terça-feira, 5 de março de 2013

O sexo



Há tempos, vi-me confrontado com aquela que há-de ser a duvida que persistirá na minha vida até que eu morra. Dei conta dela há muito tempo mas só agora tive a verdadeira necessidade de olhar para ela e conversar com ela e tentar pelo menos saber da sua existência, coisa que de modo algum é fácil de sequer saber da sua existência. Vá-se lá saber as razões que levaram a que nos afastássemos dele, o facto é que é exatamente por causa dele que aqui estou, é por causa dele que devemos a nossa existência. A dúvida persiste e pelos vistos não há explicação plausível para que individualmente consigamos um ou outro compreender o verdadeiro significado do sexo e coletivamente sejamos tão obtusos. É impressionante a hipocrisia que existe à volta do sexo. A maneira distorcida que nos vai sendo incutida ao longo de seculos e milénios. E não se restringe a uma cultura específica ou a um continente. No mundo o que mais não falta são exemplos de total vontade de que não se saiba para que serve de facto o sexo.

A minha filha tem 14 anos e como é obvio não lhe vou explicar o que quer que seja sobre como se faz, como se procede, como se inicia, como se descobre. Era o que mais faltava, ela que descubra, e vai ver que é bom. Sexo é bom. Para já foi o que eu lhe disse a ela e ao irmão que com 11 anos e vai-se limitando a escutar com atenção não obstante dar a entender que está distraído. Ele é curioso o Manuel e escuta com muita atenção determinados assuntos. Parece-me ser um bom ser humano. Adiante, a Maria começou a ter uma vida social, a sociabilizar, a interagir com as amigas e os amigos. Os namorados, as namoradas, os que já namoram, as que ainda não namoram, os concertos, as festas, os encontros, as conversas, as dormidas em casa umas das outras, as mensagens, os faces a as outras “coisas” todas, e agora tenho de me adaptar rapidamente as prioridades dela mudaram tendo mais interesse em estar com as amigas e amigos do que com, enfim, tem de ser, comigo. E é extraordinário que isso aconteça e que eu me sinta assim, confuso, pois é sinal que tudo está a correr como previsto.


Há quem lhe chame amor e logo aí se gera a confusão, pois o amor nada que tem que ver com sexo. Sexo é objectivo, não tem que enganar, de uma maneira ou de outra sexo dá prazer, é bom, alivia, faz bem à pele, faz bem tudo, ao corpo, à mente, e é uma loucura. É tão bom tão bom que todos os seres vivos salvo, creio pelo que possa ter visto no "National Geografic", alguns desgraçados que auto-engravidam. Coisa estranha, pois sabe-se que para criar vida é preciso dois, um assim e o outro assado. É preciso que haja sexo entre os dois. Uma coisa simples, nada de extraordinário que quaisquer cinco minutos servem e pronto, mais uma vida, ou duas, ou mais, há bestas que conseguem gerar com cinco minutos de sexo ou menos 14 ou mais seres vivos, mas há outras ainda que é aos milhares. Enfim, cada um tem as suas capacidades. Ora nós, seres humanos temos esta extraordinária capacidade de elevarmos a mente, de conseguirmos entrar num estado de espécie de meditação digamos, só possível porque somos inteligentes, porque temos memória e vivemos em sociedade. Não obstante há quem se isole, rape o cabelo e se vista com um lençol cor de laranja e aspire a chegar sabe-se lá onde que são precisos imensos anos para se lá chegar, também há quem deixe crescer a barba e nunca mais a cortar, e também há quem se dedique a coisas mais estranhas como por exemplo não praticar sexo.

