sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O Jacinto


Há algum tempo e não foi muito, se calhar até foi ontem. Um casal de jovens (neste caso um esquisito casal de homem/mulher), isto anda tudo trocado e não vá o diabo tecê-las é preciso ser especifico nesta coisa dos casais. Adiante, ele chamava-se Jacinto e ela Gertrudes. Ele bancário e ela dona de casa.

A Gertrudes era uma mulher prendada, boa dona de casa e boa esposa ou mulher (eu prefiro mulher). A casa sempre impecável e o jantar sempre à espera do marido. Melhor não podia ser. Vamos imaginar que era boa como o milho, dá mais interesse à história. A Gertrudes era uma mulher voluptuosa. Daquelas com um peito que parece uma máquina de passar o cartão de multibanco. Enfim... pareceres de homens, já sabem como é. E era doce. Ai.... tão doce.

Por outro lado, e o meu lado masculino não me permite uma apreciação emocional da coisa, o Jacinto, sem que eu saiba se é bonito ou não, dava nas vistas pelo seu porte atlético, postura sempre correta das costas, bem vestido e com as mão impecáveis. O cabelo propositadamante desarranjado e uma atenção especial para com os outros, sempre atencioso com as mulheres mas nunca deixando de transparecer o seu grande amor pela Gertrudes. Enfim, aos olhos dos outros e de eles próprios eles eram mesmo felizes. Daquelas felicidades que só se vêm nos filmes. Eram felizes todos os dias. Aquilo até chateava. Eram um casal sempre apaixonado. O Jacinto, ele era flores e bonbons, e banheiras cheias de águas de cheiro e pétalas de rosas. Jantavam sempre à luz das velas. E por mais que pensássemos, nunca se tornava enfadonho. Uma maravilha de casal. Uma inveja.

Um dia, julgo que terça-feira, o Jacinto sai de casa, despedindo-se da Gertrudes com um sentido e adocicado beijo nos lábios. "Adeus amorzinho". Por principio o Jacinto deixava sempre a mulher a dormir. Ele achava que era uma questão de justiça pelo tratamento que ela lhe dava todas as noites sem excepção. Aqui era um fartote e não vamos entrar em pormenores... Nessa terça-feira, portanto o Jacinto sai de casa e espera pelo elevador. Eles moram naquelas torres na Expo que parecem uns barcos mesmo por cima do centro comercial (deve ser ótimo deve). Todos os dias a mesma rotina. O Jacinto chama o elevador e depois de entrar carrega para a cave três. Ora como eles moravam no vigésimo segundo andar, aquilo era uma eternidade para lá chegar a baixo. Depois metia-se no seu carro de luxo de dois lugares descapotável e esperava meia hora só para sair da garagem. Um verdadeiro calvário, preço a pagar para se ter estatuto.

Nessa terça feira ao chegar ao carro dá conta que se esqueceu das chaves do carro. Fazendo o percurso inverso Jacinto volta a casa. Ora quando o Jacinto mete a chave à porta, a Gertrudes que contra todas as expectativas, já estava enrolada com o segurança do prédio, diz-lhe "Ai meu deus que vem aí o meu marido. Faz qualquer coisa" E ele fez. Os seguranças costumam ser assim uns tipos enormes cheios de musculos e sem pêlos e a cheirar a desodorizantes que na embalagem têm fotos de homens parecidos com eles. Mas... não sei bem porquê denotam no semblante alguma falta de sensibilidade ou lá o que é que eu não sei explicar. Adiante.

Enquanto o Jacinto se encaminhava para o quarto a fim de pegar nas chaves do carro, o segurança tenta meter-se debaixo da cama, mas ou a cama era baixou ou ele era enorme, tentou o armário e também não cabia lá. Os dois em pânico, ela deitada na cama tremia que nem varas verdes e o segurança sabia que o Jacinto era perito em Jujitsu e outras artes tais que cortava os bifes à chapada e pregava pregos à cabeçada.

