quinta-feira, 24 de junho de 2010

Fui à Alemanha, outra vez


Olá,

Há uns tempos o meu amigo Udo Fiedler (Estugarda) convidou-me para ir ter com ele à Alemanha, outra vez. A ultima vez que lá estive foi há seis anos. Dessa vez estive mais tempo. Mas desta vez foi muito melhor. Ele é um bom amigo.

Os alemães estão mais baixos. É um facto. A primeira vez que fui à Alemanha tinha 18 anos. A europa era diferente. Portugal e a Alemanha eram diferentes. De lá para cá são tantas as transformações que nem parece o mesmo país. Se da primeira vez que lá fui só havia alemães e eram ocidentais, agora não há alemães ocidentais pois também não há os orientais. Ou seja o muro de Berlim desapareceu fisicamente. E com o tempo talvez desapareça em consciencia mas para já ainda se sente algo estranho. Depois, e com a comunidade europeia, mais parece um sonho pensar nas diferenças entre o antes e o depois. Curiosamente, Berlim é hoje a segunda cidade do mundo com mais turcos a seguir à capital da Turquia, Istambul. De resto os turcos, ou muito me engano ou vão substiuir os alemães.

É só mais duas gerações e já está.

Ora como eu referi no parágrafo anterior o facto dos alemães estarem mais baixos não se deve ao facto de eles estarem a mirrar mas sim a facto dos turcos se reproduzirem na alemanha mais rapidamente que os próprios alemães. Curiosamente desta vez não me senti tão baixo como da primeira vez que visitei a Alemanha. Se andar caladinho até sou bem capaz de passar por turco. Se alguma diferença possa existir e que me distinga dos turcos é o facto de eu me rir sem qualquer problema na via pública. Eles não têm muita vontade de se rir.

A enorme Alemanha fabrica carros. Várias marcas, boas e fiáveis. Fabrica submarinos e aviões. Fabrica escavadoras de tuneis que não servirão para mais nada depois de terminados os tuneis e que custam tanto que eu nem me atrevo a mencioná-lo. A Alemanha elege presidentes que se demitem por acharem que não vale a pena ocupar o cargo pois não se justifica, tal é a falta de poder que a figura do presidente tem. No entanto a Alemanha é o musculo da europa. Sem ela, nós, europeus, estaríamos literalmente tramados.

Os alemães têm um pseudo-trauma profundo. O Hitler. Eles não falam disso. Aliás ninguém fala com os alemães sobre essa matéria. Eu falo e é giro ver as caras deles. E eles nem tão pouco se atrevem a sugerir qualquer abordagem que não seja da “mea culpa, mea culpa”. Mas dentro das casas dos alemães profundos existem alusões ao nacionalismo e ao orgulho alemão. Têm mais do que razões para estarem orgulhosos de serem alemães. Os alemães são assim uma espécie de doberman amordaçado. Uma besta de força a quem é constantemente lembrado o que eles fizeram e do que foram capazes de fazer.

Não sei se a Alemanha acordará um dia, tal como a China, o que eu sinto é que eles são tristes pois não podem ser verdadeiramente livres. Os judeus mantéem-nos de rédea curta. Curiosamente na antiga alemanha oriental há poucos turcos. Eles lá não se sentem muito à vontade. É diferente. Não sei explicar. Eu fui lá. E também não me senti muito confortável. Lá são mais altos. Se na Alemanha se vê poucos pretos, lá para cima, para a tal antiga alemanha, é que não se vê nenhum.

Portugal é um ótimo país para se viver. E contrariamente ao que alguns querem fazer crer vive-se muito bem em Portugal. A inveja... essa malvada é que estraga tudo.

