segunda-feira, 23 de julho de 2012

O homem e a formiga



Há tempos a minha vida mudou outra vez. Sou daquelas pessoas que retém a memória da vida passada de acordo com sensações. Hoje já me sinto mais confortável em aceitar que sou assim, distraído com muitas coisas mas atento a outras. Normalmente estou mais atento ao pormenor, ao detalhe, à diferença, aquela estranha sensação que sinto quando confrontado com algo ou alguém. Reconheço que vivo de acordo com a soma do legado indivisível, da experiência vivida, mas também da (felizmente) curiosidade que nunca me deixou crescer. Não obstante cresci e sou um homem. Moldado pela sociedade em que habito para me portar como um homem. Sejam quais forem as opções políticas ou religiosas eu sou um homem e se não me portal como tal sou um tolo. Um marginal, indigente, alguém que não age de acordo com as normas estabelecidas pela maioria para que possamos viver em harmonia o mais possível. Haverá sempre marginais para nos lembrar todo o espectro da génese humana. Só assim se compreende a condição humana – pela diferença.

A minha vida mudou outra vez porque assim teve que ser. Já com o Bernardo foi diferente. O Bernardo interrompeu o que seria o normal curso da sua presença em quanto ser social. Eventualmente ter-se-á transformado em outra coisa qualquer. Há quem acredite nisso. Eu acredito, e acredito que há um Céu, chamemos-lhe assim. E que enquanto eu cá andar o resultado das minhas vivências refletir-se-á algures. Deve ser. A mim faz-me sentido que assim seja. Nem que seja pelo facto de ao acreditar nisso tento ser o mais… como direi? O mais… como o meu avô. É isso, se eu for como meu avô irei para o Céu com toda a certeza. O meu avô também mudou de vida algumas vezes. Algumas eu vi, outras ainda não tinha nascido e por isso ouvi. E ainda oiço através da minha mãe e de outras pessoas que falam dele. Um homem íntegro e com “coluna vertebral”. Gosto dessa expressão. Sempre a conheci e sempre a ouvi, curiosamente dita muitas vezes pela filha dele, minha mãe – “Ou se tem ou não se tem coluna vertebral”.


Eu peco. Pequei e o mais provável é voltar a pecar. É inerente à minha condição de ser vivo, de ser-social, e não serão os pecados que cometi que não me deixarão entrar no Céu, assim espero. Já as formigas, por exemplo, que também vivem em sociedade, têm livre-trânsito, pois mas não têm inveja – simples! Trabalham para o bem comum independentemente da sua condição. E é extraordinário pensarmos que se as formigas fossem do nosso tamanho este planeta não chegava para elas – são imensas. No entanto prevalecem independentemente do tamanho, estoicamente, contra todas as probabilidades e sem que demos por isso. Já nós temos esta terrível obstinação de competirmos sempre como se a vida disso dependesse. Ganhar mais dinheiro, correr mais depressa, saltar mais longe, mais alto, nadar mais depressa, aguentar mais tempo, como nos Jogos Olímpicos! Um espetáculo internacional que põe à prova o “mais que tudo” do genoma humano – uma loucura! O que pensarão as formigas disso? Haverá formigas a correr desesperadamente para vencer as outras todas, para serem indiscutivelmente as melhores?

A minha vida tem sido uma viagem, uma aventura cheia de experiências e sensações. Gosto de ser quem sou e prevejo para mim mais coisas extraordinárias simplesmente porque estou vivo. A partir de agora sei que quero ir para o Céu - quero mesmo. E para isso tenho que ser uma boa pessoa enquanto cá andar neste corpo. Já outros coitados, não compreendo. Era tão fácil. Bastava serem como as formigas e não serem invejosos – simples!

