quarta-feira, 16 de maio de 2012

Bernardo Sassetti



Há tempos, passei um momento estranho na minha vida. Algo extraordinário que me tem feito pensar imenso sobre a vida. Não que eu não faça quase todos os dias mas de facto e por vezes acontecem-nos coisas que nos deixam assim meio letárgicos. Adiante… Eu já reconheço em mim esses momentos e quando me acontecem já sei por experiência própria que o melhor é esperar. O tempo, essa coisa também extraordinária, ajuda imenso. E deixá-lo passar sem nada fazer pode ser uma viagem.

Durante quatro anos acumulei moedas. Nem sei bem porque comecei a juntá-las mas o facto é que consegui acumular 7500 euros. Falei com os meus filhos e concordámos que não seria pior se em vez de irmos fazer a viagem que era o objectivo optássemos por adquirir uma viatura mais económica. Assim foi. Escolhemo-la e comprámo-la. Passados doze dias roubaram-nos o carrito novo. Ora bolas! Ficaram algumas fotos e a felicidade que esse carrito nos deu durantes alguns dias. No dia em que mo roubaram à porta de casa fartei-me de chorar. Cheguei mesmo a perder a vontade de estar de pé. Vá lá que me ficou a ideia de que sou uma pessoa persistente e perseverante. Acho que foi bom os meus filhos terem sentido isso. Que é possível acumular-se moedas a tal ponto que com isso se pode comprara um carro em vez de ir ao banco e prostituir-me. Simples.

Depois e num processo interno comecei a tentar arranjar explicações minimamente razoáveis para o que me sucedeu. Cheguei a imaginar o meu carro "velho" que felizmente ainda não tinha vendido ganhar vida, e com ciúmes atirar o novo ao rio. É que durante esses doze dias estacionei o carro “velho” mesmo em frente da porta do meu prédio, sendo que todos os dias ao sair de casa trocávamos olhares. Eu com a consciência pesada de me estar a desenvencilhar dele e ele (o carro “velho”), ali, parado, sem pestanejar a olhar fixamente para mim. Tal como naqueles filmes dos “Transformers”, ou lá o que é, o meu carro “velho” deve ter-se irritado e pronto, afogou o carro “novo”. Sei lá. É possível, não? Por outro lado e num registo mais espiritual, culpei Deus, esse incógnito de me ter feito tal coisa. Se Ele está em todo lado, certamente estava no local e no momento em que me roubaram o carro “novo”. É um mero raciocínio lógico. Foi Deus, pronto. É obvio que não foi o carro “velho” pois eu sei que as máquinas não têm vida… eu sei… acho… lembro-me quando era miúdo, olhar várias vezes para o Pinóquio na expectativa de o ver mexer. Fingia que estava distraído e de repente tentava apanhá-lo a mexer-se. Enfim… coisas de miúdos, claro… ou nem tanto… sei lá…


Passados alguns dias dá-se a morte trágica do Bernardo Sassetti (se não sabes quem é, afianço-te que é triste, pois se vivêssemos num país um pouco mais culto saberias de certeza de quem falo). Eu que até gosto de falar no facebook, que até andava mesmo triste por causa do furto do meu carrito “novo” até tenho vergonha de falar no assunto. A sério. Se me fosse possível eu daria de bom grado mais carros se isso trouxesse de volta o Bernardo e o que ele representava para mim. Um dia apanhei-o na rua e ofereci-lhe uma das nossas almofadas de caroços de cereja. Ia com a minha filha e fiz questão de lhe dizer que eu e a minha filha dançámos muitos ao som da música dele. Ela bebé, ao meu colo, com a cabeça encosta ao meu ombro, os dois a dançarmos o "Sonho dos Outros"... lindo. Ele não imagina como foi importante a música dele na minha vida. Principalmente a companhia que me fez em períodos mais conturbados da minha existência. Enfim... foi mesmo!

