domingo, 10 de junho de 2012

Fernando Pessoa



Há tempos estiver a ler Fernando Pessoa, que é o mesmo que dizer fui ao Brasil sem se dizer onde especificamente tal é a imensidão do que ele escreveu. Adiante… estava sentado no meu terraço, Sábado à tarde na companhia dos meus filhos, almoçámos coxas de frango no churrasco. Da próxima vez têm de ficar mais tempo nas brasas, ficaram ótimas mas podiam ter ficado melhor, provavelmente se fosse um daqueles programas sobre cozinha e culinária o chefe diria que estava uma porcaria e com razão. Se é possível a excelência, porque não atingi-la? No caso concreto e para poupar no carvão apaguei o lume antes de ter verificado se de facto as coxas estavam realmente assadas. Por fora parecia mas por dentro a carne junto ao osso ainda se encontrava um nadinha em sangue. Quase nada. Como se não importasse. A ver se passa (que não foi o caso), ou a ver se não dizem nada, ou então perguntar se está bom que, claro, dizem logo que sim… a não ser que esteja nitidamente impossível de deglutir, talvez mastigar para poder fazer aquela cara de quem ficou surpreendido e depois curioso e depois desagradado e depois pensativo e depois uma pequena troca de olhares e fora com aquela coisa da boca.


Ao almoço bebi finalmente uma cerveja alemã vinda mesmo da Alemanha pelas mãos de uma amigo. Até os meus filhos provaram. Tinha no final da língua um sabor a água-mel, uma espécie de geleia de mel formidável para se juntar ao gelado de natas no verão. Este ano não tenho água-mel mas fiz algo que está a curar, com gengibre, açúcar, anis e lucia-lima, planta que adquiri à pouco tempo e que juntamente com as que já tenho fazem do meu terraço um lugar de cheiros, de sensações que se confundem com memórias de outros lugares e de outras ocasiões. Curiosamente o cheiro não tem lugar nem tempo. Cheira sempre a qualquer coisa. Li algures que no Japão por exemplo não usam produtos de limpeza para a casa de banho com cheiro a limão. Seja ou não verdade, o facto é que fará algum sentido. Uma pessoa vai à casa de banho, entra, levanta o tampo da sanita e vem de lá um extraordinário odor a limão. O velho truque tão aprimorado pelos franceses. Disfarça-se o cheiro proveniente do interior com um cheiro mais forte e que nos transporte para outro espaço de tal modo que os anúncios fazem com que a sanita apareça no meio de prados verdejantes.

Ora a questão é que voltando da casa de banho para a sala de estar, ao convívio com os amigos, não deixará de ser estranho pedir-se uma coca-cola com gelo e limão. O cérebro naturalmente regista cheiros e associa-os a coisas. E quando pegamos no copo e vamos dar uma chupadela na palhinha para um agradável gole de cola entra-nos pelo nariz um cheiro que associamos a limões e outra coisa qualquer que por uma razão de pura lógica o mesmo cérebro cria bypasses para não pensarmos que estamos a beber sabe deus o quê. Enfim… Sempre me questionei se será verdade ou não esta questão dos cheiros da casa de banho. Pessoalmente não gosto muito do cheiro a alfazema. Como tenho alguma alergia na Primavera talvez o meu cérebro associe o cheiro da alfazema à alergia criando aí uma associação que ultrapassa o meu controlo lembrando-me que eu só controlo conscientemente 10 por cento dos meus gestos. O resto é inconsciente. Mais uma vez e a ser verdade é extraordinário que só controlemos 10 por cento da nossa vida.

E quando li com atenção Fernando Pessoa, apeteceu-me escrever… Talvez ele esteja a ler… algures… era giro.

Beijinhos.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Mentir mata



Há tempos, pareceu-me ver um homem já feito, de fato e gravata, com ar solene a ver confrontado por uma data de gente que o responsabilizavam por uma serie de questões ao que ele não retorquia mas deixava para outro a sua defesa. Ora, ele, não obstante a indumentária espelhava na cara, coitado, talvez saia a alguém da família que não lhe passou uns bons genes, mas como dia, espelhava ser mentiroso sem margem para duvidas. Aquilo na televisão até é constrangedor. Ver um homem que mentiu com os dentes todos ser humilhado publicamente daquela maneira não é de facto para todos.