Beijinhos,

segunda-feira, 16 de julho de 2012

A partícula de Deus



Há tempos aconteceu-me algo extraordinário, mesmo! Algo incompreensível, uma bizarra sucessão de acontecimentos de tal maneira inacreditável a infinita possibilidade de tal poder acontecer, que não conseguindo imaginar sem por sombra de qualquer dúvida o responsável de tamanha façanha, remeto para  Deus de modo a fazer-me entender… simplesmente!

Roubaram-me o carro! Suponhamos que é o nascimento de cristo, ok? Existe um antes e um depois, certo? Antes de me roubarem o carro e depois de me roubarem o carro. O carro apareceu entretanto. Foi um indigente que vive por ali na zona onde resido que agarrou a oportunidade do carro destrancado com a chave lá dentro e que durante dois meses e pouco viveu literalmente dentro do carro, até que foi apanhado. Para além do cheiro a corpo compreensível e alguma sujidade o facto é que estava tudo na mesma. O cinzeiro limpo, os postos do rádio, os óculos, tudo. Ora, seria suposto eu desejar qualquer coisa de mal ao pobre homem, mas não consigo. Será isto a compaixão?

Passados dois dias uma senhora a quem ajudo na estrada porque com a chuva fez um peão mesmo ali à minha frente, e depois de a ajudar diz-me que sou um anjo… no meio da autoestrada. Passados dias e numa ocasião completamente diferente, o meu irmão cruza-se com o meu carro a ser conduzido por alguém numa das ruas em que circulo diariamente. Duas vezes! É impressionante! Eu já tinha feito o funeral ao carro e o meu irmão cruzou-se duas vezes com o meu carro e não o apanhou. O meu irmão não é bêbado, ia com um amigo e os dois tiveram mais que tempo de ver que era mesmo o meu carro.


Entretanto e como já me aconteceu várias vezes na vida - o fim de uma relação - um vazio que fica, um sentimento de nada ou neste caso do fim de uma relação que deixou de ser amorosa para dar lugar a outra coisa. Ou a perda de um objecto, ou de um animal de estimação, ou de um carro, ou ainda e tomando como exemplo e com todo o respeito, um ente querido. Afinal de contas coitados daqueles que nunca experimentaram a perca de um amor, ou de algo. A vida compreende a morte, certo? Não é a morte que gera vida, mas antes a vida que até das cinzas renasce se for preciso. É a vida que permite a existência da morte. Assim sendo e com o tempo, o vazio daí resultante vai-se “arrumando” e o espaço dai resultante começa a aparecer do nada. Espaço para isto, tempo para aquilo, sei lá, é uma loucura de espaço e tempo. Uma pessoa depois do luto, renasce das cinzas. Sempre me deixou curioso aqueles homens ciganos que se vestem de preto e deixam crescer a barba. Há maneiras e maneiras de gerir as percas e fazer o luto. É preciso.

Ando feliz. Assim, de repente… Quer dizer, na altura não foi de repente mas agora até parece. No período em que o carro foi roubado questionei muito a existência de Deus. Era o que mais faltava se eu não pudesse questionar Deus, como algumas pessoas chegaram a comentar. Cada um fala com Deus como muito bem entender, querem lá ver? Adiante, pois no momento em que percebo que fiquei sem carro pensei – “Já que perco o carro e vou ter de sentir este vazio, termino também a relação. Algo há-de acontecer.” O Bernardo Sasseti faleceu entretanto, logo uns dias a seguir ao roubo. Fiquei mesmo furioso com Deus. Chamei-lhe nomes e tudo. Ele é parvo ou quê? Leva lá a porcaria do carro, mas o Bernardo? E a seguir a mulher do Miguel com um cancro. “Que se lixe o carro!” – pensei, e fiz-lhe o funeral e pronto! Até nem tinha vendido o outro, foi só voltar a trocar os documentos. Durante quatro anos juntei moedas para fazer uma viagem com os miúdos, mas optámos pelo carro e continuar a juntar moedas e afinal nem viagem nem carro. Continuei com a minha vida normal, mas envolto de pensamentos estranhos até sobre a minha própria existência. Fiquei mesmo triste.

