quarta-feira, 23 de março de 2011

A velocidade máxima


Há tempos uma amiga minha, muito minha amiga, é tão minha amiga que é a minha mãe, comprou um carro novo. Novinho em folha, lindo, cinzento que é uma cor que fica bem com qualquer cor de alcatrão mas horrível para que seja visto fácil e rapidamente pelos outros automobilistas. Enfim. As escolhas não são muito variadas no que diz respeito aos carros. Deve ser uma coisa cultural mas de facto os carros em Portugal ou são pretos ou cinzentos, na maioria das vezes. Há variações claro, mas normalmente são escuros. O dela não fugiu à regra. Cinzento escuro metalizado. Mais caro portanto.

Ela que estava habituada ao carro anterior, cheio de barulhos e vícios dos anos que tinha, no dia em que foi buscar o carro novo pediu-me para que eu a acompanhasse. É normal. Até eu fico nervoso ou excitado quando adquiro um carro novo. Ela fundamentava e muito bem o seu receio pelo facto de ainda não conhecer bem as subtilezas da nova máquina e por isso sentia-se mais confiante com a minha presença. Uma das minhas especializações profissionais é a de formador de condução defensiva. Lá fomos. Era um modelo mais evoluído que o modelo anterior que ela tinha, mais confortável, com uma direcção assistida mais leve, com vidros automáticos, com leitor de Cds, com ABS e mais uma série de siglas que é preciso um curso para conseguir entender aquilo tudo. Cheirava a tinta fresca, o carro.

Na noite a seguir, vinda de Setúbal e já quase a chegar a casa adormece na auto-estrada e enfaixa-se na traseira de uma carrinha do pão. Numa subida na A5... sorte, pura sorte. Não lhe aconteceu quase nada, tinha o cinto. A carrinha quase ficou intacta. O carro novo ficou todo partido, a parte da frente. Há coisas estranhas na vida das pessoas. O primeiro carro novo que ela comprou a pronto e com um desconto inexplicável, deixou de o ser no momento em que com tanto conforto, a minha mãe adormeceu. É assim. Acontece a qualquer um. Coitada, tive pena dela. Mas ela não se vai abaixo facilmente e lá recuperou, pagou o arranjo do carro e está como novo desde então.

Há tempos o director geral da associação das escolas de condução foi apanhado na auto-estrada a 210 à hora. Veio para a televisão explicar-se que era uma injustiça ser multado pois conduz um veículo extraordinário cheio de siglas que no fundo e na cabeça dele significam que “pode” conduzir àquela velocidade sem qualquer perigo. Li passados uns tempos e sobre o mesmo assunto que não pagou a multa pois conseguiu um documento do fabricante que assegurava que o veículo era “à prova de bala”, subentenda-se, extremamente seguro. Se a lei diz que a velocidade máxima nas auto-estradas é 120 à hora, existem razões muito fortes para que assim seja. E que eu saiba as leis são iguais para todos. Ah! mas isto... Ah! mas aquilo... Não interessa. As leis são iguais para todos.

Talvez me ocorra imputar a responsabilidade do excesso de velocidade do carro ao seu fabricante ou aos reponsáveis que deixam comercializar viaturas que andam a mais de 120 à hora. É que de facto os carros estão cada vez mais confortáveis e cheios de siglas. Mas quem os conduz são pessoas e as pessoas levam mais tempo a evoluir que os carros... Dava-me jeito ter um carro que acelerasse dos 0 aos 100 em três segundos e que fosse até aos 160 por causa de uma ou outra ultrapassagem. O que se passa com os carros é uma loucura e não faz sentido nenhum. Algo está errado. Não fabriquem carros que andam a 200 à hora. Não os vendam. Não os comprem. Parem. Parem tudo. Dá a sensação que está tudo parvo, credo!

Se fosse eu a governar todos os carros do Estado tinham de ser amarelo fluorescente e nenhum podia andar a mais do que 120 km à hora... espera... o que é que eu pensei?... espera...

Beijinhos e essas coisas,

quinta-feira, 17 de março de 2011

O coração tem cérebro


Há tempos vi na televisão um documentário no “National Geografic” sobre uma descoberta científica impressionante. Tudo começou por causa de um transplante do coração. Um homem que era uma “besta”, que não ligava nenhuma à mulher e passava a vida no bar, depois de receber o coração de alguém que tinha falecido (lá deu para se aproveitar o dito cujo), e sem que houvesse razão aparente, passados alguns meses, deixou de ir ao bar e começou a ficar em casa para fazer companhia à mulher. Começou a escrever poemas desalmadamente e, para contentamento da mulher, voltou a olhar para ela com desejos que há muito não existiam entre os dois. A mulher preocupada com o novo comportamento do marido foi alertar o médico. Foram ver quem tinha sido o dador e era um poeta, um artista que escrevia, pintava e tocava piano. Impressionante.