Aqui para nós Maria, e não digas nada ao teu irmão que depois trato eu dele, o sexo é bem capaz de ser a melhor experiência que poderás ter na vida. É através do sexo que te irás sentir plena pois é ele que te permite chegar a sítios da tua mente que eu pessoalmente não fazia ideia que existiam. Olha que é bom que se farta o sexo e se tu fores razoável, ou não que eu não tenho nada a ver com essa área da tua vida daí chamar-se intimidade, poderás através do sexo chegar a locais que só se lá vai ou com drogas ou com anos e anos de abstinência dele até que se chega a uma idade em que se deixa naturalmente de lhe dar qualquer importância - prepara-mo-nos para morrer. Mas até lá irás sempre ouvir as coisas mais absurdas sobre algo tão trivial como coçar as costas. Lembras-te quando te peço para me coçares as costas? Lembras-te do prazer que eu tenho? Pois o sexo também é prazer e quanto mais tiveres consciência disso mais o vais compreender como algo tão trivial como “Ó Maria coça-me aqui as costas, isso, isso, mais para cima, isso, mais para o lado, só um bocadinho, ui, ai, isso, força, força, aiiiiiiiii, que bom!!!!!”, compreendes? É parecido só que é muito melhor. Muito mesmo, e se o praticares compreenderás um dia o verdadeiro propósito do sexo – PRAZER! E tu como todas as pessoas salvo algumas coitadas, espero que tenhas a sorte de o ter na vida de maneira saudável e despretensiosa.

Mas depois há uns seres humanos tristes que deturpam tudo e mentem e escondem e alguns até se mutilam ou pior. Há Presidentes que se desgraçam e pessoas importantes e com imenso poder que são destruídas por causa do sexo. Até houve uma mulher que conseguiu engravidar por obra e graça do divino, dizem. Tudo tem sido feito para não se compreender a razão do sexo que só tem a ver com o facto de te sentires viva quando o fizeres. Sempre. Sê saudável Maria. Sê um bom ser humano, sê positiva e honesta, aprende a dar, aprende a ter pouco porque é bom ter pouco, viaja, conhece o maior número possível de pessoas, não percas tempos com pessoas estúpidas, trata bem da família, defende-te da maldade da inveja e do ciúme com amor, acima de tudo não te esqueças nunca que pior que a maldade só a estupidez. Mantém-te "acordada" e pensa pela tua cabeça, questiona-te sempre e vive cada dia como se de uma vida inteira se tratasse. Não faças mal aos outros, não faças! Depois ajudas-me como teu irmão e se quiseres ajudo-te com a tua irmã. Fica entre nós.

Gosto de gostar de ti.

Beijinhos.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

A mensagem



Há tempos, dei por mim a ter muito cuidado com o que escrevo nos novíssimos meios de comunicação que vou tendo à disposição. É terrível se pensarmos bem, pelo menos para mim é, senão vejamos, de repente e ao mesmo tempo estou a falar no face, enquanto falo no skype e no gmail e ainda envio e-mails, falo pelo telemóvel e se for preciso até pelo telefone fixo, e há mais que agora não me ocorre mas não me admirava que o caso se passasse de divisão para divisão de uma qualquer casa particular ou mesmo de gabinete para gabinete num escritório qualquer do mundo inteiro. Sim, porque esta suposta ligação feita em vários canais ao mesmo tempo pode muito bem ser local, numa terreola qualquer do Alentejo profundo ou de Grândola para a China. Ora, se for local, imaginemos que sou eu por exemplo, assim não aponto o dedo a ninguém mas toda a gente percebe, sou capaz de estar a comunicar com várias pessoas ao mesmo tempo por canais diferentes. Uma loucura! Faz-me lembrar aqueles empregados da Bolsa que por vezes vejo nas notícias da televisão sobre mercados financeiros e que estão ali sentados nas secretárias a olhar para aqueles ecrãs com numerozitos que eu só lá ia de óculos por serem tantos e tão pequeninos. Parecem uns robots ali quietos de olhar aparentemente pasmado. E no entanto estão concentradíssimos com os cérebros a mil à hora, e se não for a mil arranjam maneira com substâncias ilícitas e menos ilícitas, enfim, consta.