Beijinhos e essas coisas,

terça-feira, 18 de maio de 2010

Alergia - esse calvário

Há tempos, e isto do tempo é relativo, pois quando digo há tempos, pode muito bem ter sido hà bocadito, mas o facto é que há tempos, dizia eu, conheci um rapaz que enquanto estivemos juntos ele não fez outra coisa que não fosse assoar o nariz e espirrar. Entre o assoar o nariz e o espirrar ele lá ía trabalhando, mas claro que o nível de produção dele estava substancialmente prejudicado pelo facto de ele estar sempre a espirrar ou a assoar-se. Coitado! Cheguei a ter pena dele. Até porque tal como ele eu já passei por situações semelhantes devido à alergia que me assola todos os anos pela altura da Primavera. Às vezes perguntam-me qual é a estação do ano que eu mais gosto e, julgo que inconscientemente, já dei por mim a responder que é o Inverno, pois no Inverno eu não tenho alergia.

Para quem não tem alergias na Primavera este texto não terá qualquer interesse, ou não, mas para quem tiver, a identificação com o que está aqui descrito já por si é reconfortante na medida em que não nos sentimos sós no nosso calvário. Sim porque é disso mesmo que estou a escrever. Um calvário.

Dou-vos um exemplo prático. Há algum tempo, quando tinha mota, sim que eu sou motard sem mota (troquei as motas pelos filhos), havia alturas em que eu tinha que pura e simplesmente parar na berma da estrada para espirrar, espirrar, espirrar, às vezes até dava para desligar a mota, tirar o capacete, desenturpecer as pernas enquanto espirrava. Cheguei a contar várias vezes 20 espirros de seguida. Ora se pensarmos bem, o esforço requerido para dar 20 espirros de seguida é enorme. A contração do diafragma, dos musculos peitorais e dos faciais. É mais duro que fazer desporto com a agravante de que não se está a ter prazer nenhum. Por vezes e também a andar de mota, mas isto acontecia em qualquer lugar fosse na mota ou não. O nariz começava a largar água. Não é ranho. É água. Enormes quantidades de água. Não há lenços que aguentem. Aquilo mais parecia uma torneira. Eventualmente quem sabe até contribua para perigosos níveis de desidratação se os líquidos não forem repostos. Outras vezes umas remelas que se atravessavam nos olhos e que se conseguem agarrar com as pontas dos dedos e parecem uma espécie de elásticos que vão de um lado ao outro do olho. É simplesmente horrivel.


Há umas árvores em Lisboa, de crescimento rápido e muito populares que na altura da Primavera largam uma espécie de algodão. Aquilo é o inferno disfarçado. E depois vem o calor, mas no princípio da Primavera ainda arrefece à noite, e então curiosamente parece que a diferença térmica propícia ao agudizar da alergia. O que recapitulando até aqui faz com que a Primavera, os pólens, o sol e as diferenças térmicas próprias da Primavera sejam o tal calvário a que me referi anteriormente. Juntem-lhe a poluição e pronto. Nem me perguntem como é que eu estou.

Ora infelismente e não obstante eu ter sido agraciado com este belo corpinho, calhou-me em sorte a particularidade de ter renite alérgica, ou sinosite, ou seja lá o que for que me deixa de rastos. Por vezes alguém tenta sugerir isto ou aquilo. Pois eu já experimentei de tudo. Todos os tipos de comprimidos contra a alergia. Uns dão sonolência e não tiram a alergia totalmente, secando isso sim a mucosa nazal. Então um tipo espirra, sem ranho e tem sono. O que é estranho se pensarem bem.

Para mal dos meus pecados este ano percebi que o meu filho também tem alergia e que já está a tomar os tais comprimidos. Terei de ser o mais compreensível com ele e estar do lado dele. Pois até hoje ainda não tomei “o” comprimido que me tirasse a alergia... por mais que eles sejam publicitados pelas farmácias.

Beijinhos e essas coisas,

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Por causa do Papa

Há uns tempos e inesperadamente resolvi ceder à minha teimosia e fui “ver” o Papa. Afinal não é todos os dias que ele vem a Lisboa. Sim eu sei. Fartei-me de falar “mal” do homem e mais isto e mais aquilo. Mas o que hei-de eu fazer? Vacilo. É o Papa.

Enfim, por uma extraordinária coincidência ou não, a minha filha teve tolerância de ponto ao abrigo de um decreto do governo por ocasião da vinda do Papa ao nosso espectacular país. Esta coisa da minha filha ter tolerância por esta razão deixa-me desconfortável. Às vezes parece que a religião já não é o que era mas de repente compreendo que continua a ter o mesmissimo peso que eu julgava que já não tem. O governo inteiro pára. Militares e tudo. Pára tudo. Curioso.