Curiosamente  fico com a ideia de que não é grave. Ao que parece a política e os que dela dependem habituaram-se a mentir. Às vezes nem sonhamos que eles estão a mentir tal é a desfaçatez e à vontade com que o fazem. Chega-se a pensar que talvez faça parte da escolaridade obrigatória – o mentir. Talvez esteja nos genes. Talvez os políticos saibam que mentir faz parte do jogo. Sabe-se lá qual a necessidade de mentirem tanto e com tanta petulância. Às vezes mentem uns aos outros e nós todos a vermos na televisão e ao vivo. Será que eles percebem que nós estamos a ver? Credo que aquilo é demais. Se um filho meu me mentisse daquela maneira eu tinha de tomar uma atitude em conformidade de modo a que ele percebesse que há consequências sérias quando se mente.


Vivemos um paradigma curioso. Vejamos o caso do tabaco. Há tempos alguém me oferecia para eu experimentar um cigarro que tem algo no filtro que se pode esborrachar fazendo com que o fumo cheire a mentol. Justificava essa pessoa a adopção desses cigarros pelo facto de que quando acaba de fumar não fica com a boca a cheirar a tabaco. E pasme-se – mais barato que os cigarros normais. No entanto tanto um como o outro maço têm escarrapachado em letras garrafais na face principal da embalagem dos cigarros a seguinte frase “Fumar mata”. Não deixa de ser curioso. O meu filho por exemplo sabe que eu fumo e não morro. Insisto em não morrer por cauda dos cigarros, mas no entanto está lá escrito que se morre. As máquinas de venda de cigarros são verdadeiras obras de arte. As caixas de cigarros é só design altamente apelativo e no entanto matam. É muito estranho.

Há tempos também descarreguei um jogo para o telemóvel. Dizia grátis, no entanto e a partir do dia em que fiz o descarregamento do jogo, aceitei sem saber, que me sacassem 4 euros por semana a pretexto de uma qualquer acumulação de pontos para adquirir mais jogos. Só dei conta passado umas semanas pelo que o que dizia grátis já não é grátis. O meu conceito de grátis é diferente do conceito da minha filha por exemplo. Ela sabe que pelo facto de dizer grátis não significa que não tenha agregado à oferta grátis uma cláusula qualquer que enterra um tipo até aos ossinhos. Ou seja – é mentira. Há quem defenda que não. Que se eu tivesse lido o contrato... Aquilo está em letras minúsculas, num texto que não tem fim e passa no ecrã do telemóvel que convínhamos para a minha idade é cansativo esforçar a vista para conseguir ler tudo. Devia ter feito o esforço. Não fiz. Sofri as consequências.

Ver políticos a mentir é triste. O que não é triste e até muito curioso é pensar que são seres humanos, inteligentes, capazes, iguais a qualquer outro ser humano e no entanto mentem desalmadamente. Porquê? Dinheiro? Poder? Talvez ou sem duvida. Laborinho Lúcio, informou os responsáveis por inúmeras cadeias espalhadas pelo país que terão de se preparar para receber um novo tipo de clientes (detidos) de “colarinho branco”. Que são pessoas diferentes e como tal têm de ser tratadas de maneira diferente. Ora, nem vão presos e serem diferentes de facto são, mentem com um descaramento e finuras impressionantes de tal modo que chegam a fabricar uma realidade que não existe.

Havia de estar lá na Assembleia escrito em letras garrafais para todos lerem – “Mentir mata”. Assim como assim não muda nada e fica bem. Dá assim uma espécie de sensação de responsabilidade e consciência social.