Há-de haver uma razão muito forte para teres levado o meu carro, mas o Bernardo? A sério Deus. Escuta… tenho uma proposta para ti. Levas-me o outro carro, o "velho" mas que está óptimo, afianço-te, e devolves-me o Bernardo, pode ser? Sei lá pá, pelos vistos gostas de carros e se calhar até gostas do meu carro “velho”. Se por alguma razão te ocorrer voltares a cometer a proeza de ressuscitares alguém pensa no Bernardo. A sério pá. Olha que fiquei muito triste contigo. Tantos que para aí há que só dizem e fazem disparates…

Quero lá saber do carro que até tenho vergonha da tristeza que senti por o ter perdido comparado com o Bernardo que esse sim me faz muita falta… muita mesmo! És uma besta Deus! Cada vez compreendo mais o Saramago e concordo com ele. És estúpido e filho de alguém que não sendo puta há-de andar triste contigo pois e a julgar pela história da humanidade olha que deixas muito a desejar. E depois ainda me vêm com a história das “Pegadas na Areia”, vão-se lixar todos vocês que aceitam isto como uma vontade de Deus... eu não!

Adeus Bernardo, até um dia destes…

Beijinhos,

quarta-feira, 21 de março de 2012

Palavra de honra


Há tempos percebi e não foi assim de repente, foi um processo complexo de raciocínios lógicos dentro da minha cabeça. É sempre assim, começo a pensar e pronto, não paro. Uma maçada. É desgastante às vezes mas cá vai…

Palavra de honra! Há muito tempo que não oiço esse termo dito com alma, dito como quem diz qualquer coisa a sério, que pode ser de facto e sem sombra de dúvida, honrada pela própria palavra dita. Às vezes ainda se aplica um aperto de mão, mas alguém dizer “palavra de honra” tem sido raro, raríssimo, aliás. Ser confrontado por alguém que tem palavra de honra é quase assustador na medida em que implica algo visceral e que tem um peso enorme e acarreta as consequências previstas pela honra. Já a honra em si parece ser um conceito arcaico. Será? Por vezes parece, mas ainda há quem tenha honra nos seus actos, na sua palavra, na sua atitude. Por outro lado parecem malucos, fora do contexto. A sério… se pensarmos bem, quando é que sentimos ter pela frente alguém que honra a palavra? Quantas pessoas conhecemos que não tenhamos qualquer duvida acerca da sua idoneidade?


Terá sido o meu avô Xico que me mostrou pela primeira vez, que me lembre, o que é ter honra e viver nesse pressuposto. Mostrou-me que é possível ser uma pessoa de palavra. Mostrou-me que é possível dizer-se algo de cabeça erguida e não ter qualquer dúvida sobre o que se disse ou diz. Até pode ser uma coisa trivial, corriqueira, mas no entanto quando é dita com honra pela própria pessoa não existem dúvidas. Para quê um documento entre as partes? Porque uma delas ou ambas têm dúvidas acerca delas próprias ou da outra. Então redige-se um documento e pronto fica ali escrito o que não se acredita quando é dito. E isso é muito curioso. Isso por si só demonstra que não obstante poder haver confiança o melhor é deixar escrito. Quando se escreve fica ali, preso, no papel. Quando se diz é projectado para os confins do universo, seja lá o que isso signifique. Parece que no papel há mais honra que na palavra. Ou não?

Vi há dias na televisão, com estes olhos que a terra há-de comer, dois iluminados da justiça da nossa sociedade comentarem que os contractos valem o peso do papel em que são escritos. Fiquei triste. A sério que fiquei. Dito por mim ainda vá, agora por eles… Mas por outro lado tenho sempre a sensação de que entendi muito bem o que aquelas duas sumidades queriam dizer. Grosso modo - nem num contrato escrito se pode confiar. Se pensarmos bem é aterrador quando dito por pessoas que à partida representam a justiça em Portugal. Não direi quem eram mas são sobejamente conhecidos e ultimamente têm vindo muito à televisão. A estupidez não tem limites, credo!