Pois é! Eu, algo me dizia, que devia dar mais atenção ao meu coração. Não foram poucas as vezes na minha vida em que “algo me dizia para”, ou “parece que estava a adivinhar”, ou “estava mesmo a ver”, ou “estava a pensar em ti agora mesmo. - Pois! Mas quem ligou fui eu!” (isto a propósito da quantidade de vezes em que eu telefono a alguém que me diz que estava a pensar em mim naquele instante). De facto, tenho a sensação que algo está errado na sociedade em que vivo. Cresci com a constante opinião e até certeza, muitas das vezes, de que o coração é simplesmente uma bomba. Que não devo chorar. Que não devo sofrer. Que devo conter as emoções e de que, no fundo, não devo “escutar” o meu coração. Fui treinado para anular o que o coração me diz. Na escola, na família e através de vários ensinamentos sociais ou religiosos. E já dei por mim, inconscientemente a passar essa mensagem aos meus filhos. É horrivel.

Ora, cientificamente, e ao que parece, o coração tem um cérebro. O tal programa que vi mostrava o estudo feito sobre o caso e outros. Chegaram à conclusão que são inúmeras as vezes em que, quando confrontados com determinadas situações, o primeiro “orgão a reagir” é o coração. E que é o coração que vai informar o cérebro. Os olhos vêm, informam o coração que descurtina a mensagem e a reenvia para o cérebro devidamente trabalhada. Infelizmente fomos formatados para não darmos crédito às mensagens (linguagem) do coração. São séculos e séculos de uma cultura tacanha e curta que fez dos humanos aquilo que somos. Umas máquinas de anulação e destruição e em última instância do planeta em que vivemos. Comemos demais. Tratamo-nos mal. Tratamos mal os outros e sem que saibamos porquê somos assim. Claro que há excepções, como em tudo.

Ainda não temos o distanciamento temporal suficiente para entender a revolução global planetária que está a acontecer. Mas sem que ninguém o prevesse (que agora é cada vez mais impossivel prever o que quer que seja) a internet veio colocar em causa o “status quo”. Nada é definitivo nem garantido. Nada é verdade nem mentira. Tudo é possivel. Pela primeira vez na história da humanidade estamos a tentar perceber o que de facto somos. Quebrou-se a noção de que somos cérebro e que é isso que nos distingue dos outros seres vivos. Não é o fim do mundo (como alguns teimosamente, agarrados pelo medo, perconizam) mas antes a sua transformação. Da génese do ser humano.

Que sorte a minha estar a viver esta experiência e que sorte estar vivo. Finalmente, a ciência, por “a mais b” mostrou-me que não estou louco. Que simplesmente tenho de saber “ouvir” o meu coração. Pois nunca ninguém me ensinou a sua linguagem.

Beijinhos e essas coisas,

terça-feira, 1 de março de 2011

Dr. Quixote


Há tempos dirigi-me a uma repartição pública. Entrei e esperei. Na sala estavam três pessoas. Comigo do lado de cá do balcão eramos quatro. Um homem fardado dedilhava num teclado, enquanto que as senhoras estavam as duas sentadas atrás das respectivas secretárias. Esperei. Enquanto esperava pensei porque é que nem olharam para mim quando entrei. Enquanto continuei à espera também pensei que ali estava espelhado o que é o funcionalismo público. Que é por causa destas e de outras que o país está como está. Enfim, sabem como é, quando se espera nas repartições públicas pensa-se muito no funcionalismo público e no estado da nação. Mas atenção, há sempre excepções à regra, sempre.

Finalmente, e como nenhuma das três pessoas me perguntava nada, perguntei eu - “É possivel falar com a pessoa responsável?”. O homem fardado foi como se de uma corrente de ar se tivesse tratado. Uma senhora respondeu – “Com quem deseja falar?”. E pronto. A partir daqui qualquer dialogo é uma questão de sorte. A partir do momento em que a resposta à minha pergunta é outra pergunta passa-me pelos olhos as imagens que vou vendo daqueles países árabes em que parece que as coisas funcionam de uma maneira estanhamente parecida com corrupção. Não sei explicar mas é sempre a sensação estranha que tenho.