A porta do quarto abre-se e o Jacinto acende a luz. Era uma daquelas luzes que sobem ou descem de intensidade. Ele de facto preocupava-se com esse tipo de pormenores, sempre preocupado com o bem estar da mulher. O segurança com a aflição e sem mais recursos planta-se num canto do quarto agaixado e nú. E foi por mero acaso que Jacinto reparou nele. Parecia um candeeiro de pé. Estático, imóvel. Não fossem as lágrimas do segurança que ao escorrerem pela cara e sobe o efeito da luz ténue mas forte o suficiente para devolver o reflexo, de facto Jacinto nem teria dado por ele. Mas deu. E quando deu, agarrou no interruptor redondo e rodou-o de modo a que se fizesse luz. E fez...

Olhou para a mulher, que espreitava por detrás da dobra do topo do lençol. Só se lhe via os olhos muito abertos e o cabelo mal amanhado. Voltou-se outra vez para o que parecia um candeeiro, outra vez para a mulher, suspirou, poisou a mala, as chaves e perguntou num tom calmo à mulher, apontando para o candeeiro (ou o segurança como preferirem), "O que é isto?"... A mulher, Gertrudes, deixa descair um pouco o lençol de modo a que o pouco som que lhe iria tentar reproduzir e num esforço inumano conseguisse alguma projecção e chegasse aos ouvidos do Jacinto - o cornudo. Não há volta dar, foi nesse preciso momento que a alcunha ficou e se manteve até hoje – Jacinto, o cornudo. E ela disse "É um robot."... ... ... "Um robot?", repetiu Jacinto. O candeeiro ía caindo mas manteve-se firme. "Mas um robot como? O que é que queres dizer com isto?". Após uma eternidade de dois segundas ela responde "É um robot para me ajudar na lida da casa, ainda não te tinha contado? Foi uma senhora muito simpática que o deixou cá ontem para uma demonstração grátis, mas se não gostas devolve-se já".

Curiosamente ou não o candeeiro, ou o segurança, que segurança não tinha nenhuma naquele instante... começa a empalidecer. Algo lhe dizia que era melhor fugir mas encontrando-se como veio ao mundo e tendo o Jacinto a barrar-lhe a entrado do quarto pouco podia fazer que não fosse deixar escorrer as lágrimas e o suor da testa. Por mais que pensasse nisso não conseguia imaginar-se transforma-se num candeeiro que naquele instante e contra tudo o que ele pudesse imaginar na vida era o que mais desejava naquele instante.

O Jacinto desaperta a gravata. Dá um jeito ao pescoço que faz estalar a estrutura óssea por três vezes e aproxima-se do segurança. Este mija-se. A mulher recolhe-se nos lençóis. O Jacinto despe o casaco e pendura-o levemente no cabide de madeira, daqueles de pé muito giros e cheios de estilo. Tira a gravata, desaperta a camisa, tira os botões de punho, e despe a camisa. Se alguma coisa o identificava com o candeeiro era a falta de pêlos, pois de resto o corpo do Jacinto estava coberto de tatuagens feitas no Japão por altura de uma visita que fez à família. O seu avô era descendente de uma família de Yakuza, era um tatuador prestigiado entre as máfias de Tóquio. As tatuagens que lhe cobriam o corpo representavam a bravura e coragem da família da qual Jacinto Chen era descendente. Algumas estavam cruzadas com cicatrizes de lutas em treino intenso. Depois desaperta o cinto e despe as calças. As cuecas, não é que interesse mas eram Hugo Boss, daquelas de licra bem justas e pretas, revelando que os atributos de Jacinto não estariam em mão alheias, ao contrário do segurança que naquela altura mais parecia uma mulher tal era a contracção do dito cujo.

O Jacinto despe as cuecas. A mulher não resiste e espreita só com um olho "Tu queres ver?" pensa ela. ‎"Ai maezinha" pensa o segurança. E... pegando no segurança em peso Jacinto posiciona-se de modo a sodomizar violentamente o candeeiro. No momento em que o agarra pelos flancos ouve-se uma voz robotica saída não da boca do segurança mas antes dos tesctículos. Era impossivel alguém proferir uma palavra que fosse com aquele tom de voz. Muito menos um homem, a não ser que uma parelha de bois lhe estivesse a passar por cima dos testículos. "Avariado, avariado", dizem os testículos do candeeiro. "Avariado? O que é isto?” pergunta Jacinto à mulher que estava já com a cara toda destapada e os olhos e a boca completamente escancarados. "Hã?... diz? o quê? como?" responde ela. "Sim! O que quer dizer isto do avariado?". A mulher que parecia estar a viver um sonho responde sem dar conta (às vezes o cérebro tem destas coisas, fica em modo automático, por mais que nos esforcemos não nos lembramos de determinadas coisas, e esta pelos vistos era uma das quais o cérebro dela estava a mandar directamente para o arquivo morto), "Olha, nem vais acreditar mas mesmo antes de entrares estava a trabalhar lindamente".