A casa onde habito, por exemplo é propriedade de um cigano. A casa é óptima. Até parece que foi feita à minha medida. Os meus filhos adoram-na e eu tudo faço para que eles se sintam bem quando lá ficam. O cigano e eu temos um acordo - verbal. Por causa não sei bem do quê, ele prefere que eu lhe pague em numerário em vez de depositar no banco. Todos os fins do mês liga-me e aparece para receber a renda da casa. Não há papéis, não há nada. Eu confio nele e ele confia em mim. Eu pago e ele recebe, simples. Acho que a Segurança Social, seja lá o que isso signifique, lhe quer ir à conta. Eu compreendo-o tão bem. Deus me perdoe que não se pode julgar as pessoas pelo fato, mas eu que tenho alguma experiência de vida não acredito em ninguém que trabalhe no governo. E a culpa dessa situação deve-se a essas pessoas que supostamente deveriam defender a nação e os portugueses, mas que só se defendem a elas como se de uma empresa privada se tratasse.

Palavra de honra! Já cheira mal a democracia. Muito mal.

Beijinhos,

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

No meio está a virtude


Há tempos um amigo meu, e friso amigo pois tenho poucos como ele, não sei se ele sabe mas considero-o amigo mesmo. Daqueles que se têm uma ou duas vezes na vida. Pessoas em quem apostamos e aceitamos as coisas boas, as menos boas e as más. Sim porque para se ser amigo de alguém é preciso alimentar a amizade e a melhor maneira que encontrei até hoje de ser amigo de alguém é aceitar essa pessoa como ela é. Pois eu também não sou de modo algum virtuoso do que quer que seja. Sou humano e ainda por cima com esta mania de ter a mente aberta e achar que todas as pessoas têm valor mesmo quando aparentemente não têm. Já tive a minha cota de desilusões e estou em crer que irei ter mais. É a vida e ainda bem, faz de mim uma pessoa normal, creio.

Esse meu amigo depois de falarmos de projectos e do tempo e disto e daquilo disse-me que a mulher está grávida. Ele não disse – “Vou ser pai!”, o que é curioso. Disse – “A minha mulher está grávida.” Foi assim que eu soube da espectacular notícia que certamente irá mudar a vida do meu amigo e da mulher dele. E Deus queira, é bom sinal. Desejo sinceramente que corra tudo bem e que usufruam dos momentos bestiais que é ser pai e ou mãe. Há lá coisa melhor que ver pela primeira vez aquele ser vivo a quem passamos a chamar filhos. O cheiro, as feições, os dedos… Credo, que aquilo dá vontade de comer. Depois começam a crescer e é impressionante a capacidade de adaptação daquelas criaturas. É giro imaginar que eu também já fui assim. Também curioso e mais focado em problemas particulares. É giro vê-los crescer. Dá prazer. Ela já é uma mulherzinha e ele treina futebol a sério. Adiante…


Estamos em Fevereiro de 2012, mais nove meses dá Novembro. É capaz de ter acabado o Verão e a criança vai nascer com a necessidade de se vestir para não morrer de frio. E vão agasalhá-la e trata-la com todas as atenções que ela merece e por vezes cair em exageros. É natural, faz parte. E até é bom que exageros aconteçam. Faz parte de ser pai. Há que encontrar um meio-termo. Segundo conversas que vou tendo com pessoas conhecidas o mundo está a mudar de tal modo que não é possível prever o futuro nos próximos meses. Pessoalmente, estou em crer que termos deixado que as máquinas controlassem a economia mundial está a revelar-se um dilema curioso mas evidente. É impossível a economia crescer como se pretende que cresça – todos os dias e ao segundo. Nós os humanos temos limites e para mim são esses os limites que estamos a tentar ultrapassar mas é simplesmente impossível fazer melhor. A economia não pode crescer sempre. É um conceito estúpido. A sério! Ninguém come sem parar senão morre entupido com comida ou tem uma doença daquelas foleiras com nomes estranhos. Credo, que parvoíce! Um corredor profissional, por exemplo, dificilmente correrá 100 metros em menos de 9 segundos. A física não permite, simples. Então inventamos uns aparelhos de medir o tempo em fracções cada vez menores de modo a podermos, mesmo assim melhorar em centésimas de segundo os tais cem metros.

