segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O ovinho


Há tempos a minha filha passa por mim na cozinha e sussurrou, talvez porque não quis que o irmão soubesse, “pai. Tenho as cuecas sujas, olha!”. Eu olhei, e nesse instante a minha vida ficou diferente… outra vez. Normalmente não damos por “elas” acontecerem, mas há coisas na vida que têm uma importância tal que são o que nos indica que a espécie humana vai continuar. Independentemente do que quer que seja, nós humanos viemos para ficar.

A Maria já é uma mulher. Eu deveria celebrar o acontecimento com uma brutal de uma festarola, cheia de amigos. Havia de ser! Afinal de contas nós celebramos a morte e a ressurreição de um homem (Jesus, para os menos atentos) que julgamos ter existido, pelo menos queremos acreditar que sim, para bem da nossa sanidade mental. Mas a Maria já é uma mulher. Bolas! Vi-a pequenina, do tamanho de um melão, igualzinha à mãe. Aquilo parecia uma fotocópia. É curiosa a natureza e a forma como ela evolui. Comigo está tudo a correr em conformidade com o pré-estabelecido. As leis do universo são simples e nós na ansia de as entendermos esquecemo-nos de quão simples elas são.


Em 1998 a Maria nasceu, e no tempo que decorre uma explosão na superfície do sol, fiquei mais perto de ser avô. No entretanto vai-se vivendo a vida na Terra o melhor possível. E, contrariamente ao que seria de esperar é tão fácil passar do melhor possível para o extraordinário. É tão fácil viver a vida de uma maneira harmoniosa de acordo com o que de facto deveria ser a verdade e só não é porque nós humanos somos assim. Aliás a verdade, nos dias que correm é à partida a mentira aceite pela maioria. Talvez seja uma visão fatalista mas não vamos por aí porque não é. A verdade pode ser o que eu quiser, ou o que nós quisermos. A verdade não está escarrapachada para que nós a possamos ver. Não! A verdade está dissimulada algures no conjunto de verdades e mentiras que nos rodeiam. A suspeição tem sido arma de arremesso. Vivemos tempos extraordinários em que tudo é verdade e tudo é mentira. Cabe-nos a nós como seres humanos e pessoas conscientes lermos os sinais do que estamos a presenciar. Não é fácil ao princípio mas depois de se experimentar e começar a praticar um estado mental livre das amarras e âncoras sociais a que estamos submetidos, começamos a ver coisas que pessoalmente me andam a espantar tal é a simplicidade da vida. Estou feliz por estar vivo e a vida me fazer sentido.

No entretanto, tenho outro filho, o Manuel. Tem dez anos e é um rapaz. Um ser que está a começar lentamente a adquirir a capacidade de produzir doses maciças de testosterona. Gosta de futebol, faz uns truques com o skate, já tem um telemóvel e inscreveu-se no facebook, não obstante saber que está a mentir. Não obstante eu ter-lhe dito que se o fizesse iria entrar num universo paralelo que é mentira, simplesmente porque para entrar teve de mentir. Expliquei-lhe que abrir a porta à intimidade partindo de uma pressuposto que é mentira pode ser arriscado. Pode acarretar consequências graves. Que é preciso estar atento e acordado. A Maria não me tem preocupado, já o Manuel parece que não se importa mesmo. O Manuel come devagar. Tão devagar que é sempre o ultimo, e não se importa. Ele é assim. E eu gosto dele assim. Desatento às coisas, mas muito atento a algumas. E são essas que lhe chamam a atenção que eu adoro entender. Ele está a crescer e é extraordinário vê-lo evoluir. Começou agora pelos pés. Credo, estão a ficar enormes.

Já estive mais longe de ser avô. A minha filha já é uma mulher. A humanidade está de parabéns. Conseguimos. Parabéns… Estou quase a chorar. Estou mesmo! Está feito!

