Há tempos entrei no Estabelecimento Prisional de Tires. Costumo ir lá por causa de um projecto que desenvolvo em parceria com a Direcção Geral dos Serviços Prisionais. Tem-me dado a conhecer algo extraordinário. Leva tempo. Às vezes parece que não se vai conseguir. Existe de facto um lado negro que insiste em querer fazer crer que não se consegue levar um projecto a bom porto. Mas passados quatro anitos deste projecto em que me envolvi percebo que acima de tudo é mesmo uma questão de fé, ou acreditar, se preferirem. E atenção que quando digo fé não estou nem de perto a colar-me a qualquer conotação religiosa. Não! Fé é algo em que passei a acreditar. Mesmo assim às vezes ainda sinto uma pontita de inveja aqui e ali. Um quê de “este gajo não faz nada” ou “este gajo não quer é fazer nada”. Isto porque o projecto em que me meti é bem pensado. Não é despesista. É razoável. Não é para ficar milionário. É para ser feliz e fazer as pessoas felizes. Foi assim que nasceu o projecto em que estou envolvido. É giro.
quinta-feira, 21 de abril de 2011
O estado de felicidade
Há tempos entrei no Estabelecimento Prisional de Tires. Costumo ir lá por causa de um projecto que desenvolvo em parceria com a Direcção Geral dos Serviços Prisionais. Tem-me dado a conhecer algo extraordinário. Leva tempo. Às vezes parece que não se vai conseguir. Existe de facto um lado negro que insiste em querer fazer crer que não se consegue levar um projecto a bom porto. Mas passados quatro anitos deste projecto em que me envolvi percebo que acima de tudo é mesmo uma questão de fé, ou acreditar, se preferirem. E atenção que quando digo fé não estou nem de perto a colar-me a qualquer conotação religiosa. Não! Fé é algo em que passei a acreditar. Mesmo assim às vezes ainda sinto uma pontita de inveja aqui e ali. Um quê de “este gajo não faz nada” ou “este gajo não quer é fazer nada”. Isto porque o projecto em que me meti é bem pensado. Não é despesista. É razoável. Não é para ficar milionário. É para ser feliz e fazer as pessoas felizes. Foi assim que nasceu o projecto em que estou envolvido. É giro.
sexta-feira, 8 de abril de 2011
As dunas
Há tempos uma nave espacial desceu sobre a Costa da Caparica. Era uma nave invisível até para os radares mais avançados norte-americanos e portugueses. Ninguém deu por ela nem pelos seres que lá vinham dentro. Foi nos fins de Março. Num dia excepcionalmente quente para a época. A nave espacial era grande o suficiente para conter 6879 extra-terrestres. O termo de comparação tem de ser uma barata pois eles eram do tamanho de uma barata. Portanto não se pode dizer que a nave era enorme o suficiente para lá caberem 6879 pessoas mas sim grande o suficiente para lá caberem 6879 baratas que não sendo baratas eram uns seres não comparáveis a nada que se pareça na terra. Nem sequer respiravam e nem sequer se mexiam. Estavam ali quedos que nem uns pregos numa tábua. A única coisa que se deslocava de um lugar para o outro era a nave espacial que se pudesse ser vista era verde. Adiante.
Portugal tem perto de 800 quilómetros de costa dos quais 21, mais quilometro menos metro, chamam-se Costa da Caparica. Vá-se lá perceber porquê, porque há coisas que não se percebem mesmo e é assim, a nave espacial estaciona mesmo por cima de uma parte da praia que, vá-se lá perceber porquê, mas de certeza que tem que haver uma razão, deram-lhe o nome de 19 (dezanove). Ora não sei se vocês sabem, e se não sabem, estão como os seres alienígenas, é exactamente naquela praia, mas há outras, em que um dos comportamentos mais curiosos dos seres humanos do sexo masculino em particular se verifica. A nave espacial como que por magia, pois não há palavras que descrevam a velocidade com que ela ali apareceu, fica estática sobre a dita praia. Ninguém a conseguia ver mas ela estava lá. E os seres ordenaram às máquinas que filmassem tudo o que vissem e gravassem tudo o que pudessem, pois de retorno à casa deles teriam de prestar contas pelo desvio que fizeram por causa de um planeta com tanta água salgada.