E no entanto o meu amigo vai ser pai. Contra todas as espectativas e raciocínios lógicos o meu amigo está ansioso por ser pai. Ainda bem. Também ouvi dizer que descendemos de um vírus ao contrário de uma célula como anteriormente se dizia. E nesse caso faz todo o sentido que mesmo que o futuro seja uma total incógnita o instinto de sobrevivência das espécies mantem-se inexoravelmente igual à sua origem. O que não faltam neste mundo são exemplos de criação de vida nos locais mais inverosímeis. “Ó Jorge, nem imaginas a sorte que tens pá. Finalmente vais entender a razão da tua existência. Agora meu amigo, é a loucura dentro da própria loucura o resto é mentira ou na melhor das hipóteses a verdade que tu quiseres ver, pois há-as aí aos pontapés. É ou não é?”

Beijinhos,

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Milhases ou afinal mudei de ideias


Há tempos, e a propósito de andar sempre a falar sobre o Mexia no facebook, essa figura incontornável da sociedade portuguesa, o Milhases, figura também incontornável… bem vistas as coisas são os dois importantes por razões diferentes, claro. Adiante, o Milhases sugere-me, talvez por ser véspera de Natal, que não seria pior se eu deixasse o Mexia em paz. No momento, e confesso que imbuído do tal espírito natalício até lhe agradeci. Naquele instante, naquela fração de segundo, fui apanhado desprevenido. Perdoar é de facto uma cruz. Talvez seja esse um dos grandes mistérios da humanidade, o que uns perdoam outros aproveitam-se desse perdão e no fim paga o justo pelo pecador. Ora, eu nesse instante resolvi aceitar a sugestão do Milhases que de lá da Rússia é bem capaz de ter uma melhor perspectiva do que por cá se passa. Se assim for até lhe agradeço. Compreendo bem o que é ver Portugal do “lado de fora”. Quando estamos afastados do problema temos, sobre ele, uma perspectiva mais superficial. Digo eu, não sei.


Hoje, dia 1 de Janeiro de 2012, acordo com a notícia de que um amigo meu de infância morreu. Daqueles que nos marcou profundamente mas só damos por isso quando inexplicavelmente e para minha grande satisfação, sem que imaginasse, quando nos reencontramos passados o quê? Trinta anos? Credo… Bom, foi uma noite giríssima. Daquelas que não se esquecem. Numa casa lá para o norte. Um reencontro de famílias. Só que agora já todos com filhos e essas coisas. Muito giro. Falei a noite toda com o Nelito, e curiosamente, falámos sobre a vida, a sociedade, a política, os governos. Enfim, eu como ex-colaborador de um jornal de referência e ele como funcionário dos serviços de fronteiras e alfândegas. As coisas que ele me disse sobre esta ou aquela pessoa, este ou aquele ministério eram aterradoramente tristes. Mais um ponto negativo a somar ao que eu considero a nossa incompetência em relação ao nosso próprio governo laxista que se vai aproveitando, a coberto de uma suposta tendência neoliberalista, para fazer o que quer e muito bem lhe apetece. É triste. A dada altura já estavam todos com ar de quem quer ir dormir e eu e o Nelito ainda esgrimavamos teorias sobre isto e aquilo. Foi a ultima vez que o vi.

Entretanto, comentei com um familiar que nem imaginava o que é que a irmã dele estaria a sentir por ter de informar os pais, já velhotes que o filho morreu. Já para não falar da mulher que à noite quando voltava de deitar a filha no quarto dá com o marido deitado no chão sem vida, resultado de um ataque cardíaco fulminante. O que é que se sente? O que é que nos passa pela cabeça? Estou perplexo. Confesso que já chorei. Não é justo… não é! Nem vou discutir Deus. Mas hoje voltei a sentir a mesma revolta que tenho sentido ultimamente, algo que me vem do coração, uma espécie de sensação de perigo inexplicável mas que está constantemente a ser relembrado. Já nem sei, por exemplo, quantas vezes é que o mundo deveria ter acabado neste últimos dez anos, a julgar pelos anúncios passados em todos os órgãos de comunicação. É impressionante como me sinto constantemente debaixo de uma tentativa de manipulação para ser infeliz e viver em terror.

Milhases, agradeço-te a tentativa de amenizar a minha revolta, mas não me leves a mal, o Mexia é desconcertante. Olha que veio para a televisão explicar que tem feito um excelente trabalho e que os acionistas estão satisfeitos e os trabalhadores da EDP também, e que o resto dos portugueses devia estar orgulhosa… Ora eu preferia estar satisfeito em vez de estar orgulhoso, compreendes? Dava-me jeito. Mas nem é isso. “Eles” lucram imenso e deviam baixar o preço da factura da luz mas não. Vão lucrar ainda mais com os chineses (coitados) e vão aumentar o preço da electricidade.