O Jacinto, que pela pratica das várias artes marciais que mantinha há já vinte e dois anos, inspira fundo, relaxa e carrega no botão de levantar o estore - modernices. Pareceram três horas, o que de facto nem chegou a meio minuto. Abre a janela e enquanto a mulher tenta proferir um som para lhe meter algum juízo na cabeça, mas que de nada lhe servia pois as cordas vocais ganhando vida própria recusavam-se a vibrar, Jacinto, mais uma vez pega no segurança como se de uma tábua de engomar se tratasse e com ele no ar aproxima-se da janela. Cada andar são sensivelmente três metros, vezes vinte, dá... ora... vinte vezes três... isso... sessenta metros.

Portanto e retirando um frame isolado do filme, como se de um filme se tratasse, temos um quarto de trato fino com cama de casal e armários embutidos com portas de espelho. Uma janela ampla e aberta. Uma mulher deitada na cama com ar de quem viu o diabo nu e com uma pila daqui à China. E dois homens numa posição duvidosa. Um a agarrar no outro. Coloquemos então o frame no lugar devido e continuemos a história. Jacinto agarra no segurança, portanto, e dispara para o ar "Avariado, ai é? Então fora com o robot". Pois nesse preciso instante e colocando de parte todos os preconceitos, tabus e outras coisas que um verdadeiro homem latino possa alvitrar, o segurança (ou candeeiro - como o entenderem), tendo em conta o instinto básico de sobrevivência e contra todas as expectativas, com a voz muitissimo bem colocada, diz "Tente novamente. crrrr. Tente novamente."

Conclusão: Ter sempre a mente aberta para novas experiências pode ser sinal de imensa sabedoria e instinto de sobrevivência.

Beijinhos e essas coisas

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

A garrafa de dois litros de coca-cola


Há tempos preparava-me para ir para a praia. Um convite feito por duas mulheres. Eu estava parvo mas pensei, “que se lixe, vou”. Vesti o fato de banho, uma t-shirt imaculadamente branca, meti a revista no saco da praia já pendurado ao ombro e vou à cozinha lembrando-me que na noite anterior tinha deixado uma garrafa de dois litros de coca-cola no congelar por sugestão de uns amigos que vieram cá jantar. Ora, a garrafa estava estranhamente rija e o conteúdo congelado. Com o saco a tiracolo poiso a garrafa em cima da mesa na cozinha e por momentos reflicto, talvez já tivesse visto aquilo assim, uma garrafa de coca-cola congelada. Agarrei-a com cautela. Estava mesmo rija. Tentei desapertar a tampa. Nada. "Bolas", pensei "esta coisa está mesmo agarrada". Poisei o saco da praia e agarrei numa toalha das mãos.

‎"Não há-de ser a porcaria de uma tampinha deste tamanho que me vai vergar". Agarrei na base da garrafa de dois litros de coca-cola com uma ponta da toalha e com a outra ponta atirei-me à tampa "Tás tramada!", pensei. Num golpe seco mas decidido fiz rodar a tampa. Não sei mas julgo que terá rodado um quarto de volta. Começo a ouvir um som parecido com o que faz o spray do mata moscas. Isto vai, pensei. Esperei mais um pouco, talvez três ou quatro segundos, e enquanto apurava a atenção no som sibilante que saía da tampa da garrafa que entretanto agarrava firmemente com a mão, dou-lhe mais um quarto de volta. Nada.