Obedecendo às ordens dos seres e por eles terem receio da água do mar por causa do sal, a nave ficou a modos que a pairar sobre as dunas da tal praia 19 (dezanove). E filmou e gravou. O que para nós humanos são horas, para eles, os seres extra-terrestres, é imenso tempo, e portanto eles ficaram com uma imagem muito perfeita do que por cá se passa no planeta terra. Levaram de volta para os chefes deles, as imagens nítidas e sem comentários do que por cá se passa. Como a nave deles é evoluidíssima, fartaram-se de filmar de vários ângulos e perspectivas, com lentes potentíssimas que nós nem conseguimos imaginar. Uma loucura. Nem o Spielberg ou o Manuel de Oliveira algum dia lhes passará pela cabeça terem à sua disposição tal tipo de material de filmagem. Enfim… é preciso ser de uma galáxia muito distante e com um conhecimento muitíssimo evoluído.
Como o tempo é relativo, os seres extra-terrestres deixaram de o ser no instante em que chegaram ao planeta deles pois não faz sentido eles serem extra-terrestres na terra deles. Foi num piscar de olhos, para nós, claro, porque para eles foi uma eternidade, que retornaram às casas deles e tiveram que mostrar o que filmaram cá na terra. Os chefes deles não brincam e trabalho é trabalho. Acharam estranho o comportamento dos seres humanos. E claro, como não tiveram tempo de filmar mais nada, julgam o todo pela parte.
Aqui para nós que ninguém nos ouve, nem eles que já não voltam cá, ninguém tem nada a ver com o que se passa ali nas dunas, mas que é estranho é. Homens de barba rija ou não, gordos e menos gordos, com mais ou menos músculo, mais ou menos queimados do sol, a aparecer e desaparecer entre as dunas. Enfim… ninguém tem nada a ver com a vida dos outros, mas se forem à tal praia 19 (dezanove) não se admirem. Primeiro anda quase toda a gente nua, depois, vá-se lá entender, há homens que aparecem e desaparecem entre as dunas. É um comportamento curioso que de facto, só filmado. Ou então, como se pode observar da praia, alguns também lá andam a ver. Estive para lá ir ver o que é que eles andam a ver ou a fazer. Não tive coragem ou não me apeteceu.
Beijinhos e essas coisas,
segunda-feira, 4 de abril de 2011
A vida
Há tempos morreu a Virgínia. Era mãe, mulher, filha, amiga… sei lá… Era uma data de coisas inerentes ao facto de ser um ser humano e mulher. Morreu com uma doença daquelas tramadas – um cancro. Daqueles que não se conseguem tratar não obstante se tentar tudo. Morreu completamente dopada numa cama de hospital com a consciência que já não queria mais estar viva daquela maneira e por isso despediu-se no dia anterior a morrer. Pelos vistos ela sabia. Quis e morreu. A medicina tem esta situação ambígua de protelar a vida quando ela já não faz sentido.
No dia a seguir a minha filha ligou-me e pediu-me para a ir buscar à escola pois tinha chegado de uma aventura com os colegas de turma, em Sintra. Dormiram lá todos acampados e essas coisas. Pois nem de propósito, eu que até nem estava para ir ao velório por razões de incompatibilidade familiar dei por mim a virar para a Estrada da Luz e sem que me apercebesse, avisar os meus filhos que tínhamos de ir ter com o tio Zé pois a Virgínia tinha morrido. A Virgínia foi a segunda mulher do tio Zé. A primeira foi a tia Tó que está nos EUA. Nunca vi a Virgínia como tia nem nunca me ocorreu tratá-la por tia. Era a Virgínia. E morreu. Dela ficaram os filhos Francisco e Marta, meus primos, portanto. Quer dizer, o meu tio já tinha dois da tia Tó. Mais velhos do que eu. Depois separaram-se e ele conheceu a Virgínia e teve mais dois. O que por aí há mais é irmãos de pais diferentes. Dá cor à vida. É uma questão de hábito.
A Virgínia tinha o quê? A minha idade? Talvez. Eu não sou de ligar às idades das pessoas. Quando chegámos à igreja lá estava ela deitada no caixão coberta com um pano, umas velas à volta e umas flores no chão. Entrei, abracei o meu tio e pedi-lhe desculpa. É um assunto nosso que não explico. Mas senti-me bem. E não o larguei. Estive ali um minuto ou dois que parecem horas, a abraçá-lo. O que é que se diz a alguém que perde alguém? Fiz o mesmo com os filhos dela. E depois abracei a mãe da Virgínia. Ora foi exactamente esse o abraço que mais perplexo me deixou. Como é que se abraça a mãe de alguém que perdeu uma filha? As mães não deveriam perder as filhas. Não é natural. Que dor é essa de perder uma filha? O que é perder um filho? Eu tenho dois. Estavam lá. Levei-os comigo. O Manuel com nove anos e a Maria com doze. Alguém me perguntou porque é que eu os tinha levado para ali. Como nada respondi e simplesmente fiquei a olhar, a mesma pessoa respondeu por mim, que era para aprenderem. É curioso. Se não dissermos nada, às vezes a vida encarrega-se de responder por nós através dos outros.