No meio de todos estes acontecimentos os meus filhos vieram passar as férias comigo. Fico sempre muito preocupado com o bem-estar deles. Adoro estar com eles e quando estou com eles parece que fico patareco ou lá o que é. São dois filhos bestiais, seres humanos de exceção. Creio que têm sido eles que me têm ajudado com as suas opiniões e comentários e até sobre este assunto observo neles uma aceitação pacífica de todo o desenrolar destes acontecimentos. Para eles aparentemente não há drama nem mistério. Para mim tem sido uma viagem, ufa!

Por vezes ocorre-me uma frase que me lembro da missa cristã – “Ele está no meio de nós!”. Já tenho 47 anos e é óptimo. Dá-me experiência e alguma sapiência. É preciso ter anos de vida e experiências diversas e profundas. É preciso experimentar por exemplo Meditação, Tai Chi Chuan, Drogas, Tango, Cientologia, Cristianismo, Sexo, Budismo, profissões diferentes, relações diferentes, comida diferente, viajar, e mais, e mais, e mais... Fazer teatro, ter filhos, plantar árvores, construir casas, ler e escrever muito, e acima de tudo é preciso saber amar e ter a capacidade e humildade de aceitar que há coisas inexplicáveis. Talvez seja essa a verdade da própria existência de tudo – a inexplicabilidade da própria existência de um principio de tudo.

Aqui sentado na sala, sozinho… a escutar os relógios de parede que sem corda param dando a estranha sensação de que o tempo também pára, já nem compreendo se estou a escrever para mim ou para alguém. Sei lá… Isto não é fácil… Parece o Matrix… credo! Mas que Ele está no meio de nós, isso eu não duvido. É só apanhá-lo e vais ver - os números do euro-milhões, já para cá!

Beijinhos.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

A Merkel aos pulinhos



Há tempos vi a Merkel na televisão, sem mala, ela é daquelas mulheres que deita por terra a teoria de que só na televisão é que as mulheres não usam mala. Não me recordo de a ver de mala como é normal as mulheres usarem. E vi-a aos pulinhos toda contente depois da Alemanha, no campeonato europeu de futebol, ter ganho. De repente aquela mulher de quem se fazem as mais justas caricaturas tal é a peculiaridade física e até de atitude, de repente mostra como se diverte sendo que os políticos não se sabem divertir, à exceção talvez do Alberto João que no Carnaval mostra como se gosta de divertir no meio das massas. Pois a Merkel à imagem da maioria dos alemães tem uma maneira de se divertir que nós os portugueses dificilmente entendemos, a não ser a classe política que consegue interpretar nos mais subtis gestos o que lhe vai na cabeça, independentemente da maneira como ela se regozija com a vitória da Alemanha.

Tenho página no Facebook e tem sido através dessa extraordinária nova maneira de estar no mundo que me tenho apercebido da falta de informação que nós portugueses temos da Alemanha e do que de facto se lá passa. Somos assim, pequeninos. E como aquilo é para lá de Espanha as pessoas vulgares não se preocupam. Por outro lado deve haver poucos jornalistas portugueses que falem alemão, resultando assim numa falha grave da informação que realmente deviam ter da Alemanha. Será? Desta vez a Alemanha e mais uma vez voltou a perder com a Itália. Aquilo já se tornou um pesadelo nacional para os alemães. Eles “já sabem” de antemão que vão perder com a Itália. Eles sentem isso. É um sofrimento. Mas eles não desistem, são persistentes, lutam até à última, tal como nós. Não sei se a Merkel estava a ver o jogo em que a Alemanha perdeu com a Itália, mas se não estava é natural. Se conhecermos bem os alemães seria previsível que ela não arriscasse chorar em público (pouco plausível).


