terça-feira, 22 de setembro de 2026

O dona de casa


Até aos meus dez anos, a vida era uma linha reta e absolutamente bestial. Crescia no bairro de Benfica, protegido pelo teto seguro dos meus pais e o externato Grão Vasco, mas o meu verdadeiro mapa da felicidade desenhava-se nas férias. Íamos para Tondela, para a casa dos meus avós. Lembro-me perfeitamente das subidas à Serra do Caramulo pela mão do meu avô, a ver o mundo lá do alto, e do aconchego da minha avó a comandar a cozinha na altura do Natal, entre cheiros e afetos que pareciam eternos. Tive uma infância feliz, daquelas com sabor a província, leite com natas, perus bêbados, chão firme e muito amor.

Depois, o calendário bateu em 1974 e eu levei por tabela. O pós-25 de Abril não foi só a festa poética que a televisão celebra; para um miúdo de nove anos, foi uma monumental e aparatosa confusão. A estabilidade evaporou-se, a escola virou-se do avesso e as minhas aventuras da juventude perderam a inocência, empurradas para o turbilhão desregrado das décadas de 80 e 90 e todas as experiências sociais nelas contidas. Sabemos que nos treze da gestão das colónias morreram doze mil almas, metade por acidentes de trabalho. Nas décadas de 80 e 90 não sabemos quantos morreram por causa da droga, mas todos temos a sensação que foram muito mais.

Há quem use o futebol por exemplo, para fugir de si mesmo, da guerra, das notícias diárias que nos revelam um futuro sombrio. Para anestesiar a cabeça com golos e táticas de bancada intermináveis. Eu não tenho esse filtro. Não sei ver o mundo através de uma bola, sou obrigado a olhar para dentro, a escrever sobre mim mesmo e a encarar o saldo da vida sem anestesia. E a verdade é que, às vezes, dou por mim a olhar para as paredes desta casa e a pensar: estarei eu aqui a pagar uma fatura antiga?

Sejamos honestos: na ressaca daquela juventude confusa, eu não fui um santo. Não é que tenha feito um mal irreparável ao mundo, mas à minha mãe... valha-me Deus. Dei-lhe preocupações. Das grandes. Das que deixam os cabelos brancos antes do tempo e fazem o coração apertar enquanto o relógio avança pela noite dentro. Fui o produto de uma geração à deriva, a testar os limites de um país que também já não os tinha.

Hoje, aos 61 anos, fechado nesta fortaleza com ela, o cenário inverteu-se. A engrenagem da vida, com a sua ironia habitual, colocou-me no papel de dona de casa, de pilar dos seus dias. Há quem veja isto como um sacrifício ou use o rótulo cinzento de "cuidador informal". Para mim, é algo muito mais íntimo. É o meu purgatório particular, mas um purgatório escolhido e vivido com um sorriso de soslaio. 

Cuidar dela hoje, gerir as refeições, a lixívia e o silêncio das nossas quatro paredes, talvez seja a minha forma secreta de redimir os sobressaltos de outrora. No fundo, cada prato que lavo ou cada olhar de cumplicidade que trocamos é um ponto ganho contra a culpa do passado. É a garantia de que, quando a noite cai e o mundo lá fora continua o seu ruído absurdo, eu posso finalmente encostar a cabeça na almofada com a consciência tranquila.

E no entanto não sei quem está a tomar conta de quem, se eu dela, se ela de mim.