Fui, portanto, buscá-la à escola era mais ou menos 11h30. Enquanto esperava por ela cá fora pois eu não posso entrar na escola, folheei o jornal gratuito “Metro”. Falava sobre a vinda do Papa, claro e sobre outros assuntos, o futebol, alguma política nacional e internacional e pasme-se, que eu fico pasmado quase todos os dias. É uma característica minha, ficar pasmado. A toda a largura e altura das páginas centrais dessa espécie de jornal, uma série de fotos minusculas a ilustrar a qualidade da mercadoria. Estou a falar de mulheres e homens a oferecerem-se ou à procura das mais variadas formas de prazer sexual e outros. Demorei algum tempo a observar as fotos. Como não ando com os óculos e as fotos são muito pequeninas não vi o detalhe em pormenor mas afianço que se vêm muitos rabos e alguns peitos avantajados.

Entretanto os caças, julgo portugueses, sobrevoavam vezes sem conta a zona onde me encontrava. Estavam, julgo eu a patrulhar o espaço aéreo sobre o Papa não fosse alguma coisa extraordinária acontecer. Aqueles aviões fazem mesmo barulho não obstante serem pequenitos. Um tipo olha para cima e quase não os vê. É preciso cerrar os olhos contra luz e tentar adivinhar o trajecto que eles fazem através do som que eles produzem. É giro. Também passaram helicópteros, esses mais baixo e esses eu já os consegui visualizar mais facilmente. Eram verde camulfado para passarem despercebidos em contraste com o azul do céu.

A Maria lá apareceu carregada com os tais dez quilos ou mais de mochila e a mala. Ela agora já anda com uma malita. Não uma mala de senhora mas uma espécie de mala só que mais juvenil. Fica-lhe bem. É giro. Deixámos a mochila no carro e resolvemos ir de metro “ter com o Papa”. Entrámos na estação, comprámos os bilhetes e... o metro estava parado por causa do Papa. Não desistimos e fomos a pé. De Telheiras a São Sebastião. Fartámo-nos de conversar sobre uma data de coisas, tirámos fotos, conversámos mais e quando chegámos ao local onde estaría o Papa ele já se tinha ido embora para outro local. Ora bolas. Agora percebo porque é que ele tem sempre uns homens a segurá-lo e a fazer-lhe tudo. Deve ser para que ele não se canse tanto. Ele não pára, o desgraçado. E lê em português o que é formidável.


Bom. Não estava o Papa mas estava o tio João. E foi com ele que afinal fomos ter. Almoçámos os três, conversámos, tirámos umas fotos e lá voltámos para Telheiras mas desta vez de metro que já estava a funcionar outra vez. Gosto de passear com a minha filha, seja lá porque razão for e é muito giro poder ter esses momentos com ela. Se pudesse agredecería pessoalmente ao Papa o facto de nos ter proporcionado mais este momento. Como não posso directamente vai através de Deus que espero aceda ao meu pedido de lhe agradecer por mim. Talvez ele sinta um aperto nas costas. Será o meu abraço de agradecimento.

Beijinhos e essas coisas,

terça-feira, 4 de maio de 2010

O conteúdo dos altos quadros

Há tempos liguei a televisão. Faço-o com frequência. Umas vezes para ver as notícias, outras para ver algum filme ou série. Sem dúvida que a televisão me faz companhia. A minha televisão a julgar pelas novidades que vou observando aí por algumas grandes superfícies já é arcaica, mas enfim. Quando a ligo ela dá a imagem, menos mal. Podia de facto já ter adquirido uma outra, daquelas fininhas, mas não. Das vezes que fui indagar a qualidade e performances das ultimas novidades vim de lá com a sensação de que estava a ser atendido por um ser de outro planeta que falava uma linguagem que não a minha. É estranho. Não me sinto velho, apenas desactualizado.