Quando estávamos a vir embora, depois de nos despedirmos da família que estava espalhada na igreja e fora dela, depois de falarmos da morte e de doenças e dessas coisas que se costumam falar nestas ocasiões, depois de eu ter observado tudo o que a minha mente tinha de gravar naquele instante, dirijo-me para o carro com os meus filhos. O Manuel não faço ideia o que pensa sobre o assunto, mas a Maria, disse que estava orgulhosa de mim pois percebeu que eu pus de parte as divergências que tinha com o meu tio e fui mas foi abraçá-lo. Senti-me bem nesse instante. Senti-me bem comigo por ser quem sou, como sou, pelos filhos que tenho, pela família que tenho e pela vida que tenho.
Liguei o carro e arrancámos. Comentei com os meus filhos que a Virgínia não morreu, que o que morreu foi o corpo da Virgínia. Que por mais que eles olhem para mim só conseguem ver o meu corpo. A mim, talvez me sintam. E que a morte faz parte da vida, tentando desse modo convencer-me e preparar-me, a mim e a eles, para o inevitável - a vida.
Beijinhos e essas coisas,
sexta-feira, 1 de abril de 2011
Sinais dos tempos
Há tempos deixei de fumar. É relativa esta coisa do tempo, quando nos propomos deixar de fumar. O tempo transforma-se. Adquire vida própria e castiga-nos violentamente. Leva mais tempo a passar o raio do tempo. Não é fácil mas também não tem sido muito difícil. Das outras duas vezes que deixei de fumar foi terrível. Na altura trabalhava com um grupo de pessoas que até me pediam para voltar a fumar tal era o meu estado. Descarregava a minha frustração de estar à espera que me passasse a vontade que tinha de fumar em cima dos meus colegas. Não me calava. Eu, que de mim e às vezes tenho a noção de que falo muito, naquela altura parecia uma gralha, credo.
Curiosamente, da primeira vez deixei de fumar sem usar substitutos do tabaco comi muitos chupa-chupas com pauzinho que metia na boca para disfarçar a vontade de ter o cigarro entre os dedos e na boca. Foi o diabo! Mas passou, e estive dois anos sem fumar. Da segunda vez, pois a carne é fraca e voltei a fumar, já havia umas pastilhas elásticas com nicotina horríveis que me provocavam uma espécie de refluxo mas que me ajudaram a reduzir o espaço temporal que medeia o inicio e fim do processo de desabituação à nicotina e todos os hábitos que lhe são inerentes. Mesmo assim ainda foram um bom par de meses. Dessa vez estive um ano e meio sem fumar. Voltei a fumar basicamente porque, e volto a repetir, a carne é fraca.
Ora desta vez foi inesperado, ou não que eu já andava com essa ideia há algum tempo. No dia do meu aniversário e depois do almoço um amigo saca de um cigarro e dá umas passas. A seguir mete o cigarro no bolso e continua a falar. Assim! Como se nada fosse… Espera! Alto lá! Mostra lá isso, pedi-lhe. E ele apresentou-me algo extraordinário. Algo que mostra de facto a capacidade do ser humano em prosseguir a sua louca viagem sabe-se lá para onde usando o que quer que lhe venha à cabeça para lá chegar. Quero com este raciocínio brutal chegar ao pensamento mais simples que diz que - se não for por aqui é por ali, mas é sempre em frente. Sempre. A mente humana quando lhe apetece cria coisas extraordinárias. Para o bom, para o mau ou até para o nada.
