segunda-feira, 16 de maio de 2011
Meditar ou ir à praia
segunda-feira, 9 de maio de 2011
O Festival
Há tempos trabalhei numa empresa que gere direitos de autor sobre músicas. Escuso-me de dizer o nome. Mas o facto é que nesse período conheci um pouco mais de perto os meandros do espectáculo e do que ele envolve e representa. Muita coisa se pode escrever sobre o assunto mas vou-me ficar pelo Festival da Canção. Essa coisa estranha que acontece todos os anos e que envolve os países da europa que curiosamente ou não são cada vez mais. Aquilo nunca mais acaba… e depois as votações. Aquelas carinhas larocas a darem recaditos uns aos outros. Credo!
Nessa altura o meu patrão resolveu concorrer ao Festival da Canção. Foi uma experiência interessante poder acompanhar o desenrolar de um projecto desde raiz. Lembro que a música começou por ser trauteada à mesa do almoço. Depois passou para o maestro que a traduziu para notas musicais. Depois arranjou-se os músicos e um grupo, três raparigas e três rapazes, um deles, o Ricardo Carriço que ainda hoje falamos se nos encontrarmos. É giro. Entretanto a Rosa Lobato escreveu a letra que como ela bem o sabia fazer era sobre frutas e vegetais. Adiante. Alguém lhes confeccionou as roupas e alguém lhes arranjou uma coreografia. Enfim. Perdemos para uma rapariga pequenita e toda frenética que desde essa altura canta pelo mundo fora, fado, claro.
As votações eram dadas por um grupo restrito de pessoas supostamente entendedoras dos meandros dos Festivais da Canção. Sempre fiquei com a sensação que independentemente da outra ter ganho, havia um lobbie que a ajudou a ganhar. Sempre foi assim. Aliás o Festival da Canção é daqueles festivais que não compreendo o porquê da sua existência tal é a falta de qualidade. Mas o facto é que tem catapultado para as luzes da ribalta imensa gente. Deve ser assim uma espécie de teste. Se o passarem, safam-se. E têm-se safado. Por trás de cada concorrente há sempre uma história. Nós cá conhecemos as histórias dos nossos concorrentes mas se soubéssemos a história que está por trás da miúda que concorre pela Alemanha veríamos que há coisas extraordinárias. E boas mesmo. Eu sei pois estava na Alemanha o ano passado por esta altura e acompanhei de perto a sua história. Ela pelos vistos é tão boa que este ano concorre outra vez. Vamos lá ver.
Se me perguntarem o que eu acho dos “Homens da Luta” eu direi sempre que são como oxigénio para um mar de dióxido de carbono que por aqui anda. Não sei se os alemães vão pensar que são uma espécie de Village People ou um bando de malucos. Não sei mesmo imaginar o que possa passar na cabeça dos júris dos outros países que, não entendendo a língua portuguesa, se limitam a trautear a música e a observar aquele conjunto de pessoas que se apresentam daquela maneira e com aquele discurso e atitude. A sério, imaginem por momentos que são finlandeses. O que pensariam? Ontem começou um programa novo na televisão portuguesa - “Perdidos na Tribo” e a seguir o FMI a e a seguir tróica ou o que isso signifique e a seguir os comentadores de futebol e depois os comentadores políticos e depois os políticos...
É a loucura dentro da própria loucura como costuma referir um grande amigo meu.
segunda-feira, 2 de maio de 2011
O obtuso
Há tempos pensei… espera lá! Mas isto parece que estamos todos obtusos, ou será impressão minha? E mais uma vez tive de ir ver o que significa a palavra obtuso que por exemplo, no filme “Os Condenados de Shawshank” quando o prisioneiro, protagonista no filme, chama obtuso ao director o resultado foram dois meses na solitária. Enfim, ninguém gosta que se lhes aponte as virtudes.
À entrada de Auschwitz I lia-se (e ainda hoje se lê) as palavras: "Arbeit macht frei" (o trabalho liberta) Os prisioneiros do campo saíam para trabalhar durante o dia nas construções do campo, com música de marcha tocada por uma orquestra. No 1.º de Maio a CGTP apela para que as pessoas não vão trabalhar. O Louça diz que a Sonai e a Jerónimo Martins não querem saber dos trabalhadores nem do dia da comemoração dos trabalhadores. Por causa da chuva, talvez, dizem eles, estavam 2000 pessoas na manifestação do dia do trabalhador. Nesse dia fui às compras e ao centro comercial. Estava tudo aberto e a funcionar. As meninas das caixas dos Continentes estão a ser substituídas por umas pistolinhas que registam o que compramos. Este ano parece que não vai haver a tradicional abébia de passar a ponte 25 de Abril, ou Salazar, sem pagar no mês de Agosto. A Via Verde e as caixas automáticas não precisam de férias.