Curiosamente esta minha sensação de desactualização vai-se agudizando à medida que me vou tentando actualizar. Talvez daí a minha não predisposição para ver certos e determinados programas televisivos em que os conteúdos eu não compreendo. A sério. Já não compreendo e pode ser que eu esteja completamente doido ou desfazado da realidade, que é uma hipótese a ter em consideração. Há dias liguei a televisão. Não me lembro quais os canais mas fiquei com a sensação de que finalmente percebo uma coisa. Quando oiço um desses “altos quadros” dizer que o que está a dar são os conteúdos, e ao olhar para a cara dele, não lhe vislumbro no olhar uma pontinha de creatividade, de cor, de imaginação, de honestidade, de humanidade. Aquilo é uma espécie de máquina que ali está em forma de pessoa engravatada a dissertar um discurso em que metade são palavras imperceptíveis e que só um punhado de pessoas conseguem de facto compreender, ou seja, mal ele começa a falar eu fico logo com a nítida sensação de que, mais uma vez, não vou perceber nada. O que me vale têm sido os meus filhos que me dizem que também não percebem nada do que estão a ouvir, e isso é perigoso pois dá-lhes uma enorme liberdade de acção.

Mas eu ando a tentar, de vez em quando, entender quais são estes novos conteúdos de que o tal “quadro” falava. Telenovelas portuguesas em que os homens choram a baba e ranho e as mulheres têm problemas de uma superficialidade indescrítivel. Eu a mim ninguém me tira da cabeça que quem escreve aqueles textos tem um coeficiente de inteligência capaz de fazer frente a um galinácio num campeonato de damas e mesmo assim perder sempre. É impressionante. Custa-me ver actores que eu até tinha uma relativa consideração contracenar com miudos de agências de modelos e que têm como duas melhores capacidade serem relativamente bonitos e conseguirem decorar textos. Valha-me Deus, eu estive a ver, a sério, parei para ver e aquilo é impressionante de tão mau que é. Mudo de canal.

Em três canais diferentes fala-se de futebol. Sempre os mesmos. Homens maduros, talvez com idade para serem avós ou não. Eu já nem sei se são políticos ou se são comentadores de futebol. Mas comentam jogos que já se realizaram. Daí e por uma questão de pormenor somos capazes de ver uma imagem andar para a frente, andar para trás, andar para a frente devagar, parar, andar para trás devagar, parar, voltar a andar para a frente, e para trás e outra vez para a frente, para que eles percebam se de facto o isqueiro é ou não devolvido ao público. Se não viste, não interessa. O que talvez seja curioso é que nas touradas as pessoas atiram coisas lá para dentro e eles devolvem com amabilidade.

Estou-me sempre a lembrar daquele político português pequenito que foi para o Parlamento Europeu dizer num minuto que Portugal não é um estado de direito e que não há liberdade de expressão. Nunca me lembro do nome dele mas dou-lhe o crédito de ter tido a coragem, ou estupidez, de o fazer. Por causa dele, também, agora é inquéritos uns atrás dos outros feitos por deputados que eu não conhecía e passei a conhecer, e a “quadros” que eu também não conhecía e passei a conhecer. Olha! Assim de repente e que me lembre soube que o avô de um dos inquiridos foi enterrado com a bandeira do FCP - curioso. E que outro ganhou no ano passado três milhões e meio de euros a trabalhar numa empresa com participação do estado.

Eu cá cheira-me é que há liberdade a mais, cheira-me. Mas como é Primavera ando para aqui afectado com a alergia e quem sabe não ando com o olfato todo trocado.

Beijinhos e essas coisas,

quinta-feira, 29 de abril de 2010

A estranha sombra

Há tempos e não foi assim tanto, entro no quarto dos meus filhos e deparo-me com o meu filho de “pilita em pé” sentado na cama e a rir-se. Numa reacção que julgo meramente protectora viro-me para a minha filha que também estava no quarto, de costas para ele, e reparo nos pequenitos contornos daquilo que irão ser as mamas dela. Acho que não voltarei a olhar para as mamitas da minha filha. A minha filha tem mamitas e o meu filho é parvo. Está tudo a correr como previsto.