“Pretendo falar com a pessoa responsável”, repeti. E a resposta teve o peso de décadas de ditadura, fascismo, ignorância, imbecilidade, corrupção, pobresa, e mais uma série de adjectivos próprios de uma sociedade tacanha e pequenina, imensamente pequenina. Mas atenção, não se pense que vivemos num sistema assim. Não. Agora vivemos em total liberdade, vivemos num sistema democrático aberto. Os meus filhos lá sabem o que é depender da boa disposição do funcionário público, ou da relação familiar, ou da cor política, para se conseguir obter qualquer coisa do estado? Eles nem imaginam o que era esse tempo, curiosamente parecido com o que se vai vendo ultimamente na televisão por causa dos protestos de rua contra esses sistemas do norte de África, que ao que parece, estão a tentar alterar, coitados. Adiante. Dizia eu que a resposta teve o peso de uma cultura com décadas e que quer queiramos quer não ainda persiste – “O doutor não está.”

Ultimamente tenho-me lembrado do D. Quixote, à falta de melhor, um castelhano. Tenho tentado lutar contra “moinhos de vento” que não se vêm mas existem. Estão lá. Esta senhora é um enorme “moinho de vento”. Com a sua resposta aplicou-me um golpe que só não foi mortal pois a capacidade dela é relativa, senão eu teria certamente desaparecido no momento em que interferi no decorrer pacato da sua vida profissional. Mas eu, armado em D. Quixote, perguntei-lhe em que é que o doutor era formado pois assim eu estaria mais bem preparado para falar com ele. Enquanto ela me observava, olhos nos olhos sem pestanejar, eu continuei explicando-lhe que o assunto que me levava ali seria abordado de maneira diferente caso o doutor fosse formado em contabilidade, literatura, psicologia, marketing, sei lá. “Pois. Mas o doutor não está. Terá de vir amanhã”.

Esta tradição arcaica portuguesa de nos referirmos às pessoas por doutores, engenheiros ou majores é incompreensivel para muitos europeus. Já os norte-africanos entendem perfeitamente. A mim o que me surpreende é que aquela senhora se anula voluntariamente e em público. É uma estranha relação de convivencia conivente entre os que são qualquer coisa e os que não são qualquer coisa sendo outra coisa qualquer. Para aquela senhora a responsabilidade de tudo é do doutor... para o bem e para o mal. E ela é assim uma espécie de Pilatos, sempre com as mão desinfectadas. No entretanto eu sou assim uma espécie de “o que é que este quer a esta hora?”.

“Dói-me o rabo, Sancho. E a ti?”
“A mim também mestre, ela era rija”.
“Voltamos cá amanhã?”
“O mestre é que sabe mas eu não vinha. Não vale a pena, ela é má.”
“Ok. Vou ligar os cavalos e vamos embora.”
“Ó mestre... eu hoje posso ir consigo? Ando cansado.”
“Está bem podes. Mas senta-te atrás, aperta o cinto e abre a janela. Tens mesmo de tratar desse cheiro dos pés pá. Isso já não se aguenta.”

Beijinhos e essas coisas,

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

A semente


Há tempos estive com um velho amigo. Alguém que conheço há uns anos e que reencontrei. É bom reencontrar pessoas que não vimos há algum tempo. Por vezes, e não foi este o caso, o tempo, essa coisa relativa, faz milagres na reestruturação de amizades. Talvez tenha a ver com o amor. Não com o amor ao próximo, ou também, mas acima de tudo com o amor por nós próprios. Com a capacidade que temos de nos perdoar deixando em aberto o que de mais importante ficou numa amizade que acabou. Por vezes o reencontro faz isso. Cura. Restabelece a relação que, por motivos por vezes até completamente alheiros às partes, volta a existir. E por vezes até com contornos bem mais saudáveis.

Tem sido um reencontro curioso. Tal como eu, o meu amigo já passou por várias experiências de vida que o fazem ser quem é. Sem que fossemos propriamente amigos do peito de sempre, acabámos por estar um fim de semana a conviver e a partilhar experiências que fomos acumulando nestes últimos anos. Quando nos conhecemos eramos estudantes e solteiros. Agora somos ambos divorciados e com filhos. Escrito isto, até me ri.