Se nunca viste tal coisa, hás-de ver. É impossível que não o vejas um dia destes. Olha! Eu por exemplo, comprei um e agora fumo em todo o lado. É bestial. No intervalo do filme no cinema. No restaurante. Nas lojas. É impressionante. Passei a fumar em todo o lado. Tem uma bateria que se carrega numa tomada ou no computador, e espera, há mais! Quando se dá uma passa a pontinha ilumina-se e até parece que está quente, e pasme-se, sai fumo. Ou vapor. Eu sei lá. Para já não estou interessado em entender a mecânica da coisa que me parece elementar. “Ah! Mas isso não é deixar de fumar, pois afinal de contas continuas a meter nicotina lá para dentro” – dirão alguns. Quero lá saber. Deixei de usar o isqueiro. Deixei de ter as mãos e a boca e a roupa e a casa e o carro a cheirar a nicotina. Deixei de ter de comer umas pastilhas elásticas de mentol por causa do hálito.
Achas estranho eu estar a dar passas num cigarro de metal? Então e o que achas inalar fumo? Se pensarmos bem, não faz sentido absolutamente nenhum inalar fumo. Foi azar o meu, alguém ter inventado os cigarros. Mas foi sorte a minha, alguém ter inventado o cigarrito electrónico. Tem-me ajudado na batalha da desabituação. Adoro o ser humano e a sua ilimitada capacidade para andar para a frente… sempre. Fiz 46 e na melhor das hipóteses vivo mais o quê? 20? 30? Adorava ver os carros a voar. Isso é que era! Despachem-se por favor. Não quero perder pitada.
Beijinhos e essas coisas,
quarta-feira, 23 de março de 2011
A velocidade máxima
Há tempos uma amiga minha, muito minha amiga, é tão minha amiga que é a minha mãe, comprou um carro novo. Novinho em folha, lindo, cinzento que é uma cor que fica bem com qualquer cor de alcatrão mas horrível para que seja visto fácil e rapidamente pelos outros automobilistas. Enfim. As escolhas não são muito variadas no que diz respeito aos carros. Deve ser uma coisa cultural mas de facto os carros em Portugal ou são pretos ou cinzentos, na maioria das vezes. Há variações claro, mas normalmente são escuros. O dela não fugiu à regra. Cinzento escuro metalizado. Mais caro portanto.
Ela que estava habituada ao carro anterior, cheio de barulhos e vícios dos anos que tinha, no dia em que foi buscar o carro novo pediu-me para que eu a acompanhasse. É normal. Até eu fico nervoso ou excitado quando adquiro um carro novo. Ela fundamentava e muito bem o seu receio pelo facto de ainda não conhecer bem as subtilezas da nova máquina e por isso sentia-se mais confiante com a minha presença. Uma das minhas especializações profissionais é a de formador de condução defensiva. Lá fomos. Era um modelo mais evoluído que o modelo anterior que ela tinha, mais confortável, com uma direcção assistida mais leve, com vidros automáticos, com leitor de Cds, com ABS e mais uma série de siglas que é preciso um curso para conseguir entender aquilo tudo. Cheirava a tinta fresca, o carro.
Na noite a seguir, vinda de Setúbal e já quase a chegar a casa adormece na auto-estrada e enfaixa-se na traseira de uma carrinha do pão. Numa subida na A5... sorte, pura sorte. Não lhe aconteceu quase nada, tinha o cinto. A carrinha quase ficou intacta. O carro novo ficou todo partido, a parte da frente. Há coisas estranhas na vida das pessoas. O primeiro carro novo que ela comprou a pronto e com um desconto inexplicável, deixou de o ser no momento em que com tanto conforto, a minha mãe adormeceu. É assim. Acontece a qualquer um. Coitada, tive pena dela. Mas ela não se vai abaixo facilmente e lá recuperou, pagou o arranjo do carro e está como novo desde então.
Há tempos o director geral da associação das escolas de condução foi apanhado na auto-estrada a 210 à hora. Veio para a televisão explicar-se que era uma injustiça ser multado pois conduz um veículo extraordinário cheio de siglas que no fundo e na cabeça dele significam que “pode” conduzir àquela velocidade sem qualquer perigo. Li passados uns tempos e sobre o mesmo assunto que não pagou a multa pois conseguiu um documento do fabricante que assegurava que o veículo era “à prova de bala”, subentenda-se, extremamente seguro. Se a lei diz que a velocidade máxima nas auto-estradas é 120 à hora, existem razões muito fortes para que assim seja. E que eu saiba as leis são iguais para todos. Ah! mas isto... Ah! mas aquilo... Não interessa. As leis são iguais para todos.