E como previsto, ao que parece vem aí o Papa. Essa figura estranha que é suportada por outros homens de cada vez que se quer levantar. Esse homem curioso que tem o costume de falar por uma janelita de um edíficio no Vaticano, esse pequeno mas muitissimo curioso Estado cheio de leis à margem da lei. Enfim... parece que a vinda do Papa a Portugal teve alguma interferência com a calendarização da lei que permite ou não o João casar-se com o Jorge. Ou a Inês casar-se com a Deolinda.

A Igreja e os enormes pilares em que ela assenta continua a interferir com a minha vida sem que eu tenha total consciência disso. Claro que não é a Igreja, nem tão pouco o Papa, ou a nossa senhora de Fátima. Mas antes esta sociedade arcaica em que eu vivo apetrechada com armas de destruição massiça que não abdica de ter vários credos baseados em algo que não se pode nem poderá nunca provar-se que existam ou não - Deuses. Isto é perigoso. Estamos, e farto-me de falar nisso, a viver um momento da história da humanida suigéneres. Parece que algo está para acontecer ou então já está a acontecer e nós não damos conta disso. Lembras-te da Sinead O'connor a cantora? Foi à televisão e rasgou o poster com a imagem do Papa. Nunca mais apareceu. Foi pena, ela era simpática e tinha fortes convicções. Coisa rara nos tempos que correm. Convicções.

Voltando ao princípio, era, portanto, início de sábado e estavamos os três a tomar os respectivos banhos. E depois andávamos nús ali pela casa enquanto não nos vestimos. É giro. Começa a ser um pouco constrangedor por causa da Maria. Mas ela já me conhece e sabe que o pai frequenta a praia do Meco. É uma estranha sensação de liberdade andar com a piloca ao léu e depois ir mergulhar e sentir a água a deslizar pelo corpo todo. É giro.

Curiosamente e não parecendo à partida que nada disto que te escrevo tenha algum nexo fui ver ao Dicionário de Morais o significado de preservativo. Sei lá, ocorreu-me. Talvez porque vem cá o Papa. Talvez porque os meus filhos estão a crescer. Talvez porque me lembre do desgraçado do Silvino que não sendo desgraçado nenhum é-o pelo facto de estar com os costados na prisão enquanto que outros se pavoneiam por aí. Enfim, fui ver, e tem dois sentidos, o primeiro diz “Que preserva; próprio para preservar; diz-se dos medicamentos próprios para prevenir o aparecimento de certa doença”. O segundo sentido diz “Aquilo que preserva: A sobriedade é um preservativo das doenças”


Sem que eu nada tenha contra o homem (o Papa) não deixo de me indignar e achar até curioso certas posições defendidas por pessoas que representam ideologias ancestrais e por vezes arcaicas. Bem sei que não estarei de modo algum a agradar a gregos nem troianos quando escrevo estas linhas. Mas no sábado passado fui às compras com os meus filhos e à saída do supermercado, mesmo do outro lado da rua uma série de pessoas idosas e alguns escuteiros dirigiam-se para a Igreja. A missa ía ser celebrada dali a uns dez minutos e achei interessante levar lá os meus filhos. A igreja é daquelas modernas feitas de betão armado à mostra. Até tem uma arquitetura sóbria e de aspecto leve.

Passados cinco minutos a minha filha comentou “Ó pai vamos embora que isto aqui é deprimente.” A missa ainda não tinha começado e o meu filho observava um curioso objecto colocado logo à entrada, de tom castanho, bastante sóbrio, aparafusado ao chão e que a troco de moedas de 50 centimos acendia uma lâmpada em forma de vela para que a pessoa rezasse uma oração. A lâmpada está acesa durante um determinado período de tempo e depois apaga-se. Bestial! A mente humana é de facto imensamente criativa. Não há dúvida. À saída o meu filho comentou que aquelas moedas mais as moedas das duas caixas rotuladas com “Pobres” e “Igreja” eram mas era para o Sócrates. O meu filho tem oito anos. Oito! Onde raio é que ele vai buscar estas ideias?