Beijinhos,

domingo, 20 de maio de 2012

Tudo é relativo



Há tempos, dei conta que também tenho pirilampos no meu terraço. É bestial! A quantidade de animalecos que por ali há. Pirilampos, borboletas, zangões, abelhas, escaravelhos, vespas, vespões, moscas, melgas, joaninhas, há uns que parecem abelhas mas não são, e fazem muito barulho, e ficam estáticas no ar enquanto as asas fazem um barulho “ameaçador”. E há libelinhas, e salamandras, e sardaniscas, e caracóis, e búzios – a sério, aquilo para mim são búzios pequeninos mas búzios, e umas lagartinhas acastanhadas, quase preto, há quem lhes chame “maria café”, e aranhas com as suas teias nos cantos do teto e debaixo dos bancos e ali e acolá, e morcegos, e andorinhas, melros e inúmeras variedades de pássaros dos quais não sei o nome pois como não falamos a mesma linguagem não sei, e à noite há um mocho enorme que faz um barulho impressionante quando voa perto e sobre o meu terraço, as asas têm uma envergadura que deve andar no metro, faz um barulho parecido com aquele que fazemos quando começamos a aprender a assobiar, a sério que faz lembrar. É enorme, branco e tem a cara achatada com dois pequenos olhos negros rodeados cada um por duas espécies de funis brancos. É giro.

Também há umas aves de rapina que conseguem ficar a voar no mesmo local. Ficam ali no mesmo local, aparentemente pois fazem-no a grandes alturas, durante um ou dois minutos talvez, não sei. Já lá vi o que julgo ser um casal dessas pequenas aves de rapina. Normalmente os melros são os primeiros a dar o alerta. Distinguem-se perfeitamente os seus avisos e por breves instantes parece que tudo pára. Os coelhos costumam aparecer a meio da manhã. Da ultima vez que os vi haviam dois pequenitos. Como o são os ratos do campo. Até são giros. Pequeninos e sempre muito despertos e alertas. Foram eles os bandidos que me atacaram a abóbora que a minha mãe me ofereceu, abrindo um buraco e comendo as pevides todas deixando as cascas como prova. Só dei conta que eram ratos quando fui limpar por baixo da prateleira dos utensílios de jardinagem. Pássaros não fazem aquilo, e o meu hamster fazia isso, igualzinho. Foi-me difícil aceitar de animo leve que todos os dias há um bando de enormes papagaios verdes que ao fim do dia sobrevoam lá muito ao alto em direção ao interior. Durante o dia instalam-se para os lados dos Jardins do Marquês em Oeiras e ao fim do dia voam para a Fábrica da Pólvora. Já as gaivotas nunca se sabe se voam para um lado ou para o outro. Não me lembro de ter visto pombos mas rolas vi várias.


Ontem estava sozinho na sala a ver televisão e entra-me um gato pela sala dentro e vai até à cozinha. Esperei, esperei e fui lá, quando acendi a luz ele esgueira-se entre mim e a porta e sai a correr pela sala, sentando-se logo a seguir à porta, no terraço a lamber-se. Nunca o tinha visto e não sei se o voltarei a ver. Às vezes há por ali uns cães, com pedigree, de caça ou da rua, farejam tudo ao que parece à procura de algo, sempre freneticamente, é curioso. Não sei se apanham alguma coisa mas o facto é que quando isso acontece leva dias a repor a ordem. Sei isso por causa dos melros e dos seus gritos de alerta que se deixam de ouvir.

Gosto de observar as coisas mesmo ao pé de mim. As que temos como garantido. Por estarem sempre ali deixo de as observar e de ver quão belas e bonitas são. Também tenho flores no meu terraço, lindíssimas. Rosas de várias cores e outras. Estou à espera que a “dama da noite” dê flores. Disseram-me que é um cheiro inebriante. Também tenho “lúcia-lima” e poejo e alfazema. E todas elas com necessidades de abastecimentos de água diferentes, não é fácil. Às vezes engano-me e quase que morrem. Mas estão todas formidáveis. Não sei quanto tempo levo a observar todos estes seres extraordinários no meu terraço ou a partir dele mas uma coisa eu sei, quando estou ali a tratar das plantas faço por estar consciente do momento e do que observo, nessa altura o tempo parece parar. Parece que algo mágico acontece e o tempo deixa de existir. E pensando bem deixa mesmo, na medida em que fomos nós que inventámos o tempo para mal dos nossos pecados e a natureza está-se a borrifar para nós e para o nosso tempo, na mesmíssima medida em que nós borrifamos para ela. Isto não falha.

Ando cheio de alergia, outra vez, bolas.