A Merkel é originária da antiga Alemanha de leste, ou Alemanha Oriental. A Merkel tal como os alemães dali é racista, não se sabe divertir como nós, nem tão pouco sei se já terá ido alguma vez à praia dar uns mergulhos, agora que penso nisso… credo, enfim há gostos para tudo, deus me perdoe. Os Alemães perderam com a Itália e quem marcou os dois golos foi um africano. A história não deixa de ser curiosa já que o Hitler, nem de propósito que anda para aí uma paranoia sobre a Alemanha e o medo de uma propensão para os extremismos, também levou uma “trepa” de um afro-americano nos jogos Olímpicos. Ninguém gosta de perder e os alemães também não. E a Merkel não gosta de perder e tem o apoio de todos os alemães, só que ela é dali daquela parte da Alemanha onde não há africanos. Por outro lado é relevante pensar-se que a segunda cidade com mais turcos no mundo é Berlim. E a coisa é de tal maneira abissal que pelo facto de haver tantos turcos nascidos já na Alemanha a estatura média na Alemanha ao contrário de continuar a crescer até diminuiu. A sério! Por causa dos turcos os alemães estão mais baixos.

Se há razões para haver algum tipo de receio é óbvio. Putin não gosta do Ocidente, é natural e compreensível e eu estou convicto que não obstante os russos não falarem com os alemães, se for necessário eles aliam-se de um pé para a mão. Não podemos nunca não tentar entender os alemães. Será um erro crasso e de uma infantilidade extrema. Neste momento estamos perante duas europas, a dos que emprestam e a dos que pedem. Ainda não percebi como é que uns têm euros para emprestar e outros têm de pedir euros emprestados, afinal de contas não era suposto ser uma europa comunitária? Enfim, os norte americanos têm dado tiros nos pés uns atrás dos outros. E claro, tem sobrado para os europeus.

Pensar-se que foi bom os alemães terem perdido com a Itália é um erro crasso. Os alemães nunca perdem. Aos alemães passa-lhes rápido a derrota para dar lugar a um orgulho desmedido que lhes dá força para continuarem a trabalhar e a produzir automóveis mesmo que não os estejam a vender à velocidade que os fabricam. Vai ser giro vai! Vamos ver…

Beijinhos,

segunda-feira, 25 de junho de 2012

O dedo entalado e o homem robot



Há tempos o meu filho Manuel, que curiosamente me tem ajudado a compreender-me a mim próprio tais são as semelhanças de comportamento que me vejo nele, entalou o dedo na perna da cama. Não obstante ter visto a irmã com um dedo lá entalado em outra ocasião e ouvido da garganta dela um grito que espero nunca mais voltar a ouvir na vida. Eu estava na cozinha e de um lapso de tempo para outro eu estava no quarto dela com a cama no ar em peso enquanto ela olhava para o dedo que sangrava. Ser pai pode ser curioso na medida em que nos faz reagir de uma determinada maneira ou ter eventuais emoções que de outro modo não faço ideia de como se possam sentir. Só tendo filhos de facto… e amá-los a sério, claro. Adiante.

Desta vez foi o Manuel, coitado. Ele é forte, aliás eu já lhe pedi para ele se queixar com mais antecedência em vez de aguentar até ao limite, ou para lá dele, pois se ele sair a mim - aguenta-se muita coisa. Só que ele é meu filho e tem onze anos, é diferente. Pois o Manuel entalou o dedo à séria, o polegar. Ó pá! Aquilo ficou uma miséria, vai cair a unha e essas coisas. Mas ficou mesmo uma miséria, credo. Nessa noite e de caminho para o hospital ele adormeceu, o que me levou a pensar que se dorme é porque não será grave e talvez seja melhor dormir. Adormeceu logo. No dia a seguir organizei o dia da maneira mais civilizada possível. Ainda não conheço bem o “sistema” e fui à esquadra que já sabia onde ficava e perguntei onde poderia ir com o miúdo tratar do dedo. Indicaram-me como é lógico o centro de saúde da área da minha residência. Fiquei a saber que é perto de minha casa, ótimo.