Beijinhos,

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

O pastor paciente


Há tempos e por causa da pretensa crise portuguesa, europeia ou mundial pensei o seguinte e fico abismado com estes pensamentos. Eu nem sei de onde me vêm, mas provavelmente é o resultado do alheamento que por vezes me forço a ter, em relação à sociedade. Uma espécie de retiro, para que possa compreender a sociedade em que coabito de uma maneira mais descomprometida e distante. São pensamentos que até a mim me espantam de tanto sentido que me fazem e de tão simples que são. Neste caso pensei -  se todos os países, ou estados (prefiro) da CE ou UE ou já nem sei como é que lhe hei-de chamar mas Europa era giro, ficarem em crise, e quer queiramos aceitar ou não é um facto, deixa de ser crise para passar a ser normal. Do género “Olha lá! Estás em crise?”, ao que o outro responde “Estou. E sabes que mais? Aquele e aquele e aquele também.” Curioso não é?

Por outro lado os mercados, que não faço a mínima ideia do que isso significa, e as bolsas, que também não faço ideia do que signifique, e a banca, ou os bancos, ou as pessoas que estão à frente desses organismos ou organizações, ou sei lá o que isso seja, parecem uns tolinhos a olhar uns para os outros muito espantados sem saberem bem o que fazer, porque de facto creio que só algumas pessoas no mundo terão o conhecimento e poder suficientes para saber o que se passa. E não é difícil. Basta perguntar a um pastor na Serra da Estrela, por exemplo, ao ser questionado sobre o atual estado das coisas, ele fixa o horizonte recortado pelas montanhas, e sem suspirar sequer responde “Óh!”, e com este simples ó resume numa letra o que é a verdade. Que também é simples e curiosamente não vejo muitas pessoas a falarem disso. O mundo mudou radicalmente e tão rápido que não se consegue mais geri-lo da mesma maneira como tem sido gerido até hoje.


O Duarte Lima por exemplo, é óbvio que entre ser perseguido por um mandato internacional e depois acabar como namorada de três enormes e perigosos homens de ar violentíssimo numa prisão qualquer no Brasil, ele prefere ser preso cá. Compreendo-o tão bem. É uma teoria minha mas eu apostava que ele pensou, pensou, pensou e deve ter voltado a pensar, que uma pessoa na situação dele deve pensar imenso, e preferiu dar-se “à morte” cá para não se dar “à morte” no Brasil. Enfim, calculo que nunca saberemos a verdade ao certo. Já é normal na nossa justiça. Mas a justiça não é o que estamos a ver nos órgãos de informação. Não! A justiça tem pessoas altamente profissionais e competentes mas também tem os Marinho e os Duarte. É assim. Temos mesmo de ter paciência e acima de tudo continuar a pressionar e mais, temos de apoiar as pessoas de bem, para que elas percebam que não precisam de ter receio. Nós (as pessoas normais) estamos do lado da justiça. E os honestos que trabalham nela têm mesmo de sentir que não estão sós. Acho que é mais por aí, mas adiante.

A Alemanha parece que também já pediu ajuda financeira. A França para lá caminha se é que ainda não caminhou já, que isto está a acontecer a uma velocidade tal que, ou me sento à frente e sigo as noticias passo a passo, ou de cada vez que acordo o mundo está diferente, credo. Nunca mais ouvi falar do Carlos Cruz, ou do Dinis. Ao que parece andam por aí. O Mexia continua a gerir a EDP como quer, ou como ele gosta de dizer, de acordo com o que os acionistas gostam - que resposta extraordinária. Hoje está sol e entramos em Dezembro. Algo se passa com o tempo. É estranho. Tenho de me ir adaptando às circunstâncias tal como os meus filhos o fazem tão naturalmente.

O meu filho com dez anos perguntou-me há dias “Ó pai. Para que é que serve o Presidente?” e eu respondi o melhor que me ocorreu “Para nada”. Talvez esteja errado mas tentei ser o mais honesto possível dadas as circunstancias.