Curiosamente começei a ver bolhinhas a subir por entre o gelo. Eu sei que o que derrete primeiro é o concentrado a que chamam coca-cola. Uma espécie de caramelo liquido que, quando era novo, uma das primas usava para fazer de bronzeador. Enfim... cada um com a sua. No fim quem gozava era o namorado. Adiante. Ah! E como era açúcar se não fosse o namorado, saía facilmente com a água. Tem lógica. Mas como referia antes as bolhinhas começaram a subir pela garrafa e o som aumentou um pouco. "Isto são 14h30. Ora às 15h20 tou na praia. Isto hoje não vai estar vento", pensei.

Passados, o quê? Três? Dois? Sabe-se lá. O tempo por vezes é relativo. Naquele momento pareceu parar. Talvez por momentos tenha perdido de facto a noção do tempo. Talvez o cérebro se recuse a acompanhar o tempo na medida em que não quer registar determinado tipo de acontecimentos. Quando era novo, um dia roubei o carro aos meus pais e acordei no hospital com a cabeça envolta em gaze. O cérebro não registou esse acontecimento. Chamam-lhe traumatismo craneano. É curioso pois ele esteve sempre acordado. Dizem.

Pois bem. A dada altura algo aconteceu. Dava jeito ter uma daquelas máquinas de filmar especiais que filmam tão rápido que depois até podemos ver em câmara lenta. O facto é que o tal caramelo de repente está a ser projectado por toda a cozinha. Toda! Tudo tinha aquele açúcar caramelizado. Inclusive eu e a t-shirt branca. A projecção da coca-cola fez-se por toda a área da cozinha, inclusive locais que em teoria não seriam acessíveis à fúria da besta. Dentro da torradeira por exemplo. As torradas feitas no dia seguinte cheiravam a caramelo. Não é mau. Foi preciso arrastar o frigorífico, lavar os bicos do fogão, lavar o tecto com lixívia, e mesmo assim ficou todo manchado, "Que se lixe", pensei, "Ninguém olha para o tecto". E passadas duas horas de extenuante e contrariada esfrega lá me dirigi para a praia. Quando lá chegei olhei bem para a cara das pessoas com quem fui ter e lembrei-lhes, a sorrir, da garrafa de coca-cola que tinham sugerido colocar no congelador para ficar fresca mais rápido. Foi assim uma espécie de ‎... A culpa foi vossa, estão a ver?

Não saberei se o liquido caramelizado serve ou não como bronzeador pois mal chegei à praia atirei-me logo para a água. Mas deu-me a experiência conhecimento para saber que para além do cuidado a ter com garrafas de coca-cola de dois litros no congelador, se acontecer algo parecido como Armagedão na cozinha, no dia a seguir, o que ficou na garrafa não sabe a nada. Uma porcaria.

Beijinhos e essas coisas,

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Ó pai...

Há tempos estava eu na sala, em minha casa, com os meus filhos.
- Ó pai...
- Sim Manuel?
- Como é que são feitos os bébés?
- ???... Os bébés? Olha lá tu acreditas que é uma cegonha que os trás no bico?
- Claro que não pai. Isso é uma mentira.
- Pois é . Mas olha então vê lá se percebes à primeira. Ouve lá com atenção que isto não é fácil. Se tiveres duvidas vai perguntando está bem?... Mas olha lá? Não falaram sobre isso na escola?
- Sim. Mais ou menos. Mas eu não percebi bem.
- Então ouve, à excepção de uma pessoa que se saiba, é quando um homem enfia a pilita no pipi da mulher e depois atira para dentro do pipi dessa mulher um espermatozóide que vai por um tubinho até um ovito minusculo que está dentro da barriga dela. Quando lá chega e se tiver sorte pois são muitos, consegue entrar na casca do ovito e depois começa a crescer.
- O que é uma excepção?
...
- Temos todos duas pernas certo?
- Sim
- Mas há um que tem três, percebes? Esse é a excepção.
- Mas há pessoas com três pernas, pai?
- Acho que não, mas se houvesse essa pessoa era a excepção, percebes?
- Sim.
- Então e essa mulher? Não foi preciso um espermatóide?
- Vai buscar o dicionário.
- Ó pai...
- Vai!
- Está bem... Es-per-ma-to-zói-de. Sim. Não foi preciso um espermatozóide entrar no ovinho?

“Bolas, tou tramado”.