Talvez me ocorra imputar a responsabilidade do excesso de velocidade do carro ao seu fabricante ou aos reponsáveis que deixam comercializar viaturas que andam a mais de 120 à hora. É que de facto os carros estão cada vez mais confortáveis e cheios de siglas. Mas quem os conduz são pessoas e as pessoas levam mais tempo a evoluir que os carros... Dava-me jeito ter um carro que acelerasse dos 0 aos 100 em três segundos e que fosse até aos 160 por causa de uma ou outra ultrapassagem. O que se passa com os carros é uma loucura e não faz sentido nenhum. Algo está errado. Não fabriquem carros que andam a 200 à hora. Não os vendam. Não os comprem. Parem. Parem tudo. Dá a sensação que está tudo parvo, credo!
Se fosse eu a governar todos os carros do Estado tinham de ser amarelo fluorescente e nenhum podia andar a mais do que 120 km à hora... espera... o que é que eu pensei?... espera...
Beijinhos e essas coisas,
quinta-feira, 17 de março de 2011
O coração tem cérebro
Há tempos vi na televisão um documentário no “National Geografic” sobre uma descoberta científica impressionante. Tudo começou por causa de um transplante do coração. Um homem que era uma “besta”, que não ligava nenhuma à mulher e passava a vida no bar, depois de receber o coração de alguém que tinha falecido (lá deu para se aproveitar o dito cujo), e sem que houvesse razão aparente, passados alguns meses, deixou de ir ao bar e começou a ficar em casa para fazer companhia à mulher. Começou a escrever poemas desalmadamente e, para contentamento da mulher, voltou a olhar para ela com desejos que há muito não existiam entre os dois. A mulher preocupada com o novo comportamento do marido foi alertar o médico. Foram ver quem tinha sido o dador e era um poeta, um artista que escrevia, pintava e tocava piano. Impressionante.
Pois é! Eu, algo me dizia, que devia dar mais atenção ao meu coração. Não foram poucas as vezes na minha vida em que “algo me dizia para”, ou “parece que estava a adivinhar”, ou “estava mesmo a ver”, ou “estava a pensar em ti agora mesmo. - Pois! Mas quem ligou fui eu!” (isto a propósito da quantidade de vezes em que eu telefono a alguém que me diz que estava a pensar em mim naquele instante). De facto, tenho a sensação que algo está errado na sociedade em que vivo. Cresci com a constante opinião e até certeza, muitas das vezes, de que o coração é simplesmente uma bomba. Que não devo chorar. Que não devo sofrer. Que devo conter as emoções e de que, no fundo, não devo “escutar” o meu coração. Fui treinado para anular o que o coração me diz. Na escola, na família e através de vários ensinamentos sociais ou religiosos. E já dei por mim, inconscientemente a passar essa mensagem aos meus filhos. É horrivel.
Ora, cientificamente, e ao que parece, o coração tem um cérebro. O tal programa que vi mostrava o estudo feito sobre o caso e outros. Chegaram à conclusão que são inúmeras as vezes em que, quando confrontados com determinadas situações, o primeiro “orgão a reagir” é o coração. E que é o coração que vai informar o cérebro. Os olhos vêm, informam o coração que descurtina a mensagem e a reenvia para o cérebro devidamente trabalhada. Infelizmente fomos formatados para não darmos crédito às mensagens (linguagem) do coração. São séculos e séculos de uma cultura tacanha e curta que fez dos humanos aquilo que somos. Umas máquinas de anulação e destruição e em última instância do planeta em que vivemos. Comemos demais. Tratamo-nos mal. Tratamos mal os outros e sem que saibamos porquê somos assim. Claro que há excepções, como em tudo.
Ainda não temos o distanciamento temporal suficiente para entender a revolução global planetária que está a acontecer. Mas sem que ninguém o prevesse (que agora é cada vez mais impossivel prever o que quer que seja) a internet veio colocar em causa o “status quo”. Nada é definitivo nem garantido. Nada é verdade nem mentira. Tudo é possivel. Pela primeira vez na história da humanidade estamos a tentar perceber o que de facto somos. Quebrou-se a noção de que somos cérebro e que é isso que nos distingue dos outros seres vivos. Não é o fim do mundo (como alguns teimosamente, agarrados pelo medo, perconizam) mas antes a sua transformação. Da génese do ser humano.
Que sorte a minha estar a viver esta experiência e que sorte estar vivo. Finalmente, a ciência, por “a mais b” mostrou-me que não estou louco. Que simplesmente tenho de saber “ouvir” o meu coração. Pois nunca ninguém me ensinou a sua linguagem.