Começo a não saber o que fazer nem o que dizer aos meus filhos. Quem sou eu para julgar o que eles vêm, ouvem e sentem? Como lhes explico o que é ou quem é Deus e os seus critérios de avaliação e justeza. Há algo aqui que não bate certo. É cá um sentimento meu. Mas que quando confrontado pelos meus filhos com questões básicas de justiça eu custa-me cada vez mais responder-lhes pois se por um lado for honesto pareço “ernesto”, por outro lado se não for honesto que raio de pai serei?

Se algum desejo eu tenho na vida para os meus filhos é que sejam inteligentes e felizes. Só isso. O resto é lá com eles que a minha filha já me manda mensagens para eu lhe carregar o telemovel... ótimo.

Beijinhos e essas coisas,

terça-feira, 20 de abril de 2010

O dia da mãe


Nasci.

Passado um tempo e quando tinha a vossa idade o mundo era perfeito. À porta do prédio onde eu vivia passavam rebanhos de ovelhas e eléctricos daqueles amarelos velhinhos. Depois da escola, chegava a casa, largava a bata azul e a chave de casa pendurada num cordel à volta do pescoço, e ía jogar à carica com os meus amigos. E ao berlinde, e ao pião e aos polícias e ladrões. E jogávamos futebol e andávamos de bicicleta e de carrinhos de rolamentos. E no fim do dia a vossa avó chegava à janela e chamava-me para eu ir para casa ajudar a fazer o jantar. Descascar os alhos, cortá-los às fatias fininhas e alourá-lo no azeite a ferver. Lavar o arroz, escorrer e vertê-lo para cima do tacho e não ter medo de deitar o dobro da água tal é o barulho que aquilo fazia. Deitar o sal, pôr o gás no mínimo e esperar vinte minutos. E fazia muitas outras coisas que ela me foi ensinando, sempre. Talvez por causa da vossa avó nunca precisei de nenhuma mulher para me tratar do que quer que fosse a não ser respeitar e amar. Por outro lado essa “independência” permite-me observar a mulher/mãe, geradora de vida, como a coisa mais extraordinária que existe. Adiante.


Vocês nasceram.

Dei-vos os primeiros banhos, mudei-vos as primeiras fraldas, fiz-vos as primeiras papas. A primeira vez que vos cortei as unhas fez logo sangue, bolas! Foi só um bocadinho mesmo junto à unha e vocês fizeram caretas. Tratei dos vossos umbigos até caír o que restava do que vos ligou à vossa mãe enquanto ela vos transportou na barriga. Adorava dar-vos banho na banheira amarela de plástico. É curioso como os bébés têm um cheiro enebriante. Fui para o hospital quando vocês tiveram febres e diarreias. Entrei aos berros pelo gabinete da médica dentro quando ela queria que eu esperasse mas eu sabia que não podía esperar. Enquanto passeavamos pelos parques vocês começaram a andar. Sempre achei importante que vocês estivessem o mais possivel em contacto com a natureza. E que saibam ao que cheira a terra depois de chover ou ao que soa o silêncio ou o mar. E que observem as nuvens passar lentamente à frente da lua cheia. E que haja o que houver a sapiência é uma virtude inestimável. Tenho-vos visto crescer física e mentalmente e estou feliz por vos ter na minha vida. Desejo que vocês sejam tão felizes quanto eu sou. E o pai que eu sou hoje devo-o muito à vossa avó.

A minha mãe cuidou de mim como se cuidam as plantas. Regando-a todos os dias. Tratando-a com amor e carinho sem hesitar cortar as folhas velhas nas alturas certas. E se alturas houve em que a planta parecia querer parar de crescer ela nunca desistiu de a regar. E essa planta cresceu e já deu frutos que são vocês. E eu aqui no meio, olho para a minha mãe e para vocês e faz-me sentido que a vida seja assim, naturalmente simples, maravilhosa e contínua.

É por isso que eu nasci. Para viver, ser feliz e ter os meus filhos.