No centro da saúde de Paço de Arcos disse ao Manuel para falar ele e ele mostrou o dedo ao senhor atrás do balcão e explicou que o tinha entalado e precisava que alguém o visse. O senhor perguntou-lhe onde é que ele morava e ele respondeu que mora em Telheiras com a mãe. Faz sentido na medida em que é isso de facto que acontece quando não está a viver comigo, o pai. O senhor informou o Manuel que não podia ser visto ali pois o Manuel não reside em Paço de Arcos. Que tem de ir ao Lumiar. Ficámos todos em silencio inclusive o senhor a quem eu fiz questão de dizer que o mais certo era já ter morrido e nem saber. E que talvez ele não soubesse mas devem-lhe ter tirado o cérebro e trocado por uma cassete igualzinha aquelas que outros portugueses também usam em vez do cérebro, e que não era normal um homem com aquela idade responder a uma criança de 11 anos que não lhe pode ver o dedo a sangrar por causa da morada, quando o Manuel, sendo meu filho tem todo o direito de ser atendido ali pois eu moro ali… espero que faça sentido o que escrevi pois não é fácil resumir tanta estupidez junta.

Saímos do centro de saúde e fomos à farmácia. O Manuel doía-lhe o dedo e aquilo de facto estava muito feio. Na farmácia o rapaz do balcão sugeriu-nos irmos ao enfermeiro x (não escrevo o nome para defender o dito enfermeiro não vá algum estúpido que trabalhe para o “sistema”, se pôr com coisas). O enfermeiro x é um milagre! O dito homem, já avô, tratou do Manuel como se do próprio neto se tratasse. Eu estava lá e vi. A primeira pergunta que fez ao Manuel foi onde é que ele se tinha entalado e se lhe doía e que ia já tratar do dedo e que não se preocupasse. Só me faltou chorar. Eu não chorei mas o Manuel chorou um bocadito, coitado. Uma parte da unha tinha-se partido e estava enterrada debaixo do resto da unha que irá cair para dar lugar a uma nova. O enfermeiro fez-lhe festas, deu-lhe palmadinhas nas costas, cumprimentou-me a mim e no fim disse que são quinze euros.

Eu paguei os quinze euros em dinheiro vivo, não pedi recibo e já lá voltei para trocar o penso como combinado e já está combinado outro penso dali a dias. O que é que o estado tem a ver com isto? Nada! E espero que não se meta no assunto senão vou mesmo às fuças a alguém. Comigo ainda podem “brincar” aos serviços de saúde, mas com o meu filho não… por favor. Isto que se está a passar só não vê quem não quer. O sistema gripou, faliu, desumanizou-se e agora estamos entregues a uns putos que estão no governo a fazer experiências baseados em números e estatísticas.

Enfim… isto vai dar merda – como se diz em português correto. Ou se não estiver correto não me levem a mal mas eu às vezes até já nem sei escrever, tal é a confusão que os tais putos - secretários de estado e afins, criaram inclusive com a língua portuguesa, como se tal fosse possível… e até foi. Impressionante! Credo!

Beijinhos,

domingo, 10 de junho de 2012

Fernando Pessoa



Há tempos estiver a ler Fernando Pessoa, que é o mesmo que dizer fui ao Brasil sem se dizer onde especificamente tal é a imensidão do que ele escreveu. Adiante… estava sentado no meu terraço, Sábado à tarde na companhia dos meus filhos, almoçámos coxas de frango no churrasco. Da próxima vez têm de ficar mais tempo nas brasas, ficaram ótimas mas podiam ter ficado melhor, provavelmente se fosse um daqueles programas sobre cozinha e culinária o chefe diria que estava uma porcaria e com razão. Se é possível a excelência, porque não atingi-la? No caso concreto e para poupar no carvão apaguei o lume antes de ter verificado se de facto as coxas estavam realmente assadas. Por fora parecia mas por dentro a carne junto ao osso ainda se encontrava um nadinha em sangue. Quase nada. Como se não importasse. A ver se passa (que não foi o caso), ou a ver se não dizem nada, ou então perguntar se está bom que, claro, dizem logo que sim… a não ser que esteja nitidamente impossível de deglutir, talvez mastigar para poder fazer aquela cara de quem ficou surpreendido e depois curioso e depois desagradado e depois pensativo e depois uma pequena troca de olhares e fora com aquela coisa da boca.