- Ouve lá... Há muito tempo numa terra longe daqui, num lugar com muito sol e camelos e cabras e pedras, muitas pedras. Onde as pessoas não tinham televisão nem telemóveis nem torneiras nem supermercados. Onde não havia carros nem bicicletas. Onde não havia escolas nem livros, quer dizer havia alguns livros, mas só algumas pessoas sabiam ler. Vivia uma mulher chamada Maria. Essa mulher era casada com um carpinteiro chamado José e um dia tiveram um filho, ou melhor ela é que teve o filho porque o José não era o pai.


- Então quem era o pai?
- Sei lá Manuel. Ninguém sabe. Olha! Se fosse há uns anitos atrás davam-lhe um bilhete de identidade a dizer “filho de pai incógnito”. Naquela altura como não havia bilhetes de identidade... sei lá Manuel. É uma confusão. Mas o facto é que a tal senhora ficou grávida. Dizem que foi um poder divino. Um milagre. Dizem Manuel, olha que cada um acredita no que quiser, mas o facto é que ela jurou a pés juntos que foi deus.
- E nasceu o menino Jesus.
- Sim, podes dizê-lo. Nasceu o menino Jesus. Entretanto e quando cresceu tornou-se num homem alto e forte. Lembras-te de falarmos no outro dia quando vinhamos no carro sobre democracia e fascismo e nazismo e comunismo e essas coisas?
- Sim.
- Pois parece que Jesus era assim uma espécie de político. Acho que ele defendia os que trabalhavam pois eram prejudicados pelos outros que especulavam.
- O que é especular?... Já sei, espera... diz “Efetuar operações comerciais ou financeiras de que se espera obter lucros com a oscilação dos preços; negociar, comerciar.” Não estou a perceber pai.
- Uns malandros. Acho que um dia Jesus terá entrado num templo, assim uma espécie de Igreja e viu lá uns tipos com uns cibinhos de madeira preta na testa, a vender o pão mais caro do que os outros que vendiam o mesmo pão na rua. Ele não terá gostado disso e acho que os mandou para fora do templo. Ora aquilo era uma territa pequenita governada por um tipo romano chamado Pilatos.
- Esse nome é giro. Faz lembrar pilitas.
- Pois faz. Mas ouve, os vendedores malandros foram ter com o Pilatos que era assim uma espécie de polícia e fizeram queixa do Jesus a dizer que ele não os deixava vender o pão dentro do templo. O Pilatos que até nem devia ser má pessoa, estava era chateado com o emprego que tinha disse-lhes para serem eles a tratar do assunto e como eles eram mais ricos espetaram com ele numa cruz.
- Só porque eram mais ricos?
- Pensa Manuel, pensa. Já falámos sobre isso. Sabes que há pessoas que por terem muito dinheiro fazem coisas que não são justas. Já sabes isso.
- Pois é... Ó pai! Então e a avó disse-me que ele depois morreu e depois russuxitou.
- Ressuscitou. Pois. É estranho não é? Matam-no, enterram-no num buraco e passados três dias ele levanta-se e vai à vida dele.
- Ó pai! Eu acho que é mentira. O cão do tio morreu e foi enterrado. Os peixinhos do aquário quando morrem vão para o caixote do lixo. As pessoas quando morrem não voltam a nascer.
- Pensa Manuel, pensa pá. Tu tens de pensar sempre muito, está bem?
- Sim. Está bem... Ainda há chocolate?
- Vai lá ver na gaveta.
- Também queres?
- Sim trás a tablete. Olha lá Maria? Onde é que está o comando da televisão? Parece que vai dar o "Matrix".

Beijinhos e essas coisas,

segunda-feira, 19 de julho de 2010

A mulher vendada


Há uns tempos e mais uma vez pus-me a pensar. Eu por vezes dá-me para isto. Para pensar. Bom! Mas de facto pus-me a pensar e logo na justiça. Já nem me lembro bem porquê. Pensei nela. Ali sentada. Quieta. Vendada. Sem se mexer. Nadinha!