Pois foi por causa de uma mensagem enviada por telemóvel, quando podia perfeitamente ter telefonado, ou mesmo feito uma ligação ao vivo e a cores., mas não, foi simplesmente uma pequena mensagem. E estava bem escrita e tudo. Era precisa e objectiva na questão que colocava. Foi escrita num ápice. Terá sido escrita com um determinado propósito pelo emissor, digamos. E no entanto o receptor  daí o emissor, quando recebe a mensagem compreende-a de outra maneira, limitando-se exclusivamente a ler uma mensagem, um conjunto de letras com um determinado significado, não conseguindo visualizar a atitude física, a expressão facial, a respiração, o tique, a velocidade de entoação daquilo que se diz, e por aí fora de um conjunto de elementos que sem o invólucro  a pessoa que diz, é simplesmente uma mensagem tal como o são as mensagens que os ecrãs de computados dos tais homens robots da bolsa olham horas a fio. Não deve ser fácil, talvez uma questão de hábito, mas passar horas de vida naquele tipo de ambiente, naquele tipo de registo mental entre pessoa e máquina é bem capaz de produzir resultados no mínimo surpreendentes. Daí as mensagens que se recebem poderem ter interpretações genuinamente diferentes. Faltará certamente o resto da mensagem que ficou na origem pois ainda não nos podemos tele-transportar. Acho…

Se por um lado almejamos a globalização, talvez porque a união faz a força, ou sabe-se lá qual o ímpeto que nos faz humanos andar para a frente sempre por caminhos que fazem com que a história da humanidade não tenha qualquer lógica aparente que não seja a inerente ao próprio caos que não deixa de ter a sua lógica, daí a teoria. Por outro lado incomoda-nos o facto de nos sentirmos cada vez mais sós neste mundo globalizado. Esta coisa de andarmos em contacto todos uns com os outros por meios cada vez mais extraordinários e nisso as comunicações são bem capazes de ser o cerne da revolução que estamos a atravessar coloca-nos num estado de letargia que nos vai adormecendo lentamente. Começamos a fazer as nossas próprias interpretações do que lemos, observamos, ouvimos e esquecemo-nos de algo fundamental – o contacto físico. Olhos nos olhos, como se costuma dizer, ao invés de uma mensagem traduzida em letrinhas minúsculas num aparelho de recepção  Por vezes uma mensagem mal interpretada tem consequências que podem inclusive mudar a face da terra como a conhecemos. Tal como a borboleta no Japão pode ser a origem de um tsunami na América, uma mensagem mal interpretada pode ter sabe-se lá que consequências. É preciso aprender a interpretar mensagens. Cada vez mais.

Ou então o melhor é à portuguesa que à sexta-feira por exemplo se resolvem tantos e tantos negócios ao almoço num restaurante, com a barriga cheia e ali, olhos nos olhos. Para negócios não há cá mensagens, para negócios o melhor é ali, frente a frente, não nos vá escapar um pequeno tique antes de uma resposta comprometedora. É preciso sentir, cheirar, observar o emissor de modo a decifrar o todo da mensagem recebida. Há quem lhe chame corrupção mas de facto não o é. É sim uma maneira de estar na vida e bem simples em que nada fica gravado mas existe um compromisso, uma acordo de cavalheiros, uma palavra dada, um toque no ombro, uma oferta ou delicadeza… e pronto. Já no resto, naquelas miudezas que são o sal da vida é giro enviar e receber mensagens só que às vezes corre mal, é curioso.

Beijinhos.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

O homem e a formiga



Há tempos a minha vida mudou outra vez. Sou daquelas pessoas que retém a memória da vida passada de acordo com sensações. Hoje já me sinto mais confortável em aceitar que sou assim, distraído com muitas coisas mas atento a outras. Normalmente estou mais atento ao pormenor, ao detalhe, à diferença, aquela estranha sensação que sinto quando confrontado com algo ou alguém. Reconheço que vivo de acordo com a soma do legado indivisível, da experiência vivida, mas também da (felizmente) curiosidade que nunca me deixou crescer. Não obstante cresci e sou um homem. Moldado pela sociedade em que habito para me portar como um homem. Sejam quais forem as opções políticas ou religiosas eu sou um homem e se não me portal como tal sou um tolo. Um marginal, indigente, alguém que não age de acordo com as normas estabelecidas pela maioria para que possamos viver em harmonia o mais possível. Haverá sempre marginais para nos lembrar todo o espectro da génese humana. Só assim se compreende a condição humana – pela diferença.