Ao almoço bebi finalmente uma cerveja alemã vinda mesmo da Alemanha pelas mãos de uma amigo. Até os meus filhos provaram. Tinha no final da língua um sabor a água-mel, uma espécie de geleia de mel formidável para se juntar ao gelado de natas no verão. Este ano não tenho água-mel mas fiz algo que está a curar, com gengibre, açúcar, anis e lucia-lima, planta que adquiri à pouco tempo e que juntamente com as que já tenho fazem do meu terraço um lugar de cheiros, de sensações que se confundem com memórias de outros lugares e de outras ocasiões. Curiosamente o cheiro não tem lugar nem tempo. Cheira sempre a qualquer coisa. Li algures que no Japão por exemplo não usam produtos de limpeza para a casa de banho com cheiro a limão. Seja ou não verdade, o facto é que fará algum sentido. Uma pessoa vai à casa de banho, entra, levanta o tampo da sanita e vem de lá um extraordinário odor a limão. O velho truque tão aprimorado pelos franceses. Disfarça-se o cheiro proveniente do interior com um cheiro mais forte e que nos transporte para outro espaço de tal modo que os anúncios fazem com que a sanita apareça no meio de prados verdejantes.

Ora a questão é que voltando da casa de banho para a sala de estar, ao convívio com os amigos, não deixará de ser estranho pedir-se uma coca-cola com gelo e limão. O cérebro naturalmente regista cheiros e associa-os a coisas. E quando pegamos no copo e vamos dar uma chupadela na palhinha para um agradável gole de cola entra-nos pelo nariz um cheiro que associamos a limões e outra coisa qualquer que por uma razão de pura lógica o mesmo cérebro cria bypasses para não pensarmos que estamos a beber sabe deus o quê. Enfim… Sempre me questionei se será verdade ou não esta questão dos cheiros da casa de banho. Pessoalmente não gosto muito do cheiro a alfazema. Como tenho alguma alergia na Primavera talvez o meu cérebro associe o cheiro da alfazema à alergia criando aí uma associação que ultrapassa o meu controlo lembrando-me que eu só controlo conscientemente 10 por cento dos meus gestos. O resto é inconsciente. Mais uma vez e a ser verdade é extraordinário que só controlemos 10 por cento da nossa vida.

E quando li com atenção Fernando Pessoa, apeteceu-me escrever… Talvez ele esteja a ler… algures… era giro.

Beijinhos.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Mentir mata



Há tempos, pareceu-me ver um homem já feito, de fato e gravata, com ar solene a ver confrontado por uma data de gente que o responsabilizavam por uma serie de questões ao que ele não retorquia mas deixava para outro a sua defesa. Ora, ele, não obstante a indumentária espelhava na cara, coitado, talvez saia a alguém da família que não lhe passou uns bons genes, mas como dia, espelhava ser mentiroso sem margem para duvidas. Aquilo na televisão até é constrangedor. Ver um homem que mentiu com os dentes todos ser humilhado publicamente daquela maneira não é de facto para todos.