quinta-feira, 21 de abril de 2011
O estado de felicidade
Há tempos entrei no Estabelecimento Prisional de Tires. Costumo ir lá por causa de um projecto que desenvolvo em parceria com a Direcção Geral dos Serviços Prisionais. Tem-me dado a conhecer algo extraordinário. Leva tempo. Às vezes parece que não se vai conseguir. Existe de facto um lado negro que insiste em querer fazer crer que não se consegue levar um projecto a bom porto. Mas passados quatro anitos deste projecto em que me envolvi percebo que acima de tudo é mesmo uma questão de fé, ou acreditar, se preferirem. E atenção que quando digo fé não estou nem de perto a colar-me a qualquer conotação religiosa. Não! Fé é algo em que passei a acreditar. Mesmo assim às vezes ainda sinto uma pontita de inveja aqui e ali. Um quê de “este gajo não faz nada” ou “este gajo não quer é fazer nada”. Isto porque o projecto em que me meti é bem pensado. Não é despesista. É razoável. Não é para ficar milionário. É para ser feliz e fazer as pessoas felizes. Foi assim que nasceu o projecto em que estou envolvido. É giro.
sexta-feira, 8 de abril de 2011
As dunas
Há tempos uma nave espacial desceu sobre a Costa da Caparica. Era uma nave invisível até para os radares mais avançados norte-americanos e portugueses. Ninguém deu por ela nem pelos seres que lá vinham dentro. Foi nos fins de Março. Num dia excepcionalmente quente para a época. A nave espacial era grande o suficiente para conter 6879 extra-terrestres. O termo de comparação tem de ser uma barata pois eles eram do tamanho de uma barata. Portanto não se pode dizer que a nave era enorme o suficiente para lá caberem 6879 pessoas mas sim grande o suficiente para lá caberem 6879 baratas que não sendo baratas eram uns seres não comparáveis a nada que se pareça na terra. Nem sequer respiravam e nem sequer se mexiam. Estavam ali quedos que nem uns pregos numa tábua. A única coisa que se deslocava de um lugar para o outro era a nave espacial que se pudesse ser vista era verde. Adiante.
Portugal tem perto de 800 quilómetros de costa dos quais 21, mais quilometro menos metro, chamam-se Costa da Caparica. Vá-se lá perceber porquê, porque há coisas que não se percebem mesmo e é assim, a nave espacial estaciona mesmo por cima de uma parte da praia que, vá-se lá perceber porquê, mas de certeza que tem que haver uma razão, deram-lhe o nome de 19 (dezanove). Ora não sei se vocês sabem, e se não sabem, estão como os seres alienígenas, é exactamente naquela praia, mas há outras, em que um dos comportamentos mais curiosos dos seres humanos do sexo masculino em particular se verifica. A nave espacial como que por magia, pois não há palavras que descrevam a velocidade com que ela ali apareceu, fica estática sobre a dita praia. Ninguém a conseguia ver mas ela estava lá. E os seres ordenaram às máquinas que filmassem tudo o que vissem e gravassem tudo o que pudessem, pois de retorno à casa deles teriam de prestar contas pelo desvio que fizeram por causa de um planeta com tanta água salgada.

Obedecendo às ordens dos seres e por eles terem receio da água do mar por causa do sal, a nave ficou a modos que a pairar sobre as dunas da tal praia 19 (dezanove). E filmou e gravou. O que para nós humanos são horas, para eles, os seres extra-terrestres, é imenso tempo, e portanto eles ficaram com uma imagem muito perfeita do que por cá se passa no planeta terra. Levaram de volta para os chefes deles, as imagens nítidas e sem comentários do que por cá se passa. Como a nave deles é evoluidíssima, fartaram-se de filmar de vários ângulos e perspectivas, com lentes potentíssimas que nós nem conseguimos imaginar. Uma loucura. Nem o Spielberg ou o Manuel de Oliveira algum dia lhes passará pela cabeça terem à sua disposição tal tipo de material de filmagem. Enfim… é preciso ser de uma galáxia muito distante e com um conhecimento muitíssimo evoluído.