A minha vida mudou outra vez porque assim teve que ser. Já com o Bernardo foi diferente. O Bernardo interrompeu o que seria o normal curso da sua presença em quanto ser social. Eventualmente ter-se-á transformado em outra coisa qualquer. Há quem acredite nisso. Eu acredito, e acredito que há um Céu, chamemos-lhe assim. E que enquanto eu cá andar o resultado das minhas vivências refletir-se-á algures. Deve ser. A mim faz-me sentido que assim seja. Nem que seja pelo facto de ao acreditar nisso tento ser o mais… como direi? O mais… como o meu avô. É isso, se eu for como meu avô irei para o Céu com toda a certeza. O meu avô também mudou de vida algumas vezes. Algumas eu vi, outras ainda não tinha nascido e por isso ouvi. E ainda oiço através da minha mãe e de outras pessoas que falam dele. Um homem íntegro e com “coluna vertebral”. Gosto dessa expressão. Sempre a conheci e sempre a ouvi, curiosamente dita muitas vezes pela filha dele, minha mãe – “Ou se tem ou não se tem coluna vertebral”.


Eu peco. Pequei e o mais provável é voltar a pecar. É inerente à minha condição de ser vivo, de ser-social, e não serão os pecados que cometi que não me deixarão entrar no Céu, assim espero. Já as formigas, por exemplo, que também vivem em sociedade, têm livre-trânsito, pois mas não têm inveja – simples! Trabalham para o bem comum independentemente da sua condição. E é extraordinário pensarmos que se as formigas fossem do nosso tamanho este planeta não chegava para elas – são imensas. No entanto prevalecem independentemente do tamanho, estoicamente, contra todas as probabilidades e sem que demos por isso. Já nós temos esta terrível obstinação de competirmos sempre como se a vida disso dependesse. Ganhar mais dinheiro, correr mais depressa, saltar mais longe, mais alto, nadar mais depressa, aguentar mais tempo, como nos Jogos Olímpicos! Um espetáculo internacional que põe à prova o “mais que tudo” do genoma humano – uma loucura! O que pensarão as formigas disso? Haverá formigas a correr desesperadamente para vencer as outras todas, para serem indiscutivelmente as melhores?

A minha vida tem sido uma viagem, uma aventura cheia de experiências e sensações. Gosto de ser quem sou e prevejo para mim mais coisas extraordinárias simplesmente porque estou vivo. A partir de agora sei que quero ir para o Céu - quero mesmo. E para isso tenho que ser uma boa pessoa enquanto cá andar neste corpo. Já outros coitados, não compreendo. Era tão fácil. Bastava serem como as formigas e não serem invejosos – simples!

Beijinhos,

segunda-feira, 16 de julho de 2012

A partícula de Deus



Há tempos aconteceu-me algo extraordinário, mesmo! Algo incompreensível, uma bizarra sucessão de acontecimentos de tal maneira inacreditável a infinita possibilidade de tal poder acontecer, que não conseguindo imaginar sem por sombra de qualquer dúvida o responsável de tamanha façanha, remeto para  Deus de modo a fazer-me entender… simplesmente!

Roubaram-me o carro! Suponhamos que é o nascimento de cristo, ok? Existe um antes e um depois, certo? Antes de me roubarem o carro e depois de me roubarem o carro. O carro apareceu entretanto. Foi um indigente que vive por ali na zona onde resido que agarrou a oportunidade do carro destrancado com a chave lá dentro e que durante dois meses e pouco viveu literalmente dentro do carro, até que foi apanhado. Para além do cheiro a corpo compreensível e alguma sujidade o facto é que estava tudo na mesma. O cinzeiro limpo, os postos do rádio, os óculos, tudo. Ora, seria suposto eu desejar qualquer coisa de mal ao pobre homem, mas não consigo. Será isto a compaixão?

Passados dois dias uma senhora a quem ajudo na estrada porque com a chuva fez um peão mesmo ali à minha frente, e depois de a ajudar diz-me que sou um anjo… no meio da autoestrada. Passados dias e numa ocasião completamente diferente, o meu irmão cruza-se com o meu carro a ser conduzido por alguém numa das ruas em que circulo diariamente. Duas vezes! É impressionante! Eu já tinha feito o funeral ao carro e o meu irmão cruzou-se duas vezes com o meu carro e não o apanhou. O meu irmão não é bêbado, ia com um amigo e os dois tiveram mais que tempo de ver que era mesmo o meu carro.