Continuando, almoçámos em minha casa. Eu, os meus filhos, o meu amigo e a filha dele. Depois fomos todos ao Oceanário. No caminho recolhemos o segundo filho dele fruto de um amor pontual. Foi girissimo. Dois homens, pais, com os respectivos filhos a visitarem os peixes. Sempre que lá vou sinto uma enorme inveja dos peixes e da sensação que tenho de eles voarem pois ali podemos ver os peixes de baixo. Normalmente vêmo-los de cima, mas vê-los de baixo dá a sensação que estão a voar. E o Oceanário tem aqueles recantos onde nos podemos sentar a mirar aquele mar de água e peixes de variadíssimas formas. Há peixes estranhissimos. A evolução da vida vai por onde bem entende mas mais coisa menos coisa sinto sempre uma relativa estranhesa ao pensar que eu e os peixes temos todos coração e no fundo somos parecidos.

As nossas filhas combinaram jantarmos todos em casa dele. Jantámos na cozinha. Ele, à imagem do que já tinha acontecido em minha casa, preferiu que jantassemos todos juntos em vez dos miudos na sala e nós na cozinha. Conversámos, rimo-nos e foi assim uma coisa tipo família ou amigos. Depois de jantar (com morangos e tudo) os miudos foram para a sala ver televisão e mexer na net e nós ficámos a acabar o vinho do copo. Falámos de imensas coisas. O meu amigo é um aficionado em sementes e do que se pode obter quando se lança uma semente à terra. Portanto falámos de sementes de tomate, pimento, mostarda, morangos, e de mais uma série de legumes e frutos. E de como a vida é simples e poderosa, que de uma sementezita insignificante se consegue produzir alimentos. Foi por isso que há dias quando perguntei aos meus filhos o que queriam ser no futuro e eles ainda não sabem bem, lhes sugeri agronomia ou algo que tivesse que ver com a terra. Eu não sabendo bem de onde me vêm estas ideias tenho cá na mente que o futuro está intimamente ligado à terra. É uma sensação que tenho. Que o futuro está na terra e na lentidão pausada mas permanente com que a terra dá uma volta sobre si mesma. Por mais que tentemos são sempre 24 horas. E as plantas sabem-no muito bem. Elas devem-se rir imenso de nós e das nossas pressas.

Carros amigos do ambiente? Telemóveis amigos do ambiente? Computadores amigos do ambiente? Por amor de Deus, a hipócrisia do marketing vai até onde nunca ninguém imaginou ser possivel. Por outro lado basta uma semente. Um vaso com terra e uma semente para podermos observar com calma a vida a nascer, desenvolver-se, transformar-se, crescer e depois com amor ou mesmo às vezes até sem ele, saborear os frutos resultantes e sobrevivermos, simples. Experimentem lá comer um “Ipod” ou uma “Pen”... parvos!

Beijinhos e essas coisas,

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

O bolo de chocolate


Há tempos estive, vai não vai, para escrever algo sobre a morte “anunciada” do Carlos Castro, esse ícone de uma certa cultura portuguesa. E até escrevi. Claro que satirizei um pouco pois na minha perspectiva quem anda à chuva molha-se e o Carlos fartou-se de andar à chuva. Antes de publicar o texto mostrei-o à pessoa que mais me tem ajudado a compreender o mundo na medida em que me ouve e diz-me coisas que só a ela o admito – a minha mãe. “Com tantos assuntos que tens para escrever, vais escrever sobre isso?”. E pronto, foi o suficiente para não ter escrito nada durante algumas semanas. É assim. De facto quem sou eu para opinar sobre o Carlos Castro. Adiante... já morreu.

Entretanto dá-se uma revolução, ou lá o que seja, no Egipto. Assim do pé para a mão. Uma novidade inqualificável mas que há falta de melhor chamamos revolução. A mim aquilo não me pareceu uma revolução pois as revoluções metem imenso sangue e mortes horriveis e essas coisas próprias das revoluções. Tem de ser. É o fim de algo e o começo de outro algo. São forças antagónicas que se degladiam. É como no universo. Algo ocupa o espaço de algo e raramente existe uma união das duas. Mas enfim, espero estar cá para observar o que se irá passar no Egipto. Sou um curioso destas “revoluções”. Vou recebendo inumera informação pelos órgãos de comunicação, muitos comentários, imensas tentativas de adivinhar o que se irá passar, extraordinárias previsões de pessoas com ar entendido no assunto e eu pasme-se, observo no meu sofá em directo e a cores o desenrolar no que se vai passando no mundo. Bestial.

