-lhe se ela era a Maria de Lurdes de Modesto... Estraguei tudo. “Essa é a outra!” – respondeu ela. Ora bolas! Às vezes mais valia estar quieto. Ainda lhe disse que ela me fazia lembrar a minha avó. Pior a emenda que o soneto. Não se diz uma coisa dessas a uma mulher tenha lá ela a idade que tiver. "Olhe! Você é parecida com a minha avó." - que ainda por cima já morreu há uma série de anos. Adiante.

Num jornal semanal de referência do qual não direi o nome mas que tem uma revista chamada “REVISTAÚNICA”, reparo em duas páginas – a 100 e a 101, com um artigo sobre culinária. As revistas gostam desse tipo de artigos. É assim uma espécie de momento relaxante, uma espécie de tentativa de empatia com o leitor, uma bica depois do almoço. “Eles” sabem-na toda. Ora quem escreve esse artigo é nem mais nem menos que um rapazito chamado Jamie Oliver... Espera! A ver se eu percebo. Com tanta história culinária que temos. Com tantas freiras a fazer doces conventuais. Com tantos pescadores a cozinhar peixe fresco. Com tantos Micheles e Marias de Lourdes Modestos. Com tanta gente a fazer coisas tão boas e tão saudáveis à vista, ao olfato e ao palato. Com tanta mestria popular para elaborar pratos simples mas com aromas tais que nos fazem sonhar com Portugal, estejamos até na lua. Com tantas misturas de sabores trazidos dos quatro cantos do mundo...

... em destaque e sobre a foto que ilustra uma mistura qualquer que ele para ali inventa com maçã cozida, passas, flocos de aveia semi-crus, sementes de girassol, iogurte e outras coisas que se vendem empacotadas e que cá se dão aos hamsters, enfim... Como dizia, em destaque, assim tipo um postite amarelo sobre a foto, ele escreve o seguinte, e pasme-se que foi traduzido, revisto e impresso... valha-me deus nosso senhor, que não tem nada a ver com o assunto, mas de facto já não há mais a quem recorrer: “As dicas de Jamie - É importante para mim (diz ele) consumir peixe de viveiros de qualidade. O que devo escolher? Procure o logótipo MSC nas embalagens de peixe. O Marine Stewardship Council só certifica peixe proveniente de viveiros e tanques de qualidade”... O Marine o quê???

Caro Nicolau Santos: conhecemos-nos à vários anos. Dez? Quinze? Sei lá. O tempo passa. Peço-te que não permitas estas coisas no “teu” jornal. A sério pá. Em nome dos meus filhos não faças o que outros fizeram com o PÚBLICO, por exemplo. Sê diferente. As pessoas não são parvas. Com tantas coisas boas em Portugal não permitas que na “tua” revista se publiquem receitas como “Crumble crocante de maça e canela” ou “Creme de ovos com uísque”... Uísque, pá! Lê lá isto em voz alta – UÍSQUE ... Valha-me todos os poderes do universo.

Só me lembra o Medina. Isto só lá vai à chapada. Credo.

Beijinhos e essas coisas,