Entretanto e como já me aconteceu várias vezes na vida - o fim de uma relação - um vazio que fica, um sentimento de nada ou neste caso do fim de uma relação que deixou de ser amorosa para dar lugar a outra coisa. Ou a perda de um objecto, ou de um animal de estimação, ou de um carro, ou ainda e tomando como exemplo e com todo o respeito, um ente querido. Afinal de contas coitados daqueles que nunca experimentaram a perca de um amor, ou de algo. A vida compreende a morte, certo? Não é a morte que gera vida, mas antes a vida que até das cinzas renasce se for preciso. É a vida que permite a existência da morte. Assim sendo e com o tempo, o vazio daí resultante vai-se “arrumando” e o espaço dai resultante começa a aparecer do nada. Espaço para isto, tempo para aquilo, sei lá, é uma loucura de espaço e tempo. Uma pessoa depois do luto, renasce das cinzas. Sempre me deixou curioso aqueles homens ciganos que se vestem de preto e deixam crescer a barba. Há maneiras e maneiras de gerir as percas e fazer o luto. É preciso.

Ando feliz. Assim, de repente… Quer dizer, na altura não foi de repente mas agora até parece. No período em que o carro foi roubado questionei muito a existência de Deus. Era o que mais faltava se eu não pudesse questionar Deus, como algumas pessoas chegaram a comentar. Cada um fala com Deus como muito bem entender, querem lá ver? Adiante, pois no momento em que percebo que fiquei sem carro pensei – “Já que perco o carro e vou ter de sentir este vazio, termino também a relação. Algo há-de acontecer.” O Bernardo Sasseti faleceu entretanto, logo uns dias a seguir ao roubo. Fiquei mesmo furioso com Deus. Chamei-lhe nomes e tudo. Ele é parvo ou quê? Leva lá a porcaria do carro, mas o Bernardo? E a seguir a mulher do Miguel com um cancro. “Que se lixe o carro!” – pensei, e fiz-lhe o funeral e pronto! Até nem tinha vendido o outro, foi só voltar a trocar os documentos. Durante quatro anos juntei moedas para fazer uma viagem com os miúdos, mas optámos pelo carro e continuar a juntar moedas e afinal nem viagem nem carro. Continuei com a minha vida normal, mas envolto de pensamentos estranhos até sobre a minha própria existência. Fiquei mesmo triste.

No meio de todos estes acontecimentos os meus filhos vieram passar as férias comigo. Fico sempre muito preocupado com o bem-estar deles. Adoro estar com eles e quando estou com eles parece que fico patareco ou lá o que é. São dois filhos bestiais, seres humanos de exceção. Creio que têm sido eles que me têm ajudado com as suas opiniões e comentários e até sobre este assunto observo neles uma aceitação pacífica de todo o desenrolar destes acontecimentos. Para eles aparentemente não há drama nem mistério. Para mim tem sido uma viagem, ufa!

Por vezes ocorre-me uma frase que me lembro da missa cristã – “Ele está no meio de nós!”. Já tenho 47 anos e é óptimo. Dá-me experiência e alguma sapiência. É preciso ter anos de vida e experiências diversas e profundas. É preciso experimentar por exemplo Meditação, Tai Chi Chuan, Drogas, Tango, Cientologia, Cristianismo, Sexo, Budismo, profissões diferentes, relações diferentes, comida diferente, viajar, e mais, e mais, e mais... Fazer teatro, ter filhos, plantar árvores, construir casas, ler e escrever muito, e acima de tudo é preciso saber amar e ter a capacidade e humildade de aceitar que há coisas inexplicáveis. Talvez seja essa a verdade da própria existência de tudo – a inexplicabilidade da própria existência de um principio de tudo.

Aqui sentado na sala, sozinho… a escutar os relógios de parede que sem corda param dando a estranha sensação de que o tempo também pára, já nem compreendo se estou a escrever para mim ou para alguém. Sei lá… Isto não é fácil… Parece o Matrix… credo! Mas que Ele está no meio de nós, isso eu não duvido. É só apanhá-lo e vais ver - os números do euro-milhões, já para cá!