Beijinhos e essas coisas,

quarta-feira, 14 de abril de 2010

A menina do mar


Há já algum tempo e à conversa com um amigo ao telefone falávamos sobre o estado das coisas. Das coisas todas. Do mundo, de uma maneira geral, sei lá. Sabemos que estamos a ser confrontados com coisas demais. Pelo menos é a primeira reacção. Isto é demais. Está a tomar umas proporções surreais. O que é que vai ser o futuro? Ai maezinha.
De facto se eu pensar bem... ora deixa cá ver uma referência... sim. A Eunice Munoz, na RTP 1, a ler, sentada numa cadeira, a história - “A Menina do Mar”. E eu sentado no chão da sala a olhar para o ecrã da televisão que só já não era a preto e branco porque os meus pais tinham adquirido o último avanço tecnológico – um plástico tricolor em degradê para vermos televisão a cores. Daí a Eunice ter a cabeça azulada, o tronco alaranjado e os pés esverdeados, se a memória não me falha. Ainda no outro dia a encontrei na rua e não fui de modas. Parei o carro e diriji-me a ela para lhe agradecer o facto de ela fazer parte da minha vida de uma maneira tão... tão... humana. Acho que é isso. Ela sorriu, agradeceu-me, e eu vim-me embora. Missão cumprida.


No outro dia também (para mim os dias não são uns atrás dos outros, é estranho mas para mim os dias são salteados, assim como os cogumelos salteados, baralham-se uns com os outros e formam uma amalgama. No fim como-os à colher e de boca cheia. É bom.) mas como dizia, no outro dia estava sentado à mesa com a minha mãe e os meus filhos. Já não sei se era a jantar ou a almoçar. Mas era a comer. Por vezes comer à mesa da cozinha tem esta particularidade. Não há televisão, nem telemoveis. Simplesmente quatro pessoas a comer e a falar. É giro.
Dei por mim a pensar que entre a minha mãe que aprendeu a escrever com um aparo e um tinteiro e os meus filhos que usam o computador estou eu aqui no meio. Tive um azar do caraças, senão repara, ainda me lembro que as secretárias da escola primária tinham lá um buraquinho para o tinteiro, mas eu usava uma caneta bic. Passados uns anos tinha acabado de tirar um curso de desenhador técnico em que usava canetas rotring e borrachas e lâminas e réguas e máquinas de calcular e pim: aparecem os computadores e os programas de grafismo. Que grande galo. Por meia dúzia de anos e eu tinha poupado fortunas em canetas.
Passados mais uns anitos, o Manuel, o meu filho de oito anos vai para a escola com uma mochila que deve pesar 500 quilos cheia de livros, quando podería perfeitamente tê-los todos no Magalhães. Mas não. O desgraçado tem de levar aquilo tudo com ele e para cumulo agora acho que tem que levar uma vez por semana os livros e o Magalhães. Isto não faz sentido absolutamente nenhum. A não ser que...
Há uns anos tentei entrar para uma editora. Aquilo é uma vergonha. Para nós, pais preocupados com a educação dos nossos filhos até faz sentido. Mas diz-me lá se não sentes o mesmo que eu? Haverá necessidade de continuar a mudar os livros todos os anos? Queres a verdade? Queres mesmo? Mas depois não me venhas com coisas. Vai para a praia e dá uns mergulhos que isso passa, a sério. Pois a verdade é só esta. As editoras escolares são um lobbie violento sem o mínimo de razoabilidade, que se escondem atrás de necessidades que eles inventam para continuar a produzir livros escolares que são eles próprios desconcertantes. Como é possivel livros novos todos os anos?
Eu tento educar os meus filhos o melhor que posso e sei. Dou-lhes valores, raízes, pilares, ferramentas e preparo-os o melhor que posso e sei. Mal eles comecem a pôr-se em bicos de pés, vou para a praia dar uns mergulhos. Eles também se hão-de adaptar. Nem imaginas as coisas que eles já sabem. É impressionante. E sabes que mais? Os meus filhos têm-me ensinado a viver este momento explosivo e curioso da sociedade actual. Eles fazem-no como quem come um pastelinho de nata. Às vezes ando para aqui atazanado com tanta informação e desinformação e de repente olho para eles e vejo-os na praia à procura de peixinhos no meio das rochas alheios a tudo e lembro-me da Eunice Munoz e da história da Menina do Mar. A vida é bela...

Beijinhos e essas coisas,