Até já Nelito…

Beijinhos,

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O ovinho


Há tempos a minha filha passa por mim na cozinha e sussurrou, talvez porque não quis que o irmão soubesse, “pai. Tenho as cuecas sujas, olha!”. Eu olhei, e nesse instante a minha vida ficou diferente… outra vez. Normalmente não damos por “elas” acontecerem, mas há coisas na vida que têm uma importância tal que são o que nos indica que a espécie humana vai continuar. Independentemente do que quer que seja, nós humanos viemos para ficar.

A Maria já é uma mulher. Eu deveria celebrar o acontecimento com uma brutal de uma festarola, cheia de amigos. Havia de ser! Afinal de contas nós celebramos a morte e a ressurreição de um homem (Jesus, para os menos atentos) que julgamos ter existido, pelo menos queremos acreditar que sim, para bem da nossa sanidade mental. Mas a Maria já é uma mulher. Bolas! Vi-a pequenina, do tamanho de um melão, igualzinha à mãe. Aquilo parecia uma fotocópia. É curiosa a natureza e a forma como ela evolui. Comigo está tudo a correr em conformidade com o pré-estabelecido. As leis do universo são simples e nós na ansia de as entendermos esquecemo-nos de quão simples elas são.


Em 1998 a Maria nasceu, e no tempo que decorre uma explosão na superfície do sol, fiquei mais perto de ser avô. No entretanto vai-se vivendo a vida na Terra o melhor possível. E, contrariamente ao que seria de esperar é tão fácil passar do melhor possível para o extraordinário. É tão fácil viver a vida de uma maneira harmoniosa de acordo com o que de facto deveria ser a verdade e só não é porque nós humanos somos assim. Aliás a verdade, nos dias que correm é à partida a mentira aceite pela maioria. Talvez seja uma visão fatalista mas não vamos por aí porque não é. A verdade pode ser o que eu quiser, ou o que nós quisermos. A verdade não está escarrapachada para que nós a possamos ver. Não! A verdade está dissimulada algures no conjunto de verdades e mentiras que nos rodeiam. A suspeição tem sido arma de arremesso. Vivemos tempos extraordinários em que tudo é verdade e tudo é mentira. Cabe-nos a nós como seres humanos e pessoas conscientes lermos os sinais do que estamos a presenciar. Não é fácil ao princípio mas depois de se experimentar e começar a praticar um estado mental livre das amarras e âncoras sociais a que estamos submetidos, começamos a ver coisas que pessoalmente me andam a espantar tal é a simplicidade da vida. Estou feliz por estar vivo e a vida me fazer sentido.

No entretanto, tenho outro filho, o Manuel. Tem dez anos e é um rapaz. Um ser que está a começar lentamente a adquirir a capacidade de produzir doses maciças de testosterona. Gosta de futebol, faz uns truques com o skate, já tem um telemóvel e inscreveu-se no facebook, não obstante saber que está a mentir. Não obstante eu ter-lhe dito que se o fizesse iria entrar num universo paralelo que é mentira, simplesmente porque para entrar teve de mentir. Expliquei-lhe que abrir a porta à intimidade partindo de uma pressuposto que é mentira pode ser arriscado. Pode acarretar consequências graves. Que é preciso estar atento e acordado. A Maria não me tem preocupado, já o Manuel parece que não se importa mesmo. O Manuel come devagar. Tão devagar que é sempre o ultimo, e não se importa. Ele é assim. E eu gosto dele assim. Desatento às coisas, mas muito atento a algumas. E são essas que lhe chamam a atenção que eu adoro entender. Ele está a crescer e é extraordinário vê-lo evoluir. Começou agora pelos pés. Credo, estão a ficar enormes.

Já estive mais longe de ser avô. A minha filha já é uma mulher. A humanidade está de parabéns. Conseguimos. Parabéns… Estou quase a chorar. Estou mesmo! Está feito!