Beijinhos.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

A Merkel aos pulinhos



Há tempos vi a Merkel na televisão, sem mala, ela é daquelas mulheres que deita por terra a teoria de que só na televisão é que as mulheres não usam mala. Não me recordo de a ver de mala como é normal as mulheres usarem. E vi-a aos pulinhos toda contente depois da Alemanha, no campeonato europeu de futebol, ter ganho. De repente aquela mulher de quem se fazem as mais justas caricaturas tal é a peculiaridade física e até de atitude, de repente mostra como se diverte sendo que os políticos não se sabem divertir, à exceção talvez do Alberto João que no Carnaval mostra como se gosta de divertir no meio das massas. Pois a Merkel à imagem da maioria dos alemães tem uma maneira de se divertir que nós os portugueses dificilmente entendemos, a não ser a classe política que consegue interpretar nos mais subtis gestos o que lhe vai na cabeça, independentemente da maneira como ela se regozija com a vitória da Alemanha.

Tenho página no Facebook e tem sido através dessa extraordinária nova maneira de estar no mundo que me tenho apercebido da falta de informação que nós portugueses temos da Alemanha e do que de facto se lá passa. Somos assim, pequeninos. E como aquilo é para lá de Espanha as pessoas vulgares não se preocupam. Por outro lado deve haver poucos jornalistas portugueses que falem alemão, resultando assim numa falha grave da informação que realmente deviam ter da Alemanha. Será? Desta vez a Alemanha e mais uma vez voltou a perder com a Itália. Aquilo já se tornou um pesadelo nacional para os alemães. Eles “já sabem” de antemão que vão perder com a Itália. Eles sentem isso. É um sofrimento. Mas eles não desistem, são persistentes, lutam até à última, tal como nós. Não sei se a Merkel estava a ver o jogo em que a Alemanha perdeu com a Itália, mas se não estava é natural. Se conhecermos bem os alemães seria previsível que ela não arriscasse chorar em público (pouco plausível).


A Merkel é originária da antiga Alemanha de leste, ou Alemanha Oriental. A Merkel tal como os alemães dali é racista, não se sabe divertir como nós, nem tão pouco sei se já terá ido alguma vez à praia dar uns mergulhos, agora que penso nisso… credo, enfim há gostos para tudo, deus me perdoe. Os Alemães perderam com a Itália e quem marcou os dois golos foi um africano. A história não deixa de ser curiosa já que o Hitler, nem de propósito que anda para aí uma paranoia sobre a Alemanha e o medo de uma propensão para os extremismos, também levou uma “trepa” de um afro-americano nos jogos Olímpicos. Ninguém gosta de perder e os alemães também não. E a Merkel não gosta de perder e tem o apoio de todos os alemães, só que ela é dali daquela parte da Alemanha onde não há africanos. Por outro lado é relevante pensar-se que a segunda cidade com mais turcos no mundo é Berlim. E a coisa é de tal maneira abissal que pelo facto de haver tantos turcos nascidos já na Alemanha a estatura média na Alemanha ao contrário de continuar a crescer até diminuiu. A sério! Por causa dos turcos os alemães estão mais baixos.

Se há razões para haver algum tipo de receio é óbvio. Putin não gosta do Ocidente, é natural e compreensível e eu estou convicto que não obstante os russos não falarem com os alemães, se for necessário eles aliam-se de um pé para a mão. Não podemos nunca não tentar entender os alemães. Será um erro crasso e de uma infantilidade extrema. Neste momento estamos perante duas europas, a dos que emprestam e a dos que pedem. Ainda não percebi como é que uns têm euros para emprestar e outros têm de pedir euros emprestados, afinal de contas não era suposto ser uma europa comunitária? Enfim, os norte americanos têm dado tiros nos pés uns atrás dos outros. E claro, tem sobrado para os europeus.