Curiosamente  fico com a ideia de que não é grave. Ao que parece a política e os que dela dependem habituaram-se a mentir. Às vezes nem sonhamos que eles estão a mentir tal é a desfaçatez e à vontade com que o fazem. Chega-se a pensar que talvez faça parte da escolaridade obrigatória – o mentir. Talvez esteja nos genes. Talvez os políticos saibam que mentir faz parte do jogo. Sabe-se lá qual a necessidade de mentirem tanto e com tanta petulância. Às vezes mentem uns aos outros e nós todos a vermos na televisão e ao vivo. Será que eles percebem que nós estamos a ver? Credo que aquilo é demais. Se um filho meu me mentisse daquela maneira eu tinha de tomar uma atitude em conformidade de modo a que ele percebesse que há consequências sérias quando se mente.


Vivemos um paradigma curioso. Vejamos o caso do tabaco. Há tempos alguém me oferecia para eu experimentar um cigarro que tem algo no filtro que se pode esborrachar fazendo com que o fumo cheire a mentol. Justificava essa pessoa a adopção desses cigarros pelo facto de que quando acaba de fumar não fica com a boca a cheirar a tabaco. E pasme-se – mais barato que os cigarros normais. No entanto tanto um como o outro maço têm escarrapachado em letras garrafais na face principal da embalagem dos cigarros a seguinte frase “Fumar mata”. Não deixa de ser curioso. O meu filho por exemplo sabe que eu fumo e não morro. Insisto em não morrer por cauda dos cigarros, mas no entanto está lá escrito que se morre. As máquinas de venda de cigarros são verdadeiras obras de arte. As caixas de cigarros é só design altamente apelativo e no entanto matam. É muito estranho.

Há tempos também descarreguei um jogo para o telemóvel. Dizia grátis, no entanto e a partir do dia em que fiz o descarregamento do jogo, aceitei sem saber, que me sacassem 4 euros por semana a pretexto de uma qualquer acumulação de pontos para adquirir mais jogos. Só dei conta passado umas semanas pelo que o que dizia grátis já não é grátis. O meu conceito de grátis é diferente do conceito da minha filha por exemplo. Ela sabe que pelo facto de dizer grátis não significa que não tenha agregado à oferta grátis uma cláusula qualquer que enterra um tipo até aos ossinhos. Ou seja – é mentira. Há quem defenda que não. Que se eu tivesse lido o contrato... Aquilo está em letras minúsculas, num texto que não tem fim e passa no ecrã do telemóvel que convínhamos para a minha idade é cansativo esforçar a vista para conseguir ler tudo. Devia ter feito o esforço. Não fiz. Sofri as consequências.

Ver políticos a mentir é triste. O que não é triste e até muito curioso é pensar que são seres humanos, inteligentes, capazes, iguais a qualquer outro ser humano e no entanto mentem desalmadamente. Porquê? Dinheiro? Poder? Talvez ou sem duvida. Laborinho Lúcio, informou os responsáveis por inúmeras cadeias espalhadas pelo país que terão de se preparar para receber um novo tipo de clientes (detidos) de “colarinho branco”. Que são pessoas diferentes e como tal têm de ser tratadas de maneira diferente. Ora, nem vão presos e serem diferentes de facto são, mentem com um descaramento e finuras impressionantes de tal modo que chegam a fabricar uma realidade que não existe.

Havia de estar lá na Assembleia escrito em letras garrafais para todos lerem – “Mentir mata”. Assim como assim não muda nada e fica bem. Dá assim uma espécie de sensação de responsabilidade e consciência social.

Beijinhos,

domingo, 20 de maio de 2012

Tudo é relativo



Há tempos, dei conta que também tenho pirilampos no meu terraço. É bestial! A quantidade de animalecos que por ali há. Pirilampos, borboletas, zangões, abelhas, escaravelhos, vespas, vespões, moscas, melgas, joaninhas, há uns que parecem abelhas mas não são, e fazem muito barulho, e ficam estáticas no ar enquanto as asas fazem um barulho “ameaçador”. E há libelinhas, e salamandras, e sardaniscas, e caracóis, e búzios – a sério, aquilo para mim são búzios pequeninos mas búzios, e umas lagartinhas acastanhadas, quase preto, há quem lhes chame “maria café”, e aranhas com as suas teias nos cantos do teto e debaixo dos bancos e ali e acolá, e morcegos, e andorinhas, melros e inúmeras variedades de pássaros dos quais não sei o nome pois como não falamos a mesma linguagem não sei, e à noite há um mocho enorme que faz um barulho impressionante quando voa perto e sobre o meu terraço, as asas têm uma envergadura que deve andar no metro, faz um barulho parecido com aquele que fazemos quando começamos a aprender a assobiar, a sério que faz lembrar. É enorme, branco e tem a cara achatada com dois pequenos olhos negros rodeados cada um por duas espécies de funis brancos. É giro.