Beijinhos,

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

O pastor paciente


Há tempos e por causa da pretensa crise portuguesa, europeia ou mundial pensei o seguinte e fico abismado com estes pensamentos. Eu nem sei de onde me vêm, mas provavelmente é o resultado do alheamento que por vezes me forço a ter, em relação à sociedade. Uma espécie de retiro, para que possa compreender a sociedade em que coabito de uma maneira mais descomprometida e distante. São pensamentos que até a mim me espantam de tanto sentido que me fazem e de tão simples que são. Neste caso pensei -  se todos os países, ou estados (prefiro) da CE ou UE ou já nem sei como é que lhe hei-de chamar mas Europa era giro, ficarem em crise, e quer queiramos aceitar ou não é um facto, deixa de ser crise para passar a ser normal. Do género “Olha lá! Estás em crise?”, ao que o outro responde “Estou. E sabes que mais? Aquele e aquele e aquele também.” Curioso não é?

Por outro lado os mercados, que não faço a mínima ideia do que isso significa, e as bolsas, que também não faço ideia do que signifique, e a banca, ou os bancos, ou as pessoas que estão à frente desses organismos ou organizações, ou sei lá o que isso seja, parecem uns tolinhos a olhar uns para os outros muito espantados sem saberem bem o que fazer, porque de facto creio que só algumas pessoas no mundo terão o conhecimento e poder suficientes para saber o que se passa. E não é difícil. Basta perguntar a um pastor na Serra da Estrela, por exemplo, ao ser questionado sobre o atual estado das coisas, ele fixa o horizonte recortado pelas montanhas, e sem suspirar sequer responde “Óh!”, e com este simples ó resume numa letra o que é a verdade. Que também é simples e curiosamente não vejo muitas pessoas a falarem disso. O mundo mudou radicalmente e tão rápido que não se consegue mais geri-lo da mesma maneira como tem sido gerido até hoje.


O Duarte Lima por exemplo, é óbvio que entre ser perseguido por um mandato internacional e depois acabar como namorada de três enormes e perigosos homens de ar violentíssimo numa prisão qualquer no Brasil, ele prefere ser preso cá. Compreendo-o tão bem. É uma teoria minha mas eu apostava que ele pensou, pensou, pensou e deve ter voltado a pensar, que uma pessoa na situação dele deve pensar imenso, e preferiu dar-se “à morte” cá para não se dar “à morte” no Brasil. Enfim, calculo que nunca saberemos a verdade ao certo. Já é normal na nossa justiça. Mas a justiça não é o que estamos a ver nos órgãos de informação. Não! A justiça tem pessoas altamente profissionais e competentes mas também tem os Marinho e os Duarte. É assim. Temos mesmo de ter paciência e acima de tudo continuar a pressionar e mais, temos de apoiar as pessoas de bem, para que elas percebam que não precisam de ter receio. Nós (as pessoas normais) estamos do lado da justiça. E os honestos que trabalham nela têm mesmo de sentir que não estão sós. Acho que é mais por aí, mas adiante.

A Alemanha parece que também já pediu ajuda financeira. A França para lá caminha se é que ainda não caminhou já, que isto está a acontecer a uma velocidade tal que, ou me sento à frente e sigo as noticias passo a passo, ou de cada vez que acordo o mundo está diferente, credo. Nunca mais ouvi falar do Carlos Cruz, ou do Dinis. Ao que parece andam por aí. O Mexia continua a gerir a EDP como quer, ou como ele gosta de dizer, de acordo com o que os acionistas gostam - que resposta extraordinária. Hoje está sol e entramos em Dezembro. Algo se passa com o tempo. É estranho. Tenho de me ir adaptando às circunstâncias tal como os meus filhos o fazem tão naturalmente.

O meu filho com dez anos perguntou-me há dias “Ó pai. Para que é que serve o Presidente?” e eu respondi o melhor que me ocorreu “Para nada”. Talvez esteja errado mas tentei ser o mais honesto possível dadas as circunstancias.