Talvez tenha sido por causa dos variadíssimos casos ligados a pessoas que aparecem na televisão quase todos os dias com ar de quem está muito bem na vida mas ao que parece são uns malandros. Ou por causa do famoso processo Casa Pia. Ou por causa do senhor do FCP, ou do senhor Major que ao que parece não é Major (por acaso não os tenho visto na televisão ultimamente), ou daquele que foi presidente do Benfica mas agora já não é e vive em Inglaterra. Ou do outro que é presidente do concelho de Oeiras e que já não sei se vai ou não vai preso. Ou se foi os ciganos que andaram aos tiros por causa do marido da cigana que afinal é gay (ao que parece e conforme noticiado na TVI – “O primeiro gay cigano”). Ou se foi por causa daquela senhora de Felgueiras que não foi presa porque foi de férias. Ou se... enfim, exemplos é que não faltam.

Curiosamente, acho que pensei na justiça por causa do mundial de futebol (imagine-se) e dos golos que eu vi que foram golos mas que afinal não foram. Sim! Porque a justiça está em todo o lado, ou não. De tal forma que até existem lugares no planeta em que se justiça houver, um homem faz-se explodir e mata uma data de gente e seguramente terá um lugar no céu com não sei quantas virgens. Ainda estou para perceber o valor comercial das virgens em relação às prostitutas – pelos vistos e por razões que não consigo compreender em absoluto, uma virgem terá mais valor comercial do que uma prostituta cheia de mestria nas artes do sexo. Eles lá sabem, adiante.

Existem no Japão umas mulheres que sendo virgens, dizem, aprendem a agradar os homens. Mas é com chás e leques e umas danças e sons estranhos que eles gostam lá na terra deles. Chamam-se gueichas (não sei se é assim que se escreve). Pessoalmente acho curioso. Como nunca bebi um chá servido por uma mulher vestida daquela maneira, não comentarei. Mas há-as para todos os gostos que eu vi no National Geographic.

Ora, de repente e do nada ou não, dou comigo a imaginar a justiça. Não sei porquê fizeram-na mulher. Como a república. É curioso agora que penso nisso. Só que a justiça está vendada, com uma espada numa mão e na outra uma balança. E enquanto a visualizava (pensando se sería virgem ou não) ocorreu-me imaginar que por obra de algum acaso inexplicável essa mulher, e curiosamente está uma estátua dela à porta da Assembleia da República, de repente, assim sem que ninguém estivesse a contar com isso, dáva-lhe uma comichão na cara e poisando a balança no chão, ía esfregar a cara. Ora nesse momento o lenço que lhe tapa a vista descai e ela passa a ver. Eu nem quero imaginar. Credo.

Se calhar até lhe puseram a venda para que ela não visse, pois se ela visse o que se passa, a espada estava toda romba e a balança certamente também serviría como arma de arremesso.

Às vezes penso nestas coisas. Que hei-de eu fazer? É mais forte do que eu.

Beijinhos e essas coisas,

sábado, 10 de julho de 2010

Os meus filhos não são meus


Olá,

Há uns tempos tive os meus filhos a viver comigo durante duas semanas. Ontem eles voltaram para a mãe. A minha casa voltou a ficar enorme e silenciosa. É estranho esta relação que tenho com eles mas de alguma maneira julgo que me faz pensar que de facto eles não são meus, mas sim deles. O melhor que eu posso fazer é ser amigo deles.

O ano lectivo acabou e eles estão mais crescidos. Um dia estava no quarto deles e enquanto a Maria se vestia pareceu-me ver uns altinhos que nunca tinha reparado, sem pensar, toquei-lhe com o dedo na maminha. Acho que foi a ultima vez que o fiz para além de ter sido a primeira. Haverá quem possa interpretar mal o que acabei de escrever mas eu quero lá saber. Eu sou pai e não sou perfeito, sei-o. Falhou-me. Foi curiosidade do tipo: “Olha lá! Já tens maminhas?”, rimo-nos e eu pedi-lhe desculpa. Assunto arrumado.