O mundo mudou. Melhor... não mudou, o que está a mudar é a realidade que eu tenho do mundo. Hoje vejo-o a alterar-se ao vivo e a cores. Diariamente. Já não sei o que fazer. Penso no que posso eu fazer para me sentir parte da mudança a que estou a assistir. Informo-me, leio, converso, partilho, sei lá. Estou à espera, creio. À espera de não me sentir só no que quer que possa vir a fazer. Sinto que tenho de fazer algo. Penso imenso nos meus filhos e no que lhes quero dar. Esta coisa da democracia é um pau de dois bicos, se por um lado dá para sermos livres, por outro serve de argumentação para que nos mantenhamos assim numa espécie de letargia estúpida em que somos constantemente violentados e nada fazermos para que não o sejamos.

A Internet e o telemóvel são para mim a verdadeira revolução pois veio deixar em aberto a possibilidade de sermos realmente livres. Livres na mente. Livres para acreditarmos ou não. Passámos mais coisa menos coisa a ser todos jornalistas. Temos mesmo esse poder. Os orgãos de informação são mais do que nunca uma mera ferramenta de propaganda para o bem ou para o mal. Mas mesmo assim e com a verdade escarrapachada nas ventas ficamos à espera. É impressionante o ser humano, e extraordinária a capacidade para desenvolver anti-corpos. Há tempos a comunidade cientifica chegou à conclusão que descendemos de um vírus. Como se isso fosse alguma novidade. Vista do espaço a terra é azul. Não se consegue distinguir nem um único ser vivo. E é precisamente isso que nós somos. Um nada do todo. Ou então na melhor das hipoteses um monte de carne e ossos a transportar um cérebro que tem evoluído pouquissimo. Nós é que achamos que não. É curioso se pensarmos bem.

Cheira bem! Deve ser bolo do chocolate no forno. Vou comer uma fatia e beber um chá.

Beijinhos e essas coisas,

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O eleitor


Eleitor – Aquele que elege; que tem o direito de concorrer a uma eleição.

Há tempos comecei a pensar, mais uma vez, sobre outro assunto. O que me vale é estar vivo e ter tempo para pensar. Na realidade eu gosto de pensar sobre as coisas. Como diz um grande amigo meu é estar acordado, desperto, lúcido ou, mais profundo e só para alguns, consciente de estar consciente. Ao pensar nas coisas triviais consigo relativisar outras não tanto, como por exemplo, e esta não me sai da cabeça, “activos tóxicos”, uma expressão ultramoderna que no meu entender e depois de nem pensar tanto como isso, significa na linguagem lá da minha rua uma “terminologia fina para branquear o roubo”. Este mercado financeiro é voraz e insaciável. Os computadores deram-lhe o inimaginável – a existência de dinheiro não palpável e com ele justificar ganhos não justificáveis. Adiante...

Poderia escrever este texto para os meus filhos pedindo-lhes desculpa pela sociedade que lhes estou a deixar. Por tudo o que não consigo fazer e que devería estar a fazer como por exemplo atirar pedras aos mercados financeiros, esbofetear a classe política, entrar pelo parlamento dentro e pegar fogo àquilo. O poder de argumentação destas instituições terá chegado ao limite do plausível. Esperemos que não seja necessária um derramamento de sangue para o alterar, mas se houver não me surpreendería nada. A democracia está a servir propósitos obscuros servindo de escudo para os mais variados interesses mesquinhos que nada têm que ver com aqueles para os quais ela foi criada. E um dia a sociedade em que os meus filhos estão a crescer terá de rever os pilares da democracia. Tudo tem um começo, um meio e um fim. Sempre foi assim e sempre há-de ser. É uma questão de tempo.

Estamos no ano da graça de 2011 e vai haver eleições presidenciais em Portugal. Existem cinco candidatos, um deles a querer ser reeleito. Sinto uma profunda vergonha pela baixissima qualidade dos candidatos à presidencia. Não confio em nenhum deles nem confiarei. A minha racionalidade tem sido comprometida ou minada pelos seus discursos altamente elaborados mas o cérebro que existe no meu coração (descoberta científica recente) rejeita-os visceralmente. É como se quisessem fazer-me acreditar que levar com uma tábua na cara com toda a força não dói.