Pensar-se que foi bom os alemães terem perdido com a Itália é um erro crasso. Os alemães nunca perdem. Aos alemães passa-lhes rápido a derrota para dar lugar a um orgulho desmedido que lhes dá força para continuarem a trabalhar e a produzir automóveis mesmo que não os estejam a vender à velocidade que os fabricam. Vai ser giro vai! Vamos ver…

Beijinhos,

segunda-feira, 25 de junho de 2012

O dedo entalado e o homem robot



Há tempos o meu filho Manuel, que curiosamente me tem ajudado a compreender-me a mim próprio tais são as semelhanças de comportamento que me vejo nele, entalou o dedo na perna da cama. Não obstante ter visto a irmã com um dedo lá entalado em outra ocasião e ouvido da garganta dela um grito que espero nunca mais voltar a ouvir na vida. Eu estava na cozinha e de um lapso de tempo para outro eu estava no quarto dela com a cama no ar em peso enquanto ela olhava para o dedo que sangrava. Ser pai pode ser curioso na medida em que nos faz reagir de uma determinada maneira ou ter eventuais emoções que de outro modo não faço ideia de como se possam sentir. Só tendo filhos de facto… e amá-los a sério, claro. Adiante.

Desta vez foi o Manuel, coitado. Ele é forte, aliás eu já lhe pedi para ele se queixar com mais antecedência em vez de aguentar até ao limite, ou para lá dele, pois se ele sair a mim - aguenta-se muita coisa. Só que ele é meu filho e tem onze anos, é diferente. Pois o Manuel entalou o dedo à séria, o polegar. Ó pá! Aquilo ficou uma miséria, vai cair a unha e essas coisas. Mas ficou mesmo uma miséria, credo. Nessa noite e de caminho para o hospital ele adormeceu, o que me levou a pensar que se dorme é porque não será grave e talvez seja melhor dormir. Adormeceu logo. No dia a seguir organizei o dia da maneira mais civilizada possível. Ainda não conheço bem o “sistema” e fui à esquadra que já sabia onde ficava e perguntei onde poderia ir com o miúdo tratar do dedo. Indicaram-me como é lógico o centro de saúde da área da minha residência. Fiquei a saber que é perto de minha casa, ótimo.



No centro da saúde de Paço de Arcos disse ao Manuel para falar ele e ele mostrou o dedo ao senhor atrás do balcão e explicou que o tinha entalado e precisava que alguém o visse. O senhor perguntou-lhe onde é que ele morava e ele respondeu que mora em Telheiras com a mãe. Faz sentido na medida em que é isso de facto que acontece quando não está a viver comigo, o pai. O senhor informou o Manuel que não podia ser visto ali pois o Manuel não reside em Paço de Arcos. Que tem de ir ao Lumiar. Ficámos todos em silencio inclusive o senhor a quem eu fiz questão de dizer que o mais certo era já ter morrido e nem saber. E que talvez ele não soubesse mas devem-lhe ter tirado o cérebro e trocado por uma cassete igualzinha aquelas que outros portugueses também usam em vez do cérebro, e que não era normal um homem com aquela idade responder a uma criança de 11 anos que não lhe pode ver o dedo a sangrar por causa da morada, quando o Manuel, sendo meu filho tem todo o direito de ser atendido ali pois eu moro ali… espero que faça sentido o que escrevi pois não é fácil resumir tanta estupidez junta.

Saímos do centro de saúde e fomos à farmácia. O Manuel doía-lhe o dedo e aquilo de facto estava muito feio. Na farmácia o rapaz do balcão sugeriu-nos irmos ao enfermeiro x (não escrevo o nome para defender o dito enfermeiro não vá algum estúpido que trabalhe para o “sistema”, se pôr com coisas). O enfermeiro x é um milagre! O dito homem, já avô, tratou do Manuel como se do próprio neto se tratasse. Eu estava lá e vi. A primeira pergunta que fez ao Manuel foi onde é que ele se tinha entalado e se lhe doía e que ia já tratar do dedo e que não se preocupasse. Só me faltou chorar. Eu não chorei mas o Manuel chorou um bocadito, coitado. Uma parte da unha tinha-se partido e estava enterrada debaixo do resto da unha que irá cair para dar lugar a uma nova. O enfermeiro fez-lhe festas, deu-lhe palmadinhas nas costas, cumprimentou-me a mim e no fim disse que são quinze euros.

Eu paguei os quinze euros em dinheiro vivo, não pedi recibo e já lá voltei para trocar o penso como combinado e já está combinado outro penso dali a dias. O que é que o estado tem a ver com isto? Nada! E espero que não se meta no assunto senão vou mesmo às fuças a alguém. Comigo ainda podem “brincar” aos serviços de saúde, mas com o meu filho não… por favor. Isto que se está a passar só não vê quem não quer. O sistema gripou, faliu, desumanizou-se e agora estamos entregues a uns putos que estão no governo a fazer experiências baseados em números e estatísticas.