Beijinhos,

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O apalpanço


Há tempos, recebi na Estónia, Tallin (fica lá para cima, ao pé da Finlândia, da Noruega e da Suécia), e por ocasião de um suposto concurso europeu de design e em representação de Portugal, o segundo prémio e mais uma menção honrosa por causa do projeto ricoxete.com e das almofadas de caroços de cereja que são fabricadas em estabelecimentos prisionais. Para além do reconhecimento público no evento ainda me ofereceram um Ipod Nano. Bolas! Ainda não tinha um desses extraordinários objectos tão cobiçados a julgar pelo que vou vendo na televisão. Aquilo é impressionante. As pessoas fazem fila e até vão dormir para as portas dos estabelecimentos onde se comercializam essas máquinas tão apelativas. Confesso que depois do primeiro impacto, o programa das ditas máquinas é muito intuitivo e feito de acordo com uma lógica bastante simples, se compararmos com outras máquinas similares. Mas chega-se lá. Umas horas de volta do meu presente, mais um programa específico descarregado da internet, pois senão aquilo não funciona e eis que tenho na cabeceira da minha cama - música que, se a ouvisse de seguida, nem me levantava da cama durante duas semanas a fio.

Ora bem. Deixa cá ver. É que nem foi há muito tempo assim. O meu filho Manuel tem dez anos e eu com essa idade, se queria ouvir música, ligava o rádio que tinha um gira-discos incorporado, colocava o disco que queria ouvir (A Menina do Mar, por exemplo) e ficava ali a escutar com muita atenção. Mais tarde havia uns de nós que a custo dos pais terem mais possibilidades financeiras, já tinham umas aparelhagens sofisticadas que davam um som bestial e alto, às vezes muito alto. Nessa altura já o 25 de Abril se tinha dado e eu comecei a namorar. Já havia calças de ganga e Coca-cola. Também havia uns pirolitos – uma gasosa que depois de bebida dava direito a um berlinde colorido. E as festas em casa uns dos outros, ou nas garagens, ou por vezes nos locais mais estranhos mas que eram o que se arranjava. E claro a música sempre a acompanhar. Apareciam uns amigos que tinham muitos discos e eram esses que punham a música. Às vezes ele tinha de ir fazer xixi ou outra coisa qualquer e nós ficávamos a substitui-lo. Era um momento relativamente importante pois quem punha a música era imprescindível para que pudéssemos dançar com aquela que nos fazia sentir mais zonzo. Aquilo era horas de beijocas e apalpanços que o meu filho talvez passe pelo mesmo, mas duvido. Há de passar por outra coisa qualquer, mas assim não.


Depois começaram a aparecer rádios novas, discotecas, bares, programas na televisão exclusivamente subordinados ao tema da música. A música portuguesa ganha novo folgo e eu gravo cassetes piratas, compro discos de vinil e coleciono namoradas. Aliás, tive uma namorada dos Pink Floyd, outra dos Jáfumega, outra do Ian Gillan, outra dos Xutos, e outras. Agora que penso nisso, não deixa de ser curioso. Podia escrever a história da minha vida através da música que ouvi. Pois há tempos peguei nos meus discos de vinil todos e fui oferecê-los às pessoas que trabalham na rádio Marginal. Tinha aquela caixa enorme lá por casa e pensei "Ó! Farto-me de ouvir a rádio destes tipos e já não vou ouvir aqueles discos outra vez. Eles que fiquem com aquilo que o mais provável é adorarem." Eu cá adorei ver-me livre daquilo, credo! Eles nem imaginam. Foi o dois em um, eles ficaram todos contentes mas eu também.

Entretanto e hoje, enquanto estou aqui a escrever este textito tenho música neste computador, na rede global, na pen, no Ipod, no leitor de cd, na televisão, no telemóvel, no rádio do carro. Quando os meus filhos vêm no fim de semana ainda tenho mais música disponível pois eles têm a música que gostam gravada no telemóvel deles. Eu até fico maluco! Isto já é música a mais. A sério! E para cada máquina existe uma instrução parecida mas diferente. É uma trapalhada que se pode tentar ir acompanhando mas mal nos adaptamos a uma aparece logo outra. Isto é lindo. Faz lembrar as baratas quando se acende a luz – correm que nem umas loucas e vai cada uma para seu lado. É assim que às vezes me sinto.

Bolas!... Agora é que havia de haver as tais festas do apalpanço!

Beijinhos,