Por outro lado o Manelito que um dia destes deixará de ser Manelito e passará a ser Manuel, durante as duas semanas que estivemos juntos, recebeu, tal como eu, uma amiga da Maria que lá foi dormir a casa. Não fosse eu mandar calarem-se e dormirem ficavam a noite inteira a falar. Credo. Muito falam as mulheres.
No dia a seguir o Manelito enche dois balões e passa a tarde inteira a fingir que os balões são mamas. Sim. Ele encheu-os de modo a que não houvesse duvidas que aquilo significava um enorme par de mamas. E foi a tarde toda naquilo. E ria-se a bandeiras despregadas. Tem nove anos o Manelito. Acho que ainda não percebeu bem o mecanismo do amor/sexo mas ou muito me engano ou começou a perceber. É capaz de passar a tarde a brincar com os bonecos e com a bola e sei lá com que coisas ele para ali inventa, mas de repente dá-lhe para se pôr com coisas de maminhas e que tais. É giro. Tive de fazer um esforço para não me rir com as piaditas dele.

É curioso esta vida de pai de fins de semana. A vida assim o quis. Felizmente os telemóveis permitem que eu fale com eles todos os dias e por isso vou mantendo um contacto constante.

Acho que sou um pai normal. Tenho receios e outros medos naturais em relação à Maria e ao Manuel mas também tenho uma sorte do tamanho do mundo em tê-los na minha vida. Vê-los crescer e mudarem é um prazer indescritível. São saudáveis e tanto eu como a mãe deles os educamos cada um há sua maneira de modo a que sejam pessoas normais.

Se eu gosto dos meus filhos? Claro que gosto! E é por isso que tenho saudades deles. Mas o divórcio deu-me, sem que eu o quisesse, este espaço só meu. Que me permite ter saudades deles e pensar neles com um distanciamento que de outro modo seria mais difícil.

Ah! E para que não haja duvidas eles não são meus. Meu é o carro e as calças que trago vestidas. Eles não. Quando muito são os meus melhores amigos, seja lá o que isso signifique.

Beijinhos e essas coisas,

sexta-feira, 9 de julho de 2010

És o elo mais fraco, adeus.

Olá,

Há tempos aderi à MEO Fibra. Espectáculo. Melhor não se deseja. Talvez num futuro próximo seja grátis mas para já não me resta senão pagar por um serviço que podería ser grátis dado as informações vindas a público acerca dos lucros da PT. Dá-me para este pensamentos e eu sei que tenho razão. Adiante.

Pelo motivo da nova adesão há que cancelar o contrato com a ZON TV Cabo. Simples!

Ligo para o número da ZON e atende-me a Carla. Eu já calculava que não ía ser de animo leve que o contrato íria ser cancelado. A conversa foi sempre cordial. Eu não podia de modo algum aborrecer a Carla na medida em que se ela desligasse o telefone eu tería de voltar a ligar e de certeza que já não sería ela que me íria atender. A conversa tería de começar desde o princípio outra vez com outra pessoa. Daí eu me ter concentrado antes e ter pedido às santinhas todas que conheço que me dessem capacidade de raciocínio e muito poder de encaixe e serenidade.

Assim foi. Mal informei a Carla que queria cancelar o contrato ela disparou “Posso-lhe perguntar porquê?”. Até parece que é uma pergunta inocente e desprovida de qualquer interesse que não seja a possibilidade da ZON querer melhorar os serviços na medida em que não quer que outro cliente pretenda o cancelamento do contrato estipulado. Parece.

Expliquei-lhe que a PT me tinha vindo bater à porta e que feitas as contas eu iria poupar perto de 500 euros ao fim do ano.

A Carla volta ao ataque, “Porque é que não nos contactou antes?” afinal eu era um cliente fidelizado, seja lá o que isso queira dizer. Tinha regalias que podia usufruir como por exemplo passar a pagar menos de metade do que estava a pagar. Diz ela... agora... claro.

Como a conversa se mantinha cordial eu propus-lhe um racíocinio simples, “Ó Carla. Se é assim porque é que vocês não me informaram antes? Repare, se eu sou mandado parar por um agente da autoridade, ele facilmente me atira à cara que eu sou obrigado a saber a lei, que é um dever cívico. Ora convosco não se trata de autoridade mas antes de um serviço, certo?”, ela ía ouvindo, “Você também é cliente, certo? Imagine que tem um empréstimo no banco por aquisição de uma casa. Você acha que o banco lhe vai ligar a dizer para lá ir e actualizar o spred de modo a pagar menos?”, ela riu-se. Notoriamente eu estava a ganhar. A Carla estava a ficar sem poder de argumentação.