Enfim… isto vai dar merda – como se diz em português correto. Ou se não estiver correto não me levem a mal mas eu às vezes até já nem sei escrever, tal é a confusão que os tais putos - secretários de estado e afins, criaram inclusive com a língua portuguesa, como se tal fosse possível… e até foi. Impressionante! Credo!

Beijinhos,

domingo, 10 de junho de 2012

Fernando Pessoa



Há tempos estiver a ler Fernando Pessoa, que é o mesmo que dizer fui ao Brasil sem se dizer onde especificamente tal é a imensidão do que ele escreveu. Adiante… estava sentado no meu terraço, Sábado à tarde na companhia dos meus filhos, almoçámos coxas de frango no churrasco. Da próxima vez têm de ficar mais tempo nas brasas, ficaram ótimas mas podiam ter ficado melhor, provavelmente se fosse um daqueles programas sobre cozinha e culinária o chefe diria que estava uma porcaria e com razão. Se é possível a excelência, porque não atingi-la? No caso concreto e para poupar no carvão apaguei o lume antes de ter verificado se de facto as coxas estavam realmente assadas. Por fora parecia mas por dentro a carne junto ao osso ainda se encontrava um nadinha em sangue. Quase nada. Como se não importasse. A ver se passa (que não foi o caso), ou a ver se não dizem nada, ou então perguntar se está bom que, claro, dizem logo que sim… a não ser que esteja nitidamente impossível de deglutir, talvez mastigar para poder fazer aquela cara de quem ficou surpreendido e depois curioso e depois desagradado e depois pensativo e depois uma pequena troca de olhares e fora com aquela coisa da boca.


Ao almoço bebi finalmente uma cerveja alemã vinda mesmo da Alemanha pelas mãos de uma amigo. Até os meus filhos provaram. Tinha no final da língua um sabor a água-mel, uma espécie de geleia de mel formidável para se juntar ao gelado de natas no verão. Este ano não tenho água-mel mas fiz algo que está a curar, com gengibre, açúcar, anis e lucia-lima, planta que adquiri à pouco tempo e que juntamente com as que já tenho fazem do meu terraço um lugar de cheiros, de sensações que se confundem com memórias de outros lugares e de outras ocasiões. Curiosamente o cheiro não tem lugar nem tempo. Cheira sempre a qualquer coisa. Li algures que no Japão por exemplo não usam produtos de limpeza para a casa de banho com cheiro a limão. Seja ou não verdade, o facto é que fará algum sentido. Uma pessoa vai à casa de banho, entra, levanta o tampo da sanita e vem de lá um extraordinário odor a limão. O velho truque tão aprimorado pelos franceses. Disfarça-se o cheiro proveniente do interior com um cheiro mais forte e que nos transporte para outro espaço de tal modo que os anúncios fazem com que a sanita apareça no meio de prados verdejantes.

Ora a questão é que voltando da casa de banho para a sala de estar, ao convívio com os amigos, não deixará de ser estranho pedir-se uma coca-cola com gelo e limão. O cérebro naturalmente regista cheiros e associa-os a coisas. E quando pegamos no copo e vamos dar uma chupadela na palhinha para um agradável gole de cola entra-nos pelo nariz um cheiro que associamos a limões e outra coisa qualquer que por uma razão de pura lógica o mesmo cérebro cria bypasses para não pensarmos que estamos a beber sabe deus o quê. Enfim… Sempre me questionei se será verdade ou não esta questão dos cheiros da casa de banho. Pessoalmente não gosto muito do cheiro a alfazema. Como tenho alguma alergia na Primavera talvez o meu cérebro associe o cheiro da alfazema à alergia criando aí uma associação que ultrapassa o meu controlo lembrando-me que eu só controlo conscientemente 10 por cento dos meus gestos. O resto é inconsciente. Mais uma vez e a ser verdade é extraordinário que só controlemos 10 por cento da nossa vida.

E quando li com atenção Fernando Pessoa, apeteceu-me escrever… Talvez ele esteja a ler… algures… era giro.

Beijinhos.