Tenho pensado não em quem votar mas como votar, falei com pessoas entendidas e cheguei à seguinte conclusão: votar é uma falácia, passo a explicar: como eleitor tenho quatro hipóteses - votar num candidato, votar em branco, rasurar o voto ou não ir votar. Falta uma outra hipótese onde eu pudesse expressar não reconhecer qualificação adequada em nenhum dos candidatos para ser meu presidente da república (vulgo funcionário público). Não há justificação razoável para tanta incompetência em tanta gente junta e com cargos de chefia.

Eu já nem sei se o candidato eleitoral é comentador de futebol, é deputado, é presidente de câmara, é crítico de novelas... valha-me Nossa Senhora. Bom, bom, será o FMI trazer em anexo um Presidente da República. Isso é que era. Não porque não haja cá gente muitissimo competente, mas o lodo é tal que já só lá vamos à chapada. Alguns nem isso, coitados, mas levavam na mesma.

Beijinhos e essas coisas,

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

A professora


Há tempos foi-me pedido que ajudasse o Manuel a fazer um trabalho para a escola. Era um trabalho sobre o D. João III, que tinha de ser feito no “Magalhães” – o computador. Estivemos a jogar uns joguitos no dito cujo para aquecer. Depois pedi-lhe para me mostrar o que já tinha feito. Não lhe perguntei como é que o fizera, mas o facto é que tinha um documento em “Word” com texto copiado da Internet. Como eu não tenho Internet em casa, limitei-me a trabalhar no que ele tinha feito. Também não lhe perguntei se o tinha feito sozinho ou com a ajuda de alguém, mas pareceu-me óbvio que teria tido a ajuda da mãe ou da irmã, não sei.

Ajudar o Manuel nos trabalhos de casa não é tarefa fácil. Percebi isso pois de cada vez que lhe pergunto se tem que estudar fica logo triste. É impressionante. É capaz de inventar algo com dois atacadores velhos e duas bolas de plástico dos ovos de chocolate “Kinder”. É capaz de se distrair com objectos simples como relógios velhos, caixas de cartão usadas e outros que não lembram ao diabo. A irmã, que é óptima aluna, às vezes até brinca com o que ele inventa. Tem uma capacidade nata de pegar em coisas e dar-lhes outras utilizações e é bem capaz de se distrair com a capa do livro que está descolada no cantinho em vez de ler o livro. Enfim… cada um é para o que nasce. E o Manuel nasceu para descobrir e inventar coisas.

Ora, quando lhe pedi para ler o trabalho que tinha preparado percebi imediatamente que ele não entendia quase nada do que lá estava escrito. Então, e devagar, começámos a tentar descobrir o significado de algumas palavras e conceitos. Fui arranjar exemplos que até a mim me surpreenderam mas que ele lá ia entendendo. Como é que se explica a Inquisição a um miúdo de nove anos? A mim ocorreu-me dizer-lhe que era uma polícia especial da Igreja para tomar conta das pessoas e as matar na maioria das vezes ou mandar matar. Ora o D. João III, ao que parece, não gostava muito dos judeus (pelos vistos a história é recorrente) e vai daí, fez um contrato com a sede da Igreja em Roma e enviaram para Portugal uns inspectores para matar os judeus ricos e depois dividiam o dinheiro entre eles.

O que pensará uma professora que tem dentro de uma sala minúscula 25 almas com nove anos e é obrigada a ensinar o que o sistema insiste em querer fazer acreditar que é “o básico para se ser um cidadão normal”? Eu na quarta classe tinha o livro único e em casa um telefone fixo e uma televisão a preto e branco com dois canais. Nessa altura a nave espacial que aterrou na Lua tinha menos capacidade informática que um telemóvel e eu brincava com os meus amigos na rua. Quando o Manuel vem ao meu “escritório”, dou com ele a brincar com o seu melhor amigo e colega da escola num jogo “online” chamado “Pinguim”. E a professora quer que ele desenvolva um trabalho sobre o D. João III, “o Piedoso”!

Será sem dúvida por não conhecermos ou compreendermos correctamente o passado que somos o que somos. Uma nulidade cultural sem fim. Mas a culpa, porque a há, não é dos miúdos – é nossa, que ainda não aceitámos alterar o estado da nação. Não são 30 anitos de uma democracia alicerçada sabe-se lá onde que vão alterar 48 anos de uma política que teve como pilar a anulação da cultura de um povo.

Valha-me Deus… ainda vou preso.

Beijinhos e essas coisas.