Também há umas aves de rapina que conseguem ficar a voar no mesmo local. Ficam ali no mesmo local, aparentemente pois fazem-no a grandes alturas, durante um ou dois minutos talvez, não sei. Já lá vi o que julgo ser um casal dessas pequenas aves de rapina. Normalmente os melros são os primeiros a dar o alerta. Distinguem-se perfeitamente os seus avisos e por breves instantes parece que tudo pára. Os coelhos costumam aparecer a meio da manhã. Da ultima vez que os vi haviam dois pequenitos. Como o são os ratos do campo. Até são giros. Pequeninos e sempre muito despertos e alertas. Foram eles os bandidos que me atacaram a abóbora que a minha mãe me ofereceu, abrindo um buraco e comendo as pevides todas deixando as cascas como prova. Só dei conta que eram ratos quando fui limpar por baixo da prateleira dos utensílios de jardinagem. Pássaros não fazem aquilo, e o meu hamster fazia isso, igualzinho. Foi-me difícil aceitar de animo leve que todos os dias há um bando de enormes papagaios verdes que ao fim do dia sobrevoam lá muito ao alto em direção ao interior. Durante o dia instalam-se para os lados dos Jardins do Marquês em Oeiras e ao fim do dia voam para a Fábrica da Pólvora. Já as gaivotas nunca se sabe se voam para um lado ou para o outro. Não me lembro de ter visto pombos mas rolas vi várias.


Ontem estava sozinho na sala a ver televisão e entra-me um gato pela sala dentro e vai até à cozinha. Esperei, esperei e fui lá, quando acendi a luz ele esgueira-se entre mim e a porta e sai a correr pela sala, sentando-se logo a seguir à porta, no terraço a lamber-se. Nunca o tinha visto e não sei se o voltarei a ver. Às vezes há por ali uns cães, com pedigree, de caça ou da rua, farejam tudo ao que parece à procura de algo, sempre freneticamente, é curioso. Não sei se apanham alguma coisa mas o facto é que quando isso acontece leva dias a repor a ordem. Sei isso por causa dos melros e dos seus gritos de alerta que se deixam de ouvir.

Gosto de observar as coisas mesmo ao pé de mim. As que temos como garantido. Por estarem sempre ali deixo de as observar e de ver quão belas e bonitas são. Também tenho flores no meu terraço, lindíssimas. Rosas de várias cores e outras. Estou à espera que a “dama da noite” dê flores. Disseram-me que é um cheiro inebriante. Também tenho “lúcia-lima” e poejo e alfazema. E todas elas com necessidades de abastecimentos de água diferentes, não é fácil. Às vezes engano-me e quase que morrem. Mas estão todas formidáveis. Não sei quanto tempo levo a observar todos estes seres extraordinários no meu terraço ou a partir dele mas uma coisa eu sei, quando estou ali a tratar das plantas faço por estar consciente do momento e do que observo, nessa altura o tempo parece parar. Parece que algo mágico acontece e o tempo deixa de existir. E pensando bem deixa mesmo, na medida em que fomos nós que inventámos o tempo para mal dos nossos pecados e a natureza está-se a borrifar para nós e para o nosso tempo, na mesmíssima medida em que nós borrifamos para ela. Isto não falha.

Ando cheio de alergia, outra vez, bolas.

Beijinhos.