quinta-feira, 17 de março de 2011

O coração tem cérebro


Há tempos vi na televisão um documentário no “National Geografic” sobre uma descoberta científica impressionante. Tudo começou por causa de um transplante do coração. Um homem que era uma “besta”, que não ligava nenhuma à mulher e passava a vida no bar, depois de receber o coração de alguém que tinha falecido (lá deu para se aproveitar o dito cujo), e sem que houvesse razão aparente, passados alguns meses, deixou de ir ao bar e começou a ficar em casa para fazer companhia à mulher. Começou a escrever poemas desalmadamente e, para contentamento da mulher, voltou a olhar para ela com desejos que há muito não existiam entre os dois. A mulher preocupada com o novo comportamento do marido foi alertar o médico. Foram ver quem tinha sido o dador e era um poeta, um artista que escrevia, pintava e tocava piano. Impressionante.

Pois é! Eu, algo me dizia, que devia dar mais atenção ao meu coração. Não foram poucas as vezes na minha vida em que “algo me dizia para”, ou “parece que estava a adivinhar”, ou “estava mesmo a ver”, ou “estava a pensar em ti agora mesmo. - Pois! Mas quem ligou fui eu!” (isto a propósito da quantidade de vezes em que eu telefono a alguém que me diz que estava a pensar em mim naquele instante). De facto, tenho a sensação que algo está errado na sociedade em que vivo. Cresci com a constante opinião e até certeza, muitas das vezes, de que o coração é simplesmente uma bomba. Que não devo chorar. Que não devo sofrer. Que devo conter as emoções e de que, no fundo, não devo “escutar” o meu coração. Fui treinado para anular o que o coração me diz. Na escola, na família e através de vários ensinamentos sociais ou religiosos. E já dei por mim, inconscientemente a passar essa mensagem aos meus filhos. É horrivel.

Ora, cientificamente, e ao que parece, o coração tem um cérebro. O tal programa que vi mostrava o estudo feito sobre o caso e outros. Chegaram à conclusão que são inúmeras as vezes em que, quando confrontados com determinadas situações, o primeiro “orgão a reagir” é o coração. E que é o coração que vai informar o cérebro. Os olhos vêm, informam o coração que descurtina a mensagem e a reenvia para o cérebro devidamente trabalhada. Infelizmente fomos formatados para não darmos crédito às mensagens (linguagem) do coração. São séculos e séculos de uma cultura tacanha e curta que fez dos humanos aquilo que somos. Umas máquinas de anulação e destruição e em última instância do planeta em que vivemos. Comemos demais. Tratamo-nos mal. Tratamos mal os outros e sem que saibamos porquê somos assim. Claro que há excepções, como em tudo.

Ainda não temos o distanciamento temporal suficiente para entender a revolução global planetária que está a acontecer. Mas sem que ninguém o prevesse (que agora é cada vez mais impossivel prever o que quer que seja) a internet veio colocar em causa o “status quo”. Nada é definitivo nem garantido. Nada é verdade nem mentira. Tudo é possivel. Pela primeira vez na história da humanidade estamos a tentar perceber o que de facto somos. Quebrou-se a noção de que somos cérebro e que é isso que nos distingue dos outros seres vivos. Não é o fim do mundo (como alguns teimosamente, agarrados pelo medo, perconizam) mas antes a sua transformação. Da génese do ser humano.

Que sorte a minha estar a viver esta experiência e que sorte estar vivo. Finalmente, a ciência, por “a mais b” mostrou-me que não estou louco. Que simplesmente tenho de saber “ouvir” o meu coração. Pois nunca ninguém me ensinou a sua linguagem.

Beijinhos e essas coisas,

2 comentários:

  1. É curioso como nos nossos tempos convivem em perfeita harmonia tendências que apontam por um lado par: os homens não choram e por outro, quando alguém tem uma conduta mais rude se diz que não tem coração.
    Eu tenho pensado em muitas coisas que tu também pensas e ando a concluir e concordar que deixamos de dar ouvidos ao coração há muito tempo, mas que mais grave agora parece que também damos menos ouvidos ao cerebro.

    Afinal qual é o orgão que anda a (des)governar isto tudo?

    http://leitecomgaz.blogspot.com/2010/07/homens-que-choram-sao-mais-felizes.html

    ResponderEliminar