Beijinhos.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Bernardo Sassetti



Há tempos, passei um momento estranho na minha vida. Algo extraordinário que me tem feito pensar imenso sobre a vida. Não que eu não faça quase todos os dias mas de facto e por vezes acontecem-nos coisas que nos deixam assim meio letárgicos. Adiante… Eu já reconheço em mim esses momentos e quando me acontecem já sei por experiência própria que o melhor é esperar. O tempo, essa coisa também extraordinária, ajuda imenso. E deixá-lo passar sem nada fazer pode ser uma viagem.

Durante quatro anos acumulei moedas. Nem sei bem porque comecei a juntá-las mas o facto é que consegui acumular 7500 euros. Falei com os meus filhos e concordámos que não seria pior se em vez de irmos fazer a viagem que era o objectivo optássemos por adquirir uma viatura mais económica. Assim foi. Escolhemo-la e comprámo-la. Passados doze dias roubaram-nos o carrito novo. Ora bolas! Ficaram algumas fotos e a felicidade que esse carrito nos deu durantes alguns dias. No dia em que mo roubaram à porta de casa fartei-me de chorar. Cheguei mesmo a perder a vontade de estar de pé. Vá lá que me ficou a ideia de que sou uma pessoa persistente e perseverante. Acho que foi bom os meus filhos terem sentido isso. Que é possível acumular-se moedas a tal ponto que com isso se pode comprara um carro em vez de ir ao banco e prostituir-me. Simples.

Depois e num processo interno comecei a tentar arranjar explicações minimamente razoáveis para o que me sucedeu. Cheguei a imaginar o meu carro "velho" que felizmente ainda não tinha vendido ganhar vida, e com ciúmes atirar o novo ao rio. É que durante esses doze dias estacionei o carro “velho” mesmo em frente da porta do meu prédio, sendo que todos os dias ao sair de casa trocávamos olhares. Eu com a consciência pesada de me estar a desenvencilhar dele e ele (o carro “velho”), ali, parado, sem pestanejar a olhar fixamente para mim. Tal como naqueles filmes dos “Transformers”, ou lá o que é, o meu carro “velho” deve ter-se irritado e pronto, afogou o carro “novo”. Sei lá. É possível, não? Por outro lado e num registo mais espiritual, culpei Deus, esse incógnito de me ter feito tal coisa. Se Ele está em todo lado, certamente estava no local e no momento em que me roubaram o carro “novo”. É um mero raciocínio lógico. Foi Deus, pronto. É obvio que não foi o carro “velho” pois eu sei que as máquinas não têm vida… eu sei… acho… lembro-me quando era miúdo, olhar várias vezes para o Pinóquio na expectativa de o ver mexer. Fingia que estava distraído e de repente tentava apanhá-lo a mexer-se. Enfim… coisas de miúdos, claro… ou nem tanto… sei lá…


Passados alguns dias dá-se a morte trágica do Bernardo Sassetti (se não sabes quem é, afianço-te que é triste, pois se vivêssemos num país um pouco mais culto saberias de certeza de quem falo). Eu que até gosto de falar no facebook, que até andava mesmo triste por causa do furto do meu carrito “novo” até tenho vergonha de falar no assunto. A sério. Se me fosse possível eu daria de bom grado mais carros se isso trouxesse de volta o Bernardo e o que ele representava para mim. Um dia apanhei-o na rua e ofereci-lhe uma das nossas almofadas de caroços de cereja. Ia com a minha filha e fiz questão de lhe dizer que eu e a minha filha dançámos muitos ao som da música dele. Ela bebé, ao meu colo, com a cabeça encosta ao meu ombro, os dois a dançarmos o "Sonho dos Outros"... lindo. Ele não imagina como foi importante a música dele na minha vida. Principalmente a companhia que me fez em períodos mais conturbados da minha existência. Enfim... foi mesmo!