Como o tempo é relativo, os seres extra-terrestres deixaram de o ser no instante em que chegaram ao planeta deles pois não faz sentido eles serem extra-terrestres na terra deles. Foi num piscar de olhos, para nós, claro, porque para eles foi uma eternidade, que retornaram às casas deles e tiveram que mostrar o que filmaram cá na terra. Os chefes deles não brincam e trabalho é trabalho. Acharam estranho o comportamento dos seres humanos. E claro, como não tiveram tempo de filmar mais nada, julgam o todo pela parte.
Aqui para nós que ninguém nos ouve, nem eles que já não voltam cá, ninguém tem nada a ver com o que se passa ali nas dunas, mas que é estranho é. Homens de barba rija ou não, gordos e menos gordos, com mais ou menos músculo, mais ou menos queimados do sol, a aparecer e desaparecer entre as dunas. Enfim… ninguém tem nada a ver com a vida dos outros, mas se forem à tal praia 19 (dezanove) não se admirem. Primeiro anda quase toda a gente nua, depois, vá-se lá entender, há homens que aparecem e desaparecem entre as dunas. É um comportamento curioso que de facto, só filmado. Ou então, como se pode observar da praia, alguns também lá andam a ver. Estive para lá ir ver o que é que eles andam a ver ou a fazer. Não tive coragem ou não me apeteceu.
Beijinhos e essas coisas,
segunda-feira, 4 de abril de 2011
A vida
Há tempos morreu a Virgínia. Era mãe, mulher, filha, amiga… sei lá… Era uma data de coisas inerentes ao facto de ser um ser humano e mulher. Morreu com uma doença daquelas tramadas – um cancro. Daqueles que não se conseguem tratar não obstante se tentar tudo. Morreu completamente dopada numa cama de hospital com a consciência que já não queria mais estar viva daquela maneira e por isso despediu-se no dia anterior a morrer. Pelos vistos ela sabia. Quis e morreu. A medicina tem esta situação ambígua de protelar a vida quando ela já não faz sentido.
No dia a seguir a minha filha ligou-me e pediu-me para a ir buscar à escola pois tinha chegado de uma aventura com os colegas de turma, em Sintra. Dormiram lá todos acampados e essas coisas. Pois nem de propósito, eu que até nem estava para ir ao velório por razões de incompatibilidade familiar dei por mim a virar para a Estrada da Luz e sem que me apercebesse, avisar os meus filhos que tínhamos de ir ter com o tio Zé pois a Virgínia tinha morrido. A Virgínia foi a segunda mulher do tio Zé. A primeira foi a tia Tó que está nos EUA. Nunca vi a Virgínia como tia nem nunca me ocorreu tratá-la por tia. Era a Virgínia. E morreu. Dela ficaram os filhos Francisco e Marta, meus primos, portanto. Quer dizer, o meu tio já tinha dois da tia Tó. Mais velhos do que eu. Depois separaram-se e ele conheceu a Virgínia e teve mais dois. O que por aí há mais é irmãos de pais diferentes. Dá cor à vida. É uma questão de hábito.
A Virgínia tinha o quê? A minha idade? Talvez. Eu não sou de ligar às idades das pessoas. Quando chegámos à igreja lá estava ela deitada no caixão coberta com um pano, umas velas à volta e umas flores no chão. Entrei, abracei o meu tio e pedi-lhe desculpa. É um assunto nosso que não explico. Mas senti-me bem. E não o larguei. Estive ali um minuto ou dois que parecem horas, a abraçá-lo. O que é que se diz a alguém que perde alguém? Fiz o mesmo com os filhos dela. E depois abracei a mãe da Virgínia. Ora foi exactamente esse o abraço que mais perplexo me deixou. Como é que se abraça a mãe de alguém que perdeu uma filha? As mães não deveriam perder as filhas. Não é natural. Que dor é essa de perder uma filha? O que é perder um filho? Eu tenho dois. Estavam lá. Levei-os comigo. O Manuel com nove anos e a Maria com doze. Alguém me perguntou porque é que eu os tinha levado para ali. Como nada respondi e simplesmente fiquei a olhar, a mesma pessoa respondeu por mim, que era para aprenderem. É curioso. Se não dissermos nada, às vezes a vida encarrega-se de responder por nós através dos outros.
Quando estávamos a vir embora, depois de nos despedirmos da família que estava espalhada na igreja e fora dela, depois de falarmos da morte e de doenças e dessas coisas que se costumam falar nestas ocasiões, depois de eu ter observado tudo o que a minha mente tinha de gravar naquele instante, dirijo-me para o carro com os meus filhos. O Manuel não faço ideia o que pensa sobre o assunto, mas a Maria, disse que estava orgulhosa de mim pois percebeu que eu pus de parte as divergências que tinha com o meu tio e fui mas foi abraçá-lo. Senti-me bem nesse instante. Senti-me bem comigo por ser quem sou, como sou, pelos filhos que tenho, pela família que tenho e pela vida que tenho.