Beijinhos,

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O apalpanço


Há tempos, recebi na Estónia, Tallin (fica lá para cima, ao pé da Finlândia, da Noruega e da Suécia), e por ocasião de um suposto concurso europeu de design e em representação de Portugal, o segundo prémio e mais uma menção honrosa por causa do projeto ricoxete.com e das almofadas de caroços de cereja que são fabricadas em estabelecimentos prisionais. Para além do reconhecimento público no evento ainda me ofereceram um Ipod Nano. Bolas! Ainda não tinha um desses extraordinários objectos tão cobiçados a julgar pelo que vou vendo na televisão. Aquilo é impressionante. As pessoas fazem fila e até vão dormir para as portas dos estabelecimentos onde se comercializam essas máquinas tão apelativas. Confesso que depois do primeiro impacto, o programa das ditas máquinas é muito intuitivo e feito de acordo com uma lógica bastante simples, se compararmos com outras máquinas similares. Mas chega-se lá. Umas horas de volta do meu presente, mais um programa específico descarregado da internet, pois senão aquilo não funciona e eis que tenho na cabeceira da minha cama - música que, se a ouvisse de seguida, nem me levantava da cama durante duas semanas a fio.

Ora bem. Deixa cá ver. É que nem foi há muito tempo assim. O meu filho Manuel tem dez anos e eu com essa idade, se queria ouvir música, ligava o rádio que tinha um gira-discos incorporado, colocava o disco que queria ouvir (A Menina do Mar, por exemplo) e ficava ali a escutar com muita atenção. Mais tarde havia uns de nós que a custo dos pais terem mais possibilidades financeiras, já tinham umas aparelhagens sofisticadas que davam um som bestial e alto, às vezes muito alto. Nessa altura já o 25 de Abril se tinha dado e eu comecei a namorar. Já havia calças de ganga e Coca-cola. Também havia uns pirolitos – uma gasosa que depois de bebida dava direito a um berlinde colorido. E as festas em casa uns dos outros, ou nas garagens, ou por vezes nos locais mais estranhos mas que eram o que se arranjava. E claro a música sempre a acompanhar. Apareciam uns amigos que tinham muitos discos e eram esses que punham a música. Às vezes ele tinha de ir fazer xixi ou outra coisa qualquer e nós ficávamos a substitui-lo. Era um momento relativamente importante pois quem punha a música era imprescindível para que pudéssemos dançar com aquela que nos fazia sentir mais zonzo. Aquilo era horas de beijocas e apalpanços que o meu filho talvez passe pelo mesmo, mas duvido. Há de passar por outra coisa qualquer, mas assim não.


Depois começaram a aparecer rádios novas, discotecas, bares, programas na televisão exclusivamente subordinados ao tema da música. A música portuguesa ganha novo folgo e eu gravo cassetes piratas, compro discos de vinil e coleciono namoradas. Aliás, tive uma namorada dos Pink Floyd, outra dos Jáfumega, outra do Ian Gillan, outra dos Xutos, e outras. Agora que penso nisso, não deixa de ser curioso. Podia escrever a história da minha vida através da música que ouvi. Pois há tempos peguei nos meus discos de vinil todos e fui oferecê-los às pessoas que trabalham na rádio Marginal. Tinha aquela caixa enorme lá por casa e pensei "Ó! Farto-me de ouvir a rádio destes tipos e já não vou ouvir aqueles discos outra vez. Eles que fiquem com aquilo que o mais provável é adorarem." Eu cá adorei ver-me livre daquilo, credo! Eles nem imaginam. Foi o dois em um, eles ficaram todos contentes mas eu também.

Entretanto e hoje, enquanto estou aqui a escrever este textito tenho música neste computador, na rede global, na pen, no Ipod, no leitor de cd, na televisão, no telemóvel, no rádio do carro. Quando os meus filhos vêm no fim de semana ainda tenho mais música disponível pois eles têm a música que gostam gravada no telemóvel deles. Eu até fico maluco! Isto já é música a mais. A sério! E para cada máquina existe uma instrução parecida mas diferente. É uma trapalhada que se pode tentar ir acompanhando mas mal nos adaptamos a uma aparece logo outra. Isto é lindo. Faz lembrar as baratas quando se acende a luz – correm que nem umas loucas e vai cada uma para seu lado. É assim que às vezes me sinto.