Há-de haver uma razão muito forte para teres levado o meu carro, mas o Bernardo? A sério Deus. Escuta… tenho uma proposta para ti. Levas-me o outro carro, o "velho" mas que está óptimo, afianço-te, e devolves-me o Bernardo, pode ser? Sei lá pá, pelos vistos gostas de carros e se calhar até gostas do meu carro “velho”. Se por alguma razão te ocorrer voltares a cometer a proeza de ressuscitares alguém pensa no Bernardo. A sério pá. Olha que fiquei muito triste contigo. Tantos que para aí há que só dizem e fazem disparates…

Quero lá saber do carro que até tenho vergonha da tristeza que senti por o ter perdido comparado com o Bernardo que esse sim me faz muita falta… muita mesmo! És uma besta Deus! Cada vez compreendo mais o Saramago e concordo com ele. És estúpido e filho de alguém que não sendo puta há-de andar triste contigo pois e a julgar pela história da humanidade olha que deixas muito a desejar. E depois ainda me vêm com a história das “Pegadas na Areia”, vão-se lixar todos vocês que aceitam isto como uma vontade de Deus... eu não!

Adeus Bernardo, até um dia destes…

Beijinhos,

quarta-feira, 21 de março de 2012

Palavra de honra


Há tempos percebi e não foi assim de repente, foi um processo complexo de raciocínios lógicos dentro da minha cabeça. É sempre assim, começo a pensar e pronto, não paro. Uma maçada. É desgastante às vezes mas cá vai…

Palavra de honra! Há muito tempo que não oiço esse termo dito com alma, dito como quem diz qualquer coisa a sério, que pode ser de facto e sem sombra de dúvida, honrada pela própria palavra dita. Às vezes ainda se aplica um aperto de mão, mas alguém dizer “palavra de honra” tem sido raro, raríssimo, aliás. Ser confrontado por alguém que tem palavra de honra é quase assustador na medida em que implica algo visceral e que tem um peso enorme e acarreta as consequências previstas pela honra. Já a honra em si parece ser um conceito arcaico. Será? Por vezes parece, mas ainda há quem tenha honra nos seus actos, na sua palavra, na sua atitude. Por outro lado parecem malucos, fora do contexto. A sério… se pensarmos bem, quando é que sentimos ter pela frente alguém que honra a palavra? Quantas pessoas conhecemos que não tenhamos qualquer duvida acerca da sua idoneidade?


Terá sido o meu avô Xico que me mostrou pela primeira vez, que me lembre, o que é ter honra e viver nesse pressuposto. Mostrou-me que é possível ser uma pessoa de palavra. Mostrou-me que é possível dizer-se algo de cabeça erguida e não ter qualquer dúvida sobre o que se disse ou diz. Até pode ser uma coisa trivial, corriqueira, mas no entanto quando é dita com honra pela própria pessoa não existem dúvidas. Para quê um documento entre as partes? Porque uma delas ou ambas têm dúvidas acerca delas próprias ou da outra. Então redige-se um documento e pronto fica ali escrito o que não se acredita quando é dito. E isso é muito curioso. Isso por si só demonstra que não obstante poder haver confiança o melhor é deixar escrito. Quando se escreve fica ali, preso, no papel. Quando se diz é projectado para os confins do universo, seja lá o que isso signifique. Parece que no papel há mais honra que na palavra. Ou não?

Vi há dias na televisão, com estes olhos que a terra há-de comer, dois iluminados da justiça da nossa sociedade comentarem que os contractos valem o peso do papel em que são escritos. Fiquei triste. A sério que fiquei. Dito por mim ainda vá, agora por eles… Mas por outro lado tenho sempre a sensação de que entendi muito bem o que aquelas duas sumidades queriam dizer. Grosso modo - nem num contrato escrito se pode confiar. Se pensarmos bem é aterrador quando dito por pessoas que à partida representam a justiça em Portugal. Não direi quem eram mas são sobejamente conhecidos e ultimamente têm vindo muito à televisão. A estupidez não tem limites, credo!

A casa onde habito, por exemplo é propriedade de um cigano. A casa é óptima. Até parece que foi feita à minha medida. Os meus filhos adoram-na e eu tudo faço para que eles se sintam bem quando lá ficam. O cigano e eu temos um acordo - verbal. Por causa não sei bem do quê, ele prefere que eu lhe pague em numerário em vez de depositar no banco. Todos os fins do mês liga-me e aparece para receber a renda da casa. Não há papéis, não há nada. Eu confio nele e ele confia em mim. Eu pago e ele recebe, simples. Acho que a Segurança Social, seja lá o que isso signifique, lhe quer ir à conta. Eu compreendo-o tão bem. Deus me perdoe que não se pode julgar as pessoas pelo fato, mas eu que tenho alguma experiência de vida não acredito em ninguém que trabalhe no governo. E a culpa dessa situação deve-se a essas pessoas que supostamente deveriam defender a nação e os portugueses, mas que só se defendem a elas como se de uma empresa privada se tratasse.