Liguei o carro e arrancámos. Comentei com os meus filhos que a Virgínia não morreu, que o que morreu foi o corpo da Virgínia. Que por mais que eles olhem para mim só conseguem ver o meu corpo. A mim, talvez me sintam. E que a morte faz parte da vida, tentando desse modo convencer-me e preparar-me, a mim e a eles, para o inevitável - a vida.
Beijinhos e essas coisas,
sexta-feira, 1 de abril de 2011
Sinais dos tempos
Há tempos deixei de fumar. É relativa esta coisa do tempo, quando nos propomos deixar de fumar. O tempo transforma-se. Adquire vida própria e castiga-nos violentamente. Leva mais tempo a passar o raio do tempo. Não é fácil mas também não tem sido muito difícil. Das outras duas vezes que deixei de fumar foi terrível. Na altura trabalhava com um grupo de pessoas que até me pediam para voltar a fumar tal era o meu estado. Descarregava a minha frustração de estar à espera que me passasse a vontade que tinha de fumar em cima dos meus colegas. Não me calava. Eu, que de mim e às vezes tenho a noção de que falo muito, naquela altura parecia uma gralha, credo.
Curiosamente, da primeira vez deixei de fumar sem usar substitutos do tabaco comi muitos chupa-chupas com pauzinho que metia na boca para disfarçar a vontade de ter o cigarro entre os dedos e na boca. Foi o diabo! Mas passou, e estive dois anos sem fumar. Da segunda vez, pois a carne é fraca e voltei a fumar, já havia umas pastilhas elásticas com nicotina horríveis que me provocavam uma espécie de refluxo mas que me ajudaram a reduzir o espaço temporal que medeia o inicio e fim do processo de desabituação à nicotina e todos os hábitos que lhe são inerentes. Mesmo assim ainda foram um bom par de meses. Dessa vez estive um ano e meio sem fumar. Voltei a fumar basicamente porque, e volto a repetir, a carne é fraca.
Ora desta vez foi inesperado, ou não que eu já andava com essa ideia há algum tempo. No dia do meu aniversário e depois do almoço um amigo saca de um cigarro e dá umas passas. A seguir mete o cigarro no bolso e continua a falar. Assim! Como se nada fosse… Espera! Alto lá! Mostra lá isso, pedi-lhe. E ele apresentou-me algo extraordinário. Algo que mostra de facto a capacidade do ser humano em prosseguir a sua louca viagem sabe-se lá para onde usando o que quer que lhe venha à cabeça para lá chegar. Quero com este raciocínio brutal chegar ao pensamento mais simples que diz que - se não for por aqui é por ali, mas é sempre em frente. Sempre. A mente humana quando lhe apetece cria coisas extraordinárias. Para o bom, para o mau ou até para o nada.
Se nunca viste tal coisa, hás-de ver. É impossível que não o vejas um dia destes. Olha! Eu por exemplo, comprei um e agora fumo em todo o lado. É bestial. No intervalo do filme no cinema. No restaurante. Nas lojas. É impressionante. Passei a fumar em todo o lado. Tem uma bateria que se carrega numa tomada ou no computador, e espera, há mais! Quando se dá uma passa a pontinha ilumina-se e até parece que está quente, e pasme-se, sai fumo. Ou vapor. Eu sei lá. Para já não estou interessado em entender a mecânica da coisa que me parece elementar. “Ah! Mas isso não é deixar de fumar, pois afinal de contas continuas a meter nicotina lá para dentro” – dirão alguns. Quero lá saber. Deixei de usar o isqueiro. Deixei de ter as mãos e a boca e a roupa e a casa e o carro a cheirar a nicotina. Deixei de ter de comer umas pastilhas elásticas de mentol por causa do hálito.
Achas estranho eu estar a dar passas num cigarro de metal? Então e o que achas inalar fumo? Se pensarmos bem, não faz sentido absolutamente nenhum inalar fumo. Foi azar o meu, alguém ter inventado os cigarros. Mas foi sorte a minha, alguém ter inventado o cigarrito electrónico. Tem-me ajudado na batalha da desabituação. Adoro o ser humano e a sua ilimitada capacidade para andar para a frente… sempre. Fiz 46 e na melhor das hipóteses vivo mais o quê? 20? 30? Adorava ver os carros a voar. Isso é que era! Despachem-se por favor. Não quero perder pitada.
Beijinhos e essas coisas,