Beijinhos e essas coisas,
terça-feira, 1 de março de 2011
Dr. Quixote
Há tempos dirigi-me a uma repartição pública. Entrei e esperei. Na sala estavam três pessoas. Comigo do lado de cá do balcão eramos quatro. Um homem fardado dedilhava num teclado, enquanto que as senhoras estavam as duas sentadas atrás das respectivas secretárias. Esperei. Enquanto esperava pensei porque é que nem olharam para mim quando entrei. Enquanto continuei à espera também pensei que ali estava espelhado o que é o funcionalismo público. Que é por causa destas e de outras que o país está como está. Enfim, sabem como é, quando se espera nas repartições públicas pensa-se muito no funcionalismo público e no estado da nação. Mas atenção, há sempre excepções à regra, sempre.
Finalmente, e como nenhuma das três pessoas me perguntava nada, perguntei eu - “É possivel falar com a pessoa responsável?”. O homem fardado foi como se de uma corrente de ar se tivesse tratado. Uma senhora respondeu – “Com quem deseja falar?”. E pronto. A partir daqui qualquer dialogo é uma questão de sorte. A partir do momento em que a resposta à minha pergunta é outra pergunta passa-me pelos olhos as imagens que vou vendo daqueles países árabes em que parece que as coisas funcionam de uma maneira estanhamente parecida com corrupção. Não sei explicar mas é sempre a sensação estranha que tenho.
“Pretendo falar com a pessoa responsável”, repeti. E a resposta teve o peso de décadas de ditadura, fascismo, ignorância, imbecilidade, corrupção, pobresa, e mais uma série de adjectivos próprios de uma sociedade tacanha e pequenina, imensamente pequenina. Mas atenção, não se pense que vivemos num sistema assim. Não. Agora vivemos em total liberdade, vivemos num sistema democrático aberto. Os meus filhos lá sabem o que é depender da boa disposição do funcionário público, ou da relação familiar, ou da cor política, para se conseguir obter qualquer coisa do estado? Eles nem imaginam o que era esse tempo, curiosamente parecido com o que se vai vendo ultimamente na televisão por causa dos protestos de rua contra esses sistemas do norte de África, que ao que parece, estão a tentar alterar, coitados. Adiante. Dizia eu que a resposta teve o peso de uma cultura com décadas e que quer queiramos quer não ainda persiste – “O doutor não está.”
Ultimamente tenho-me lembrado do D. Quixote, à falta de melhor, um castelhano. Tenho tentado lutar contra “moinhos de vento” que não se vêm mas existem. Estão lá. Esta senhora é um enorme “moinho de vento”. Com a sua resposta aplicou-me um golpe que só não foi mortal pois a capacidade dela é relativa, senão eu teria certamente desaparecido no momento em que interferi no decorrer pacato da sua vida profissional. Mas eu, armado em D. Quixote, perguntei-lhe em que é que o doutor era formado pois assim eu estaria mais bem preparado para falar com ele. Enquanto ela me observava, olhos nos olhos sem pestanejar, eu continuei explicando-lhe que o assunto que me levava ali seria abordado de maneira diferente caso o doutor fosse formado em contabilidade, literatura, psicologia, marketing, sei lá. “Pois. Mas o doutor não está. Terá de vir amanhã”.
Esta tradição arcaica portuguesa de nos referirmos às pessoas por doutores, engenheiros ou majores é incompreensivel para muitos europeus. Já os norte-africanos entendem perfeitamente. A mim o que me surpreende é que aquela senhora se anula voluntariamente e em público. É uma estranha relação de convivencia conivente entre os que são qualquer coisa e os que não são qualquer coisa sendo outra coisa qualquer. Para aquela senhora a responsabilidade de tudo é do doutor... para o bem e para o mal. E ela é assim uma espécie de Pilatos, sempre com as mão desinfectadas. No entretanto eu sou assim uma espécie de “o que é que este quer a esta hora?”.
“Dói-me o rabo, Sancho. E a ti?”
“A mim também mestre, ela era rija”.
“Voltamos cá amanhã?”
“O mestre é que sabe mas eu não vinha. Não vale a pena, ela é má.”
“Ok. Vou ligar os cavalos e vamos embora.”
“Ó mestre... eu hoje posso ir consigo? Ando cansado.”
“Está bem podes. Mas senta-te atrás, aperta o cinto e abre a janela. Tens mesmo de tratar desse cheiro dos pés pá. Isso já não se aguenta.”
Beijinhos e essas coisas,