Palavra de honra! Já cheira mal a democracia. Muito mal.

Beijinhos,

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

No meio está a virtude


Há tempos um amigo meu, e friso amigo pois tenho poucos como ele, não sei se ele sabe mas considero-o amigo mesmo. Daqueles que se têm uma ou duas vezes na vida. Pessoas em quem apostamos e aceitamos as coisas boas, as menos boas e as más. Sim porque para se ser amigo de alguém é preciso alimentar a amizade e a melhor maneira que encontrei até hoje de ser amigo de alguém é aceitar essa pessoa como ela é. Pois eu também não sou de modo algum virtuoso do que quer que seja. Sou humano e ainda por cima com esta mania de ter a mente aberta e achar que todas as pessoas têm valor mesmo quando aparentemente não têm. Já tive a minha cota de desilusões e estou em crer que irei ter mais. É a vida e ainda bem, faz de mim uma pessoa normal, creio.

Esse meu amigo depois de falarmos de projectos e do tempo e disto e daquilo disse-me que a mulher está grávida. Ele não disse – “Vou ser pai!”, o que é curioso. Disse – “A minha mulher está grávida.” Foi assim que eu soube da espectacular notícia que certamente irá mudar a vida do meu amigo e da mulher dele. E Deus queira, é bom sinal. Desejo sinceramente que corra tudo bem e que usufruam dos momentos bestiais que é ser pai e ou mãe. Há lá coisa melhor que ver pela primeira vez aquele ser vivo a quem passamos a chamar filhos. O cheiro, as feições, os dedos… Credo, que aquilo dá vontade de comer. Depois começam a crescer e é impressionante a capacidade de adaptação daquelas criaturas. É giro imaginar que eu também já fui assim. Também curioso e mais focado em problemas particulares. É giro vê-los crescer. Dá prazer. Ela já é uma mulherzinha e ele treina futebol a sério. Adiante…


Estamos em Fevereiro de 2012, mais nove meses dá Novembro. É capaz de ter acabado o Verão e a criança vai nascer com a necessidade de se vestir para não morrer de frio. E vão agasalhá-la e trata-la com todas as atenções que ela merece e por vezes cair em exageros. É natural, faz parte. E até é bom que exageros aconteçam. Faz parte de ser pai. Há que encontrar um meio-termo. Segundo conversas que vou tendo com pessoas conhecidas o mundo está a mudar de tal modo que não é possível prever o futuro nos próximos meses. Pessoalmente, estou em crer que termos deixado que as máquinas controlassem a economia mundial está a revelar-se um dilema curioso mas evidente. É impossível a economia crescer como se pretende que cresça – todos os dias e ao segundo. Nós os humanos temos limites e para mim são esses os limites que estamos a tentar ultrapassar mas é simplesmente impossível fazer melhor. A economia não pode crescer sempre. É um conceito estúpido. A sério! Ninguém come sem parar senão morre entupido com comida ou tem uma doença daquelas foleiras com nomes estranhos. Credo, que parvoíce! Um corredor profissional, por exemplo, dificilmente correrá 100 metros em menos de 9 segundos. A física não permite, simples. Então inventamos uns aparelhos de medir o tempo em fracções cada vez menores de modo a podermos, mesmo assim melhorar em centésimas de segundo os tais cem metros.

E no entanto o meu amigo vai ser pai. Contra todas as espectativas e raciocínios lógicos o meu amigo está ansioso por ser pai. Ainda bem. Também ouvi dizer que descendemos de um vírus ao contrário de uma célula como anteriormente se dizia. E nesse caso faz todo o sentido que mesmo que o futuro seja uma total incógnita o instinto de sobrevivência das espécies mantem-se inexoravelmente igual à sua origem. O que não faltam neste mundo são exemplos de criação de vida nos locais mais inverosímeis. “Ó Jorge, nem imaginas a sorte que tens pá. Finalmente vais entender a razão da tua existência. Agora meu amigo, é a loucura dentro da própria loucura o resto é mentira ou na melhor das hipóteses a verdade que tu quiseres ver, pois há-as aí aos pontapés. É ou não é?”