“Pode enviar o pedido de cancelamento por carta ou por fax”, disse. Ao que eu perguntei “Então e por mail? Olhe que até já há museus que têm a máquinda de fax exposta como uma peça do milénio passado”, retorqui. Mas não. A ZON não usa o mail para cancelamentos de contratos.

“- Se entretanto mudar de ideias sabe que tem quinze dias à experiência para reconsiderar não optar pela MEO Fibra? Ou também poderemos passar as vantagens que vai perder para um contacto que nos indique”, disse ela. “Obrigado”, respondi eu.

A vida tem piada.

Beijinhos e até à próxima,

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Fui à Alemanha, outra vez


Olá,

Há uns tempos o meu amigo Udo Fiedler (Estugarda) convidou-me para ir ter com ele à Alemanha, outra vez. A ultima vez que lá estive foi há seis anos. Dessa vez estive mais tempo. Mas desta vez foi muito melhor. Ele é um bom amigo.

Os alemães estão mais baixos. É um facto. A primeira vez que fui à Alemanha tinha 18 anos. A europa era diferente. Portugal e a Alemanha eram diferentes. De lá para cá são tantas as transformações que nem parece o mesmo país. Se da primeira vez que lá fui só havia alemães e eram ocidentais, agora não há alemães ocidentais pois também não há os orientais. Ou seja o muro de Berlim desapareceu fisicamente. E com o tempo talvez desapareça em consciencia mas para já ainda se sente algo estranho. Depois, e com a comunidade europeia, mais parece um sonho pensar nas diferenças entre o antes e o depois. Curiosamente, Berlim é hoje a segunda cidade do mundo com mais turcos a seguir à capital da Turquia, Istambul. De resto os turcos, ou muito me engano ou vão substiuir os alemães.

É só mais duas gerações e já está.

Ora como eu referi no parágrafo anterior o facto dos alemães estarem mais baixos não se deve ao facto de eles estarem a mirrar mas sim a facto dos turcos se reproduzirem na alemanha mais rapidamente que os próprios alemães. Curiosamente desta vez não me senti tão baixo como da primeira vez que visitei a Alemanha. Se andar caladinho até sou bem capaz de passar por turco. Se alguma diferença possa existir e que me distinga dos turcos é o facto de eu me rir sem qualquer problema na via pública. Eles não têm muita vontade de se rir.

A enorme Alemanha fabrica carros. Várias marcas, boas e fiáveis. Fabrica submarinos e aviões. Fabrica escavadoras de tuneis que não servirão para mais nada depois de terminados os tuneis e que custam tanto que eu nem me atrevo a mencioná-lo. A Alemanha elege presidentes que se demitem por acharem que não vale a pena ocupar o cargo pois não se justifica, tal é a falta de poder que a figura do presidente tem. No entanto a Alemanha é o musculo da europa. Sem ela, nós, europeus, estaríamos literalmente tramados.

Os alemães têm um pseudo-trauma profundo. O Hitler. Eles não falam disso. Aliás ninguém fala com os alemães sobre essa matéria. Eu falo e é giro ver as caras deles. E eles nem tão pouco se atrevem a sugerir qualquer abordagem que não seja da “mea culpa, mea culpa”. Mas dentro das casas dos alemães profundos existem alusões ao nacionalismo e ao orgulho alemão. Têm mais do que razões para estarem orgulhosos de serem alemães. Os alemães são assim uma espécie de doberman amordaçado. Uma besta de força a quem é constantemente lembrado o que eles fizeram e do que foram capazes de fazer.

Não sei se a Alemanha acordará um dia, tal como a China, o que eu sinto é que eles são tristes pois não podem ser verdadeiramente livres. Os judeus mantéem-nos de rédea curta. Curiosamente na antiga alemanha oriental há poucos turcos. Eles lá não se sentem muito à vontade. É diferente. Não sei explicar. Eu fui lá. E também não me senti muito confortável. Lá são mais altos. Se na Alemanha se vê poucos pretos, lá para cima, para a tal antiga alemanha, é que não se vê nenhum.

Portugal é um ótimo país para se viver. E contrariamente ao que alguns querem fazer crer vive-se muito bem em Portugal. A inveja... essa malvada é que estraga tudo.

Beijinhos e essas coisas,