Bolas!... Agora é que havia de haver as tais festas do apalpanço!

Beijinhos,

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Eu penso, logo tenho de ter cuidado


Há tempos, ocorreu-me escrever três letrinhas no motor de busca da Google. Fiquei pasmado. A EDP apoia várias fundações, instituições, clubes, eventos, cultura, desporto… até me deu para procurar um clube do berlinde da EDP. A sério! Sabias que só o clube EDP tem 20.000 sócios? Não fazia a mínima ideia. Depois, e eu tenho esta terrível mania que me desgasta e consome, pus-me a pensar. Eu devia deixar de pensar. Não é compatível com o momento actual. O melhor de facto é não pensarmos pela própria cabeça e deixarmo-nos levar pela onda. Garanto-vos que quando se começa a pensar sente-se uma espécie de confusão mental, pois tudo o que nos foi dito e afirmado não bate certo com o que se começa a entender quando se começa de facto a pensar. Aliás, depois de se pensar, se começamos a falar somos relativamente ostracizados na medida em que existe um receio profundo de que quando se dizem coisas que se pensam sem qualquer receio, até os amigos nos avisam para ter cuidado. É curioso…


Fico muito irritado sabes? Com a injustiça. E tenho esta mania de observar as injustiças de uma maneira muito abrangente. A electricidade por exemplo. Não deveria servir os interesses de uns mas de todos. É que se não houver electricidade morres mais depressa do que se não houver água, por exemplo. Sabias? E a electricidade deveria ser gerida de modo a optimizar o desempenho de um país, em vez de ser um meio para obter lucros ilícitos a coberto de engenharias financeiras e legais que permitem que pessoas como o Mexia e os accionistas que o apoiam, obtenham lucros disparatados. Se é um bom gestor deve receber um bom salário e pronto. Algo razoável. Se um jogador de futebol ganha muito, ninguém tem nada a ver com isso. Mas a pessoa que gere a electricidade não. Independentemente de ter ou não ter uma participação do estado. Isso não interessa. Isso é só para distrair. O importante é que se a electricidade falha na Maternidade Alfredo da Costa por exemplo, é perigoso logo no imediato e, como te referi há pouco, a água falhar é menos perigoso, compreendes? Isso é maldade e injustiça pois está a coberto de outras pessoas que estão colocadas em outros organismos que detêm poder para isso. E fomos nós que nos deixámos enganar, creio. Quero acreditar que fomos e estamos a ser muito bem enganados, o que é muito triste pois ao fim e ao cabo, quem nos está a enganar, são portugueses, europeus ou seres humanos como tu e eu. Mas são pessoas más. E eu não compreendo tanta maldade em alguém como o Mexia por exemplo. É impossível que ele não saiba e compreenda que o que está a fazer é horrível. Está a enganar sistematicamente as pessoas. É feio. Mas se há mais exemplos? Oh! Tantos. Mas sem electricidade não há Facebook, topas?

Talvez já me tenhas visto vociferar contra o Carlos Cruz, por exemplo. Ainda hoje fico na dúvida se ele foi ou não molestador de crianças. É triste não termos na nossa democracia ferramentas que nos garantam que a justiça funciona. Que nos proteja de uma engenharia financeira altamente sofisticada, com ligações tão obscuras que só com muito empenho, conhecimento e determinação se conseguem detectar. Estamos a viver tempos complexos. Não porque apareceram agora. Mas sim porque os próprios órgãos de informação manipulados por essas forças do mal (chamemos-lhes assim que dá mais ideia de filme de ficção científica) estão a ser confrontadas em todo o mundo por algo para o qual não estavam preparadas – a verdade. O mundo está a mudar… e ninguém imagina para onde. É lindo!

Beijinhos,

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

O super taxista


Há tempos, cheguei a Lisboa de avião. Alguns sabem mas outros não, que quando se chega a Lisboa de avião não se aterra a cinquenta quilómetros numa pista de aterragem situada num local tão inóspito que nos faz sentir parte de uma carneirada qualquer em que o livre arbítrio é uma alucinação.

Chegar a Lisboa de avião, não obstante ser o pior meio de transporte conhecido na história da humanidade, é algo que atenua o sofrimento de uma viagem que nos obriga a permanecer sentados durante horas a fio, ingerindo coisas que nem aos cães de dão. Chegar a Lisboa de avião, vindo de outro lugar qualquer do norte da europa por exemplo, significa preparar a aterragem mesmo por cima da cidade. Significa poder ver as casas, as ruas, os carros, as pessoas e eventualmente, e nem é preciso muita sorte, talvez se consiga ver a própria casa. Aterrar em Lisboa é o paraíso das aterragens das capitais europeias. Aterra-se no meio da cidade. Da capital. De uma metrópole que não sendo gigante não deixa de ser o coração de um país.

Se tivermos sorte, e também não é preciso muita, até aterramos com sol e calor e tudo. É bestial. Vai-se ouvindo falar na ideia de construir um aeroporto fora da capital, baseado em factos louváveis e pertinentes, mas por outro lado, o aeroporto de Lisboa é sem dúvida um espetacular cartão de boas vindas a quem quer que chegue de avião. É bem possível que passada meia hora depois de aterrar se consiga estar dentro do táxi a caminho de casa. E isso é impar nos dias que correm. Perder essa capacidade é perder algo que nos define. Nós os portugueses sem que nos apercebamos estamos na vanguarda do que se pretende que seja o futuro – uma interligação perfeita e harmoniosa dos meios de transporte de modo a ser o mais humano e o menos agressivo possível. Talvez, se em vez de querermos sempre crescer exponencialmente, fosse melhor gerir o que já temos e que se for bem gerido até resulta, enfim, há que ter fé.


O táxi - ora aí está outro meio de transporte extraordinário. Felizmente parece que voltaram ao preto e verde que é mesmo português, ao invés daquele bege insípido que só alguém muito doente podia ter proposto uma cor daquelas. Menos mal. Parece que a alma, ou coração, falaram mais alto e aí estão outra vez os táxis que todos conhecemos. Desta vez apanhei um taxista brasileiro e explicou-me o seguinte: para se ter a carteira de taxista é preciso largar perto de mil euros, ter frequentado um determinado curso e uma determinada formação. É necessário dar provas de uma série de competências pessoais e profissionais que fazem do profissional que conduz táxi um Senhor Doutor da estrada.

Não obstante, e sempre admirei esse grupo de profissionais por isso, conseguiram unir-se e obrigar a lei a abrir uma exceção, que de acordo com a exceção em si faz deles uns homens com poderes excepcionais. Os taxistas não precisam de usar cinto de segurança dentro da cidade. Sendo que eles devem ser imunes à morte em caso de colisão frontal por exemplo, mas só dentro da cidade, pois quando me transportou para Caxias, que já é fora do perímetro da cidade, seja lá o que isso signifique, vi-o colocar o cinto. Pensei no Super-homem de facto que perde a força por causa de umas pedrinhas verdes. Neste caso o taxista perde a capacidade de imunidade à morte a partir de um determinado limite. Uma linha imaginária que alguém definiu como sendo o perímetro da cidade. É curioso esta coisa da lei. Vá lá que nos distingue! Senão os taxistas eram obrigados como todas as pessoas normais a usar o cinto de segurança sempre que conduzem um veículo que pode matar no momento em que se liga o motor e destrava. Às vezes nem é preciso tanto, é só destravar.

Isto de facto, eu devo andar parvo.

Beijinhos,

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

1+1=2, ou talvez não


Há tempos, pensei em escrever uma carta à ministra da justiça. Algo me diz que pelo facto de ser mulher talvez esteja mais sensibilizada para a minha questão, não sei, vamos ver. O facto é que na minha vasta experiência profissional nas mais diversas áreas, tive uma da qual agradeço ao António as excelentes condições em que trabalhei com total liberdade e cheia de novas experiencias. Refiro-me à Condução Defensiva (conceito ainda muito descurado, e que como a educação sexual deveria ser assunto corrente, corriqueiro e obrigatório nas escolas de todo o país) que me deu uma certeza absoluta – as pessoas são todas potenciais criminosas quando sentadas ao volante de um veículo motorizado.

A juíza que foi apanhada em contra mão com vestígios de sangue na corrente alcoólica para os lados de Cascais e que nem uma multa levou irritou-me sobejamente. Incomoda. Sendo o caso mediático, pois soube-o através dos órgãos de comunicação social. Não há qualquer justificação para que a pessoa em questão não fosse devidamente punida como o são milhares de outras pelo país fora. E são estes exemplos que vão ocorrendo diariamente que me fazem pensar que um mais um não são necessariamente dois. O que andam a ensinar aos meus filhos na escola não serve para absolutamente nada que não seja formatá-los de modo a que fiquem embrutecidos e não reajam às injustiças que se vão verificando.


Dirijo-me portanto à sra ministra para a informar do seguinte – da próxima vez que um agente da autoridade, munido das ferramentas que o permitem atuar em conformidade, me mandar parar a viatura porque vou a falar ao telemóvel, ou porque não levo o cinto de segurança, irei acusá-lo de prepotência, de abuso da autoridade, e não pagarei qualquer coima, “usufruindo” das consequências devidas, que diga-se de passagem são sempre dúbias e de acordo com a cabeça que regista o auto. É impressionante que se comercializem viaturas que conseguem mover-se a 300 km/hora, com gps incorporado, com rádio, televisão, vidros fumados e cheia de tecnologias tais que as pessoas que as conduzem nem fazem a mínima ideia para que é que servem, quando o limite máximo é 120 km/hora. Quero ser tratado como outro português qualquer. Ou outro português da lista de portugueses que têm uma lei excepcional que lhes permite fazer coisas que não se podem fazer.

É portanto nesta altura que, no perfeito estado das minhas funções físicas e mentais, reitero a minha decisão. Acima de tudo por causa dos meus filhos, a quem tento transmitir valores humanos e coerentes. Não admitirei ser incomodado por uma justiça que de cega nada tem e que serve interesses tão dúbios e maléficos. A sra ministra não me conhece, mas eu conheço-a a si. A sra não faz a mínima ideia de quem eu sou mas eu sei muito bem quem a sra é. E dirijo-me a si diretamente pois como ser humano você pode ser excepcional, mas como ministra da justiça, ou se despacha ou não tarda muito é mais uma que está para aí a respirar oxigénio sem pagar. Estarei atento. Diga-me, como pessoa, mulher, mãe, que explicação daria aos meus filhos se eles lhe perguntassem o mesmo que a mim – “Porque é que a juíza não foi presa?” – referindo-se à juíza que ia completamente bêbada em contra mão e nada lhe aconteceu?

Olhe que estou quase para me embebedar e ir passear de carro para Cascais a ver se a mim também me vão tratar da mesma maneira que à sua colega. Aliás! Por que carga de água é que aceitou ser ministra da justiça se, espero eu, sabe que não funciona. É fé? Estou muito irritado. Desculpe lá mas tenho alguma razão, alguma devo ter. No entanto asseguro-lhe o seguinte, se sentir que algo de diferente, leia-se honesto, se está a passar decorrente da sua política, não hesitarei nunca em ficar do seu lado e apoia-la incondicionalmente. Mas olhe que prenderem e levarem para a cadeia, um cidadão e no dia a seguir libertarem-no porque se enganaram. Não sei. Mas é de uma falta de… de… de… Valha-me nossa senhora!

Beijinhos,

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Eu mexia, tu mexias, ele Mexia



Há tempos, coloquei uma vela na minha casa de banho. Talvez para a tornar mais romântica, sei lá. A minha mãe por exemplo, tem duas casas de banho. A dela é dela. A outra, que eu uso e as pessoas que frequentam a casa dela usam, tem música. Aquilo não é uma casa de banho. É um espaço de reflexão. Quando se liga a luz, havendo duas possibilidades à partida, ou a luz do teto ou a luz de um candeeiro de ferro, em forma de peixe, vivo, curiosamente de cabeça para baixo e o abajur, que deixando passar a luz filtra umas folhas secas embutidas no próprio abajur. Ora, a minha mãe que é uma mulher especial e não irei dizer absolutamente mais nada sobre ela, resolveu, sabe-se lá porquê, colocar um candeeiro que é de mesinha de cabeceira, na casa de banho. E mais, a casa de banho a que me refiro está cheia de postais, fotos, quadros, imagens disto e daquilo, ovos de mármore espalhados no chão, um pato de loiça pintado à mão dentro do bidé, objetos que nada tendo que ver com a casa de banho em si ficam perfeitamente integrados de tal maneira que suspeito que de cada vez que alguém lá vai a casa fazer-lhe uma visita ou outra coisa qualquer deve ficar surpreendida quando liga a luz para ir à casa de banho. Tanto o candeeiro como o rádio estão conectados à mesma ficha. Quando a porta se fecha, a luz do candeeiro filtrada pelas folhas do abajur mais a música clássica da Antena 2 propicia pensamentos profundos ou reflexões mais elaboradas.


Ora, estava eu sentado na sanita a refletir, e muito gosto eu de o fazer na casa de banho em casa da minha mãe. E acendo sempre a luz do candeeiro de mesa. Não sei se já lhe disse (à minha mãe) que me farto de pensar ali dentro, para além de largar o lastro, mandar um fax, arrear o calhau, cagar, defecar. É curioso, quanto mais se tenta descrever o ato, mais complicada se torna a descrição da situação, que diga-se de passagem é tão velha como a própria vida. Aliás, se houvesse uma gestão mais optimizada do que comemos muito se pouparia em reciclar o que nos sai do corpo e que para nada serve, enfim… E tudo isto é possível pelo simples facto de existir luz na casa de banho. Sendo casas de banho interiores necessitam de luz para que nos possamos orientar e situar. Até pintei recentemente o teto da minha casa de banho. Caro como o raio, uma lata de quatro litros de tinta da Robbialac, branco cintilante, custa cerca de 100 euros. Se o teto refletir melhor a luz, mais fraca pode ser a lâmpada. Faz sentido.

Enquanto reflectia, ouvi na rádio que o administrador da EDP ganhou um prémio de 3,5 milhões de euros no final do ano. Entrevistado, refere que esse prémio lhe foi atribuído pelos acionistas que estavam muito satisfeitos com os extraordinários resultados da EDP. Lucros na ordem dos muitos milhões de euros obtidos acima de tudo por investimentos feitos no estrangeiro. Cá, mudaram a imagem e para isso gastaram milhões e milhões de euros. Para mostrarem trabalho, talvez. Nem compreendo estas opções administrativas. De onde é que lhe vêm estas ideias? Talvez não seja ele mas decerto dará o aval. Resta saber porquê. 

Ultimamente de cada vez que vou cagar penso no Mexia. E logo de seguida, ou a ordem vai variando - talvez conforme me custe mais ou menos, cagar - também penso no Carlos Cruz, no Vale e Azevedo, no Valentim Loureiro, na Fátima Felgueiras, no Ferro Rodrigues, e há mais, até no Mário Soares ou no Cavaco Silva, coitados. Bem vistas as coisas arrear o calhau ou refletir voltou a ficar mais caro. O que me incomoda, indigna e dá voltas à barriga é saber que o Mexia e os acionistas de que ele fala, sorriem de cada vez que acendo a luz para… seja lá o que for.

Beijinhos e essas coisas,