Beijinhos,

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Milhases ou afinal mudei de ideias


Há tempos, e a propósito de andar sempre a falar sobre o Mexia no facebook, essa figura incontornável da sociedade portuguesa, o Milhases, figura também incontornável… bem vistas as coisas são os dois importantes por razões diferentes, claro. Adiante, o Milhases sugere-me, talvez por ser véspera de Natal, que não seria pior se eu deixasse o Mexia em paz. No momento, e confesso que imbuído do tal espírito natalício até lhe agradeci. Naquele instante, naquela fração de segundo, fui apanhado desprevenido. Perdoar é de facto uma cruz. Talvez seja esse um dos grandes mistérios da humanidade, o que uns perdoam outros aproveitam-se desse perdão e no fim paga o justo pelo pecador. Ora, eu nesse instante resolvi aceitar a sugestão do Milhases que de lá da Rússia é bem capaz de ter uma melhor perspectiva do que por cá se passa. Se assim for até lhe agradeço. Compreendo bem o que é ver Portugal do “lado de fora”. Quando estamos afastados do problema temos, sobre ele, uma perspectiva mais superficial. Digo eu, não sei.


Hoje, dia 1 de Janeiro de 2012, acordo com a notícia de que um amigo meu de infância morreu. Daqueles que nos marcou profundamente mas só damos por isso quando inexplicavelmente e para minha grande satisfação, sem que imaginasse, quando nos reencontramos passados o quê? Trinta anos? Credo… Bom, foi uma noite giríssima. Daquelas que não se esquecem. Numa casa lá para o norte. Um reencontro de famílias. Só que agora já todos com filhos e essas coisas. Muito giro. Falei a noite toda com o Nelito, e curiosamente, falámos sobre a vida, a sociedade, a política, os governos. Enfim, eu como ex-colaborador de um jornal de referência e ele como funcionário dos serviços de fronteiras e alfândegas. As coisas que ele me disse sobre esta ou aquela pessoa, este ou aquele ministério eram aterradoramente tristes. Mais um ponto negativo a somar ao que eu considero a nossa incompetência em relação ao nosso próprio governo laxista que se vai aproveitando, a coberto de uma suposta tendência neoliberalista, para fazer o que quer e muito bem lhe apetece. É triste. A dada altura já estavam todos com ar de quem quer ir dormir e eu e o Nelito ainda esgrimavamos teorias sobre isto e aquilo. Foi a ultima vez que o vi.

Entretanto, comentei com um familiar que nem imaginava o que é que a irmã dele estaria a sentir por ter de informar os pais, já velhotes que o filho morreu. Já para não falar da mulher que à noite quando voltava de deitar a filha no quarto dá com o marido deitado no chão sem vida, resultado de um ataque cardíaco fulminante. O que é que se sente? O que é que nos passa pela cabeça? Estou perplexo. Confesso que já chorei. Não é justo… não é! Nem vou discutir Deus. Mas hoje voltei a sentir a mesma revolta que tenho sentido ultimamente, algo que me vem do coração, uma espécie de sensação de perigo inexplicável mas que está constantemente a ser relembrado. Já nem sei, por exemplo, quantas vezes é que o mundo deveria ter acabado neste últimos dez anos, a julgar pelos anúncios passados em todos os órgãos de comunicação. É impressionante como me sinto constantemente debaixo de uma tentativa de manipulação para ser infeliz e viver em terror.

Milhases, agradeço-te a tentativa de amenizar a minha revolta, mas não me leves a mal, o Mexia é desconcertante. Olha que veio para a televisão explicar que tem feito um excelente trabalho e que os acionistas estão satisfeitos e os trabalhadores da EDP também, e que o resto dos portugueses devia estar orgulhosa… Ora eu preferia estar satisfeito em vez de estar orgulhoso, compreendes? Dava-me jeito. Mas nem é isso. “Eles” lucram imenso e deviam baixar o preço da factura da luz mas não. Vão lucrar ainda mais com os chineses (coitados) e vão aumentar o preço da electricidade.

Até já Nelito